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Portugal, Portugal

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Boas tardes, meus caros. Escrevo para o distrito de Bragança onde o deputado do Benfica teve a segunda maior votação. Não vos condeno o feito, nem vos gabo a sorte. Compreendo-vos. Um país que vos olha ainda mais de lado. Votastes num político anti-sistema do sistema até à ponta dos cabelos que subiu os polidos degraus dos jotinhas, dos padrinhos e dos cristãozinhos perfeitos. Não os cristãos que como Cristo se sentavam à mesa com ministros, putas e pulhas e em todos procuravam a redenção. Não do Cristo proto- -feminista do atire a primeira pedra de há dois milénios, mas dos cristãos inquisidores, da perseguição e da tortura, dos que mandam Cristo às favas e estão mortinhos para que o Papa Francisco tome o mesmo caminho, dos que querem fazer valer a constituição da instituição para ver o mundo bem dividido entre beatos e satanáses segundo as inquestionáveis e divinas leis dos antigos regimes. Vá de retro esse catolicismo! Como braço direito e fiel cardeal Cerejeira, o inatacável presidente do Benfica para completar a bendita neo-triologia deste país: CMTV, Benfica e Fátima. A família que seja monoparental, monofilial ou até monossexual desde que eles não se cheguem para o meu lado. A força do meio de comunicação mais impactante de Portugal aliada às duas instituições mais influentes do país. O deputado criado pelo futebol e pelo espaço de opinião que, como os da sua estirpe, tem um percurso muito do bem, mas se expressa em oco português tasqueiro. Perspicácia bastante para o seu plano de chegar ao poder pelo caminho mais rápido entre os pingos da miséria, da falta de ideias e de rumo. Velejando mais à bolina de quem o repugna, do que de quem o apoia, que lhe faz a vontade de o colocar invariavelmente na ponta da língua e na crista da onda. Mas a culpa não é dele. O caminho foi aberto por nós, que confiámos tudo à classe política como se eles fossem feitos de matéria diferente da nossa. Como se quando eles dizem povo, não se estivessem nas tintas ou sequer se verdadeiramente o conhecessem. Como se não quisessem, mais que tudo, remediar as próprias contas bancárias como todos os outros, que ideologias são muito bonitas, mas não pagam dívidas nem enchem a barriga. Como se quem fosse hoje para a política não fosse sobretudo por isso, e entre tantos, quando as coisas dão para o torto, valham- -nos os independentes que nos acudam, seja na Economia, na Saúde ou na Educação, porque eles disso percebem pouco. Como se Portugal não estivesse hoje ainda mais binomizado entre Lisboa e Porto (mais o Allgarve nas pontes e feriados) e o resto do país, essa cambada de labregos, Terra Nossa, que pouco mais servem do que para continuar a ser satirizados, sendo que às vezes sai de lá um Tino que, grunho, consegue quase tanto como os políticos ultra-profissionais, tendo pelo menos o bom-senso de não fazer publicidade atrás de publicidade daquilo que não se quer comprar. Como se Portugal fosse só um par de meios urbanos, ou a América só Nova Iorque, e no dia das eleições abríssemos todos muito a boca de espanto porque não é tudo como nos Instagrams e afinal não pensamos todos tão bem como os John Stewarts deste mundo. Com esta é que não contávamos, país de burros, país de incultos, é o que é, culpa dos parolos de além A2. Como se os partidos não vivessem tão alienados no seu exclusivo mundinho e não nos governassem em modo “para quem é bacalhau basta”. Como se a direita não estivesse ruída e a esquerda pelo mesmo caminho, batendo-se quase só por moinhos de vento com fraquinhos moleiros sem a mínima ideia de como produzir farinha para o povo ter pão. Como se ainda alguém passasse cartucho a essa história das direitas e das esquerdas de quatro ou cinco gatos pingados, capazes de sequer convencerem um jovem a sair de casa para colocar um papel dentro de uma caixa, num país que não sendo para velhos, são eles que ainda vão votando. E fazem-no, muitas vezes, mais em memória de não o terem podido fazer no passado do que propriamente pela vontade de o fazer no presente. E, amigos brigantinos, quando com tudo isto votais no deputado da CMTV, os capatazes ainda carregam mais em vós, enfiam a cabeça e estalam com raiva o chicote nas vossas costas provincianas, sois vós os maiores culpados como se quisessem saber de vós ou sequer tivessem muito melhor para vos oferecer. Na única vez que sois necessários para alguma coisa, nem uma cruz sabeis pôr no sítio certo. Para isso, morte ao interior moribundo, que vá morrer (ainda mais) longe de uma vez. Já Fernando Namora escrevia, depois da revolução, mas ainda longe da CEE, que enquanto tivéssemos mentalidade de assistidos nunca saberíamos fazer cumprir a revolução. E aqui continuamos nós a assistir à desassistência, desistidos, à espera que alguém mexa uma palha para prontamente comentarmos o que foi feito. E com esse muito nosso desporto de comentar e opinar, que além de desporto passou a catapulta para o poder-poleiro, lavamos as mãos no que faz o governo, todo-apoderado e tudo-criticado, mas a caravana passa sempre imperturbável. Nisso não temos qualquer diferença em relação ao povo chinês que delega tudo no partido único, que remédio, com a diferenca que não pode refilar. Residindo nesse apático estrebuchar, a principal democrática diferença. Somos um país que se diz livre de liberdade dependente de terceiros. A liberdade filosofal como bola colorida entre as mãos de uma criança com o mundo inteiro pela frente mas que não sobrevive um dia sem a saia e o biberão da mãe. Haverá liberdade sem pão ou sem o que faz fazer o pão? É livre um país que aos 900 anos vive em casa dos pais e em tudo deles depende? A noite já vai longa para retóricas. De modo que nós que já não produzimos nem revoluções nem o resto, tirando talvez vinho, vivemos literal e pré- -historicamente do que a natureza nos vai dando, os campónios de chuva na horta, os cidónios de sol na praia. Quando a fome aperta, de mãos nos bolsos, assomamo-nos ao sítio do costume à hora marcada, ansiosamente à espera das bazucas de sopa que nos traz a europeia carrinha da Comunidade Vida e Paz, sem a qual não conseguimos pôr uma perna à frente da outra. E depois disso, muitos de nós não passamos sem a carrinha da metadona para recolher as bazuquinhas sem as quais não conseguimos dormir nem dominar os espíritos. E com isto, minha gente, boa noite que já é tarde, a conversa está boa mas vou à cama, deixa só ver o Facebook que antes era gatinhos e boas intenções e agora é só odiar e dividir, sempre a facturar a fracturar. E nisto perdi- -me nas horas, vamos dormir para amanhã tomar café, agora que já nem há postigo, Portugal, Portugal, amanhã é outro dia, sempre à espera, cada vez mais no fundo do mar, nação dolente e banal, da qual Portalegre, Bragança e tudo onde a maresia não alcança são o corolário do atraso de vida, não fazem cá falta nenhuma. Era vender tudo aos espanhóis para olival ou aos chineses para arroz. Mal por mal isto já é tudo deles. De maneiras que, caros bragançanos, não se iludam, a culpa é exclusivamente vossa e de outros como vós. Marquem na agenda, eles hão de voltar aí na próxima campanha eleitoral e fazer o frete com o melhor sorriso amarelo. Enquanto isso não espereis ser compreendidos, tidos ou achados, pois a culpa não é dos governantes, a culpa não é dos mesmos, da minoria que nos domina, a culpa nem sequer é de todos nós. Faz-se tarde, boas noites. Portugal, Portugal, venha o diabo e escolha.

Manuel João Pires