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Justiça

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«A justiça é a grandeza das nações», lemos em Provérbios, 14: 34. À frente (25: 26), lemos: «Fonte turvada e um manancial contaminado, / assim é o justo que vacila diante do ímpio.» Parafraseando dito marxista, escrevi, já, que a justiça é o pio do povo. Pio, no sentido de se fazer ouvir, enquanto liberdade de expressão, não ópio, mesmo se casos mais badalados se transformam em lamentáveis narcóticos informativos.
Dois protagonistas, nossos comprovincianos, concorrem para a grandeza desta nação: Luís Maria Vaz das Neves e Manuel da Costa Andrade. Aquele acaba de se jubilar como presidente do Tribunal da Relação de Lisboa; este acaba de ser eleito presidente do Tribunal Constitucional. Falarei, ainda, de uma senhora desembargadora.
Conheci Costa Andrade há 41 anos, deputado do PPD na Assembleia Constituinte. Num regresso de Lisboa a Bragança, deu-me boleia até Coimbra, e dormida em sua casa, espaçosa, com ar de república, iluminada por essa generosidade que sempre associei ao sorriso do nosso grande penalista. Acompanhei-o de longe, apreciei alguns pareceres e, como exemplo de vida, nunca esquecerei a confissão das dificuldades por que passou na Alemanha, quando preparava o doutoramento.
Luís Vaz das Neves conheci-o, tão-só, há um lustro, no pontificado amigo de Amadeu Ferreira, a cuja biografia – O Fio das Lembranças (2015), de Teresa Martins Marques – dedicou larga prosa e um tesouro de afectos, na concorrida apresentação pública, quatro dias após a morte física de quem assinava Fracisco Niebro, entre outros pseudónimos. Em sede institucional, o mirandês de Luís Maria ia a par do português, caso da apresentação do volume-álbum Tribunal da Relação de Lisboa. Uma Casa da Justiça com Rosto (2010): «Este texto está em mirandês porque esta é a primeira das duas minhas línguas maternas, aquela em que aprendi o mundo e o sentido de JUSTIÇA.»
Galardoado pelo seu município de Miranda do Douro, em 10 de Julho, ignorou a Imprensa regional a homenagem da véspera, em hotel de Lisboa, onde duas centenas de comensais, das áreas do Direito e da Justiça, da respectiva ministra a familiares e amigos, cantaram loas a quem deu rosto fresco a velha casa, abrindo portas e convocando a sociedade. Peregrino de décadas na Rua do Arsenal, intrigava-me edifício que decide de tantas vidas; conheci-o, enfim, no consulado de Luís Maria, assistindo a apresentação de obra sobre a Ópera do Tejo ou Real Casa da Ópera, sensivelmente no espaço da actual Relação, e que entre Março e o primeiro de Novembro de 1755, só estreou uma peça, em 16 de Outubro.
Teresa e eu, contudo, não vemos Luís Vaz das Neves – seja à mesa ou nos nossos lançamentos – sem Dina Maria Monteiro, já na coordenação daquele volume sobre a Relação, onde é desembargadora, já na organização do jantar-surpresa de 9 de Julho. Isso ainda seria pouco, se não houvesse angariação de fundos para obras de solidariedade, decorrente de uma impressionante capacidade de reunir profanos e agentes da Justiça. Sair daquele Tribunal e descer ao terreno não é para todos: sem vacilar, assim se combate a impiedade, ou a dura sorte. Dina Monteiro, vinda do Brasil, transmontana de adopção, concorre igualmente para a grandeza de Portugal.             

Ernesto Rodrigues