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Obrigado aves do céu

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Quando nos aproxima - mos dos pássaros, estes afastam-se. Alguns saltam, outros põem-se a correr, muitos tomam o seu voo. Gostaria de dizer algumas palavras sobre eles, mas com medo de que fujam, falemos baixinho. Recentemente, os especialistas do mundo inteiro publicaram um relatório sobre a diversidade: “ um mundo sem aves, seria…” Este título deixou-me numa tristeza tão profunda que me pareceu mesmo excessiva. Mais triste me senti ainda quando vi que o meu país também fazia parte do estudo. Sobretudo que na minha infância vivi íntima e harmoniosamente com o meio rural onde abundava a passarada. Desde há décadas que se fala do desaparecimento das espécies, do empobrecimento da natureza, da ameaça sobre os recursos naturais; constata-se uma destruição com peso e medida, a das florestas, dos solos, dos mares, do ar, do mundo animal… Como há também esta invisível destruição do nosso equilíbrio íntimo que pretende que, para suportar o destino, necessitamos de tudo o que vive e particularmente dos animais. Confidentes sem o saber, aliviam o nosso fardo e apoiam a nossa marcha, até a encantam. Não sei de nada, mas abrigam qualquer coisa de nós mesmos. Não os deixemos fugir. A tristeza habita todos os países e todo o género humano. E o fenómeno parece agravar-se a um ritmo muito acelerado. A estimativa é que de ano para ano esta aumenta um por cento; da tristeza e do ódio juntamente com a ausência de alegria. A esta velocidade de propagação, não vai demorar que nos atiremos todos pela janela do céu, à procura dum buraco negro que nos acolha para nos libertar dos problemas que nos desassossegam e que resume a palavra: existência. No palmarés mundial, os países mais pobres parecem ser os países ivadidos pela Guerra, o sorridente continente latino-americano sabe levar a vida apesar de todos os defeitos dos regimes que sofre, da fome que perdura e da violência permanente. Ao lado do pequeno monstro omnipresente e invisível que invade os nossos dias, a perda da biodiversidade é também uma das causas maiores do nosso blues atual. A crise das espécies, que faz com que um milhão de entre elas esteja ameaçada a curto prazo (antes do fim da nossa própria vida!), assusta toda a humanidade. Quando se fala da ausência da alegria humana, não podemos impedir-nos de invejar os pássaros sobreviventes do desastre que saúdam cada aurora nascente com os seus chilreares alegres. Acreditam no dia que começa, acham que o que se segue será bonito, que terão grãos caídos para apanhar e que os congéneres que, de longe, os saúdam serão simpáticos e companheiros. Com o aproximar da bela estação, lembro-me, com saudade, duma tardinha e dum longo passeio pelo campo, um pouco fastidiosa, com o tempo algo húmido. Mas chegou a hora em que certos pássaros, que até ali se mantinham em silêncio, se puseram a cantar. Será que se preparavam para anunciar o anoitecer? Ter-seiam apercebido da noite iminente? O vento tinha caído, até ali fazia tremer a copa das árvores, sentiriam que o seu canto tinha ecos longínquos e que era o momento de dizer o que haviam que declarar? Ou estavam a prevenir os seus semelhantes do lugar em que se encontravam, estariam a avisá-los da nossa passagem, informariam a colónia sobre um lugar identificado de nova pescaria? O cortejo sonoro dava ao campo a sua densidade, às árvores a sua altura, aos caminhos a sua razão de ser. Apeteceu-me dizer-lhes “obrigado, aves do céu”. Porquê que não somos como as aves do céu, disponíveis para esta alegria nativa, para esta despreocupação evangélica, em suma! Porém, temos de ser invadidos pela inquietude do nosso futuro comum, desta “ sexta extinção” que nos anunciam para o fim da nossa caminhada quando, todas as espécies tendo já desaparecido, só nos restará descampar quando chegar a nossa vez piedosamente em direção à saída definitiva, deixando o palco livre para os seguintes – mas que seguintes? A morte individual não é nenhuma novidade na terra. Estamos prevenidos desde a origem, contudo o que ignorávamos, é a hipótese da morte coletiva, universal, o desaparecimento de todos juntos. A nossa nave de loucos vai certamente afundar-se, teríamos estado prevenidos. Difícil, à espera, de assobiar como um pintassilgo feliz ou viravoltear como um latino a dançar.

Adriano Valadar