Esquerdizar

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De vez em quando vou até à rtp memória espreitar velharias, um impulso saudosista que deverá ser da idade. A série humorística “tudo em família”, do início dos anos setenta, onde se mostram as raízes de muita coisa esquisita que hoje se passa na américa. E no mundo. Mais ou menos da mesma altura, a rubrica “memórias da revolução”, quando o esquerdismo nos invadiu as mentes de forma espetacular e ruidosa. Meio século depois ainda surpreende a repentina borracheira radical de um povo que antes tinha suportado anos e anos de despotismo com uma docilidade de jumento. Acabados de sair de tempos depressivos, e crendo abraçar verdades que nos iriam redimir, levámos uma lavagem ao cérebro prodigiosa quase sem dar por ela. Mas isso pouco importa, onde não houve revoluções o esquerdismo entrou na mesma, e com tanto sucesso que emprenhou uma porção considerável da humanidade. Antigamente costumavam dizer-nos que nascíamos em pecado, uma invenção marcante pelo que implicava de culpabilidade, embora tivesse a virtude de poder colocar um travão nas nossas pulsões animais e evitar fazer o menor mal possível aos outros e a nós mesmos. Aliás a intenção era mesmo essa. Depois então as esquerdas começaram a persuadir-nos de que nascemos vítimas, o que veio mudar de forma dramática a perspetiva sob a qual nos vemos e vemos o que está lá fora. Não é que muitas vezes não o sejamos, obviamente que sim, mas também acontece a todo o momento não o sermos em exclusivo. É muito comum a vítima participar ativamente nos acontecimentos que conduzem à sua vitimização, jogando um jogo perigoso com o agressor. Até porque, mesmo se comandado do inconsciente, o ato de provocar alguém pode ter como finalidade ser abusado para obter algo que se considere vantajoso. As atitudes de a produzem efeitos e retiram de b o que este tem de melhor ou de pior. Junte-se que um ser humano adulto, normal, saudável, pode em infindas circunstâncias da vida usar a faculdade chamada livre arbítrio para fazer escolhas, não ter estado onde estava, com quem estava, fazer o que fez, dizer o que disse. E, principalmente, que em nós coexistem em permanência o anjo e a besta, forças que alternam a cada passo nas ações e relações. Somos uma coisa e outra em função da idade, da educação, dos humores, do tempo, do lugar, daqueles com quem estamos. Atendendo ao que se vê por esse mundo fora parece inclusive que a besta leva a melhor a maior parte das vezes, fazendo igualmente de cada um o seu pior inimigo. E por várias razões, a primeira das quais é que controlá-la requer entrar voluntariamente num percurso mental e espiritual que é tudo menos atrativo. O novo esquerdismo cega-nos para banalidades como estas ou faz com que passemos por elas como cão por vinha vindimada. A verdade é que nos implantou na mente um mecanismo que distorce factos, enviesa a realidade, ignora tudo o que o contradiz. Já a vitimização é para ele um dogma que rapidamente adotámos e nos leva a desvalorizar o que podemos fazer acontecer nas nossas vidas, a dar realce aos desejos e atos exteriores que influem nelas e, acreditamos também, nos querem prejudicar. Nem sempre querem, como se compreende, mas as lengalengas repetidas fazem-nos a cabeça e tornam-se verdades inquestionáveis mesmo se o que há a pagar por elas é a menoridade, a dependência, a estupidificação. O sentimento de vitimização está hoje disseminado pela sociedade, em indivíduos e instituições, da esquerda à direita passando pelo centro. Bastaria mencionar que, no espaço público, um microfone ou uma câmara apanhados pela frente fazem disparar em nós quase de forma mecânica discursos que desfiam desgraças, choramingam queixumes, pedincham apoios, reclamam subsídios, exigem garantias, batem com insistência no pedal dos direitos. Se a esta torrente reivindicativa correspondessem níveis razoáveis de responsabilidade, exigência pessoal, sentido do dever, consciência cívica, seria senha de progresso. Mas não, o mesmo melindre egocêntrico que leva meio mundo a apontar o dedo ao outro meio à mais pequena contrariedade cuspindo denúncias, indignações, acusações, protestos, revoltas, parte geralmente do princípio de que não devemos nada a ninguém. A hipersensibilidade não implica contrapartidas sociais da nossa parte, os outros é que estão em dívida para connosco.

Eduardo Pires