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Primavera

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Em 1963, o eclético Luís Sttau Monteiro escreveu o livro Todos os anos pela Primavera, forte crítica ao regime salazarista, que o estimado Nuno Álvaro Vaz passado algum tempo fez o favor de o retirar do limbo dos reservados vendendo-mo embrulhado em papel anónimo que, segundo o escrito que nele coloquei foi no ano de 1964. Li o escalofriante libelo num ápice para depois circular através de mãos seguras e cautas, hoje repousa ao lado de outros do mesmo autor que anos mais tarde conheci em ambiente de melhor qualidade, até festivo num restaurante da Avenida Visconde Valmor, em Lisboa. Noutro registo, noutras paragens, tive a felicidade de assistir ao bailado A Sagração da Primavera, do genial Stravinsky. A Primavera que recordo é a vivida nos anos felizes, logo bem fruídos em Lagarelhos e Bragança, balizados pela frigidez do autoritarismo bafiento do Botas de Santa Comba e a majestade dos quadros da Mãe Rússia de Igor, a evidenciarem a dualidade Bem e Mal que nos marca a vivência na justa medida da nossa intervenção nesse mesmo devir. Por isso mesmo, os leitores que ao longo dos anos fazem o favor de lerem aquilo que escrevo sabem quão gosto de discorrer sobre o que observo, perscruto, o que vejo, ouço, provo, tacteio e cheiro. E, neste tempo de calafrios, ameaças invisíveis a redundarem em sofrimento facilitador da tarefa da Senhora da gadanha, a toda a hora, a todo o momento, só encontro apaziguamento na leitura, na audição, na escrita. Nada mais. Tempos medonhos a separarem-me de entes queridos por que assim o determina o bem comum embora esta noção de bem comum não passe de filosofia de pacotilha para lamentação jerumiada no decorrer de, ocasionais encontros, nos peripatéticos passeios em redor da casa. A primavera pautava em quatro andamentos do esfusiante bailado das andorinhas a anunciarem tempo para amarmos perdidamente a iniciar-se na festa das Laranjas junto à capela de S. Lázaro, a prosseguirem excitados até às férias pascais, o jejum dos interditos eram os dias sem aulas, prosseguiam entre zumbidos de insectos bisbilhoteiros no Mês de Maio, o mês mariano da novena na Sé onde a algazarra provocada pela colocação do cinto, dos cintos, representavam a utilidade dos normativos em uso e, quando quebradas as amarras o clamor gerado corria montes e vales pontilhados de flores até chegarem às casas paternas semeando, discórdias, lágrimas e suspiros, ao exemplo do drama filmado por Ingmar Bergam. A Primavera findava num tropel de amplexos sussurrados de amor ao estilo de Romeu e Julieta visto o ano lectivo ter findado e, outro confinamento repleto de dúvidas e raivosas ciumeiras principiava. Na altura, a maioria de nós desconhecíamos as atrocidades dos esbirros da PIDE, menos ainda a obra maestra do compositor russo amante da liberdade, os ardores dos três meses de Inferno exibiam- -se nos troncos nus dos ceifeiros e nos braços níveos motivadores dos conceitos de sangue azul das senhoras frequentadoras da missa das seis. Não enfado mais os estimados leitores afirmando quão me custa sentir e ouvir este eterno retorno da vacinação e ouvir a gaguez da ministra Temido, a charamela de Graça Freitas, ficar entorpecido pelos gráficos de Marques Guedes e o ora não advogado Júdice, a blasfemar contra os revisionistas da história (ainda bem que não sabem onde param as calças do desditado Gungunhana), sem esquecer os brados e remoques de uma senhora «científica» a entaramelar dogmaticamente o significado de racismo afirmando ser de via única do homem branco, nunca podendo ser do homem negro ou amarelo contra os brancos. Ou a senhora viajou pouco ou então é vesga, visgarolha como se dizia na vetusta cidade do Braganção. Vá ao Gana, à Costa do Marfim, ao Senegal, a Moçambique (no Maputo senti- -o bem mais pesado do que na Bronx) ou na África do Sul. A pandemia leva-me a conceder atenção aos detalhes (boa sorte Carlos Moedas), não o faço gostosamente, faço-o socavando reminiscências possivelmente serôdias, só que o vírus tem esse condão, ao invés dos esquecimentos do ministro de fala atabalhoada a prometer computadores e vacinas aos professores imitando os vendedores de atoalhados, colchas e cobertores no Toural ao preço da uva mijona origem de zurrapas vendidas ao balcão pelo Senhor Cipriano Augusto Lopes, o Verbo, opositor do Estado Novo nas quatro estações do ano, mesmo de madrugada quando gabava as virtudes de uma peça de duvidosa autoria do Mestre Rafael Bordalo Pinheiro.

Armando Fernandes