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Por quem os sinos dobram

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O ambiente no País está quente porque o sol «baixou» levando em linha de conta o saber empírico da Dona Carminda, minha estimada sogra. Infelizmente já falecida. O ambiente diurno e nocturno está quente apesar do madeirense Sérgio Borges há um saco de anos ter avisado que : «Setembro chegou, o verão terminou». Os tempos são outros, de pandemia, os sinos dobram chorando, chorando, pelas centenas de milhares de mortos, pelas centenas de milhões de desempregados, pelas centenas de milhões de jovens desprovidos de esperança num futuro pleno de entusiasmo por estarem a diminuir as desigualdades de todo o género. Os dias estão crispados, agressivos, impacientes, a perplexidade cresce como crescem os cogumelos no tempo chuvoso, só não vê quem não quer ver, os dados a pensarem a causa das coisas vivem angustiados ante o valimento das «profecias» de George Orwell, raro é a semana que não surgem invenções a castrarem a nossa liberdade, a confinarem-nos ao cárcere do isolamento vigiados pelas plataformas manejadas sabe-se lá por quem. Por ninguém, escondido algures deixando uma ponta de um dos seus muitos rabos de fora a permitir a um qualquer chantagista bufar de modo a ser premiado sem escândalo ou protesto da República, o rocambolesco Rui Pinto é paradigma da «democracia» em curso. O notável prosador Tomaz de Figueiredo escreveu Procissão de Defuntos, está lá tudo quanto é a possibilidade de sermos indignos, eu sei, muito de nós sabem quão enorme é o desconhecimento da obra do émulo de Francisco Manuel de Melo, de Manuel Bernardes, do excelso António Vieira alvo da ira de crápulas analfabetos fanáticos estilo maoismo Pol Pot. O clima favorece os extremismos, a deturpação da linguagem, o banimento das normas de civilidade, os profissionais das televisões chochos de prosápia pontapeiam a senhoria na esteira do plumitivo – oh Manuel, sim José – estribado na besta estrangeirista. Os chochos só têm emenda com um arrocho de marmeleiro que é bambo e flexível. O Setembro deste malfadado ano (a fada má deu um beijo vampiresco, sedento do nosso sangue, à fada boa) prossegue na valorização da insanidade como se fosse um passeio aos domingos (José Régio, David Mourão Ferreira, enquanto esteve na tropa, e outros faziam-nos no sopé da Serra de São Mamede), e não é, é sim a bastardização do intelecto nuns descarada normalização rasteira propícia aos répteis de duas pernas perpetrarem negociatas pagas por um Zé Povinho sem energia capaz de produzir virulento corte de mangas. Há anos passei uns dias em Jerusalém, se a cidade por si só emana respeito e minuciosa observação, a sacralidade do Muro das Lamentações é pungente obrigando-nos a rememorar o fluir do profano no universo do sagrado, agora, em 2020, o desfastio relativamente ao sagrado acentua-se a cada dia que passa, os exegetas estudam e meditam, restam poucas vozes dignas de serem ouvidas, duas delas transmontana – Adriano Moreira e António Barreto –, só que Barreto tem sido atacado porque não teve pejo em parafrasear o Menino: rei vai nu. A ortodoxia passeia-se rotunda e segura que a vindima de Setembro será de boa qualidade. O Zeferino camiliano também foi vindimado! Os sinos, plangentes, continuam a dobrar!

Armando Fernandes