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Bragança: anos de 1700: Quadros Sociais- Preso como fautor de heresias

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Já em outra ocasião falámos de António Malheiro da Cunha e das suas origens, humildes e pouco de acordo com o ordenamento canónico. Criou-se na Ervedosa, mas cedo foi para a cidade de Bragança, onde teria proteção do avô materno, António Malheiro e onde, naquele tempo, a carreira militar se apresentava muito atraente. Subiu a carreira a pulso e ocupava o posto de sargento-mor na praça de Bragança quando, Sua Majestade lhe concedeu do Hábito de Cristo. Para, efetivamente o receber, tornava-se necessário provar a sua limpeza de sangue e modo de vida “à lei da nobreza”, eufemismo para dizer: riqueza, abundância de bens. Veja-se o relatório das “provanças”: - A António Malheiro da Cunha foi V. Majestade servido fazer mercê da Ordem de Cristo e das provanças que se lhe fizeram para a poder receber, constou ter a limpeza necessária. Porém, que o mesmo justificante é maior de 50 anos e que seu pai foi sapateiro e lavrador seareiro, a mãe tecedeira e a avó materna mulher humilde, pelos quais impedimentos se julgou não estar capaz de entrar na Ordem; do que se dá conta a V. Majestade, como perpétuo administrador desta… Lisboa Ocidental, 17 de Janeiro de 1720. (1) Recorreu o justificante, argumentando que foi pelos seus próprios méritos que o Rei o condecorou com a Ordem de Cristo, apresentando o próprio alvará de Sua Majestade e solicitando ao mesmo Soberano que o dispensasse das “provanças”. Era um recurso geralmente apresentado pelos candidatos que não pertenciam à Nobreza e tal condecoração era a porta de entrada para a mesma classe. O alvará de António Malheiro tem particular interesse por nos mostrar um pouco da evolução guerra. Veja-se então o mesmo alvará: – El-Rei, havendo respeito aos serviços de António Malheiro da Cunha (…) feitos nas províncias do Alentejo, Trás- -os-Montes, Beira e Principado da Catalunha, em praça de soldado, cabo de esquadra e sargento e nos postos de alferes, ajudante, capitão e sargento-mor de infantaria e nas praças de Bragança e mais, por espaço de 30 anos, 3 meses e 7 dias continuados, de 9 de Novembro de 1686 até 16 de Março de 1717, em que ficara continuando: no de 1704, sendo alferes, ir com 100 soldados de socorro para Alfaiates e assistir nela 8 dias, por recear que o inimigo a invadisse; no de 1705 se achar nos ataques de Valença e no assalto que se deu a brecha sair ferido com uma besta pelo braço esquerdo da parte a parte e no dito ano se achar na restauração de Marvão; no de 1706 nos sítios de Alcântara e Cidade Rodrigo e nas mais operações do exército que penetrou Castela até Valença e assistir, sendo já capitão, no quartel de ??? Pequena???, com contínuos rebates do inimigo; no de 1707 na batalha de Almansa, com muito valor até ficar prisioneiro e com 5 feridas muito perigosas, uma destas de bala que lhe levou o beiço de baixo e parte da língua com os dentes; e ficando prisioneiro em Bayona voltar para este Reino onde, no ano de 1708 se achou nas operações do exército no Alentejo; e sendo provido nos postos de sargento-mor das praças se haver com muita vigilância e cuidado em tudo o que tocava á sua obrigação com satisfação de tudo; Há por bem fazer-lhe mercê de alvará de ofício de justiça ou fazenda até 50 mil réis e de 80 mil réis de tença efeitos em um dos almoxarifados do Reino em que couberem sem prejuízo de terceiro e não houver proibição com o vencimento, na forma da Ordem de SM, dos quais serão 12 mil réis para sua mulher, D. Mariana de Morais e 50 mil réis em sua filha chamada também D. Mariana de Morais e os 12 que restam a cumprimento dos 80, os logrará ele a título do hábito da O. Cristo que lhe tem mandado lançar. Lisboa Ocidental, 31 de Março de 1719. (2) Atendeu el-Rei ao pedido do suplicante concedendo-lhe a Ordem de Cristo. Por esta altura tinha já a guerra terminado e António Malheiro era já um homem de prestígio na sociedade brigantina. E desde há anos, um esforçado colaborador da inquisição. Em prova disso está o facto de em Novembro de 1714, na ocasião da vaga de prisões que vimos tratando, ter sido depositado em sua casa o mais influente e notável dos 9 prisioneiros: Francisco Rodrigues Ferreira. Aliás, ele fora já “ocupado outras vezes para fazer prisões de cristãos-novos e por muitas vezes teve prisioneiros em sua casa”. Era capitão naquela altura e tinha um irmão, igualmente militar e com o mesmo posto que, em paralelo, era familiar da inquisição – Domingos Pires Malheiro, que por aquela altura faleceu. (3) E então ele decidiu candidatar-se, apresentando o requerimento em Julho de 1719. A essa altura, se bem que tendo casa montada em Bragança, António Malheiro da Cunha encontrava-se servindo no posto de sargento-mor da praça de Chaves. O seu processo de habilitação é muito interessante, por nos dar notícias de acontecimentos históricos e da paisagem social da região da Lombada, onde nasceram e viveram seus antepassados. Assim, ficamos sabendo, por exemplo, que a aldeia de Moimenta foi 3 vezes arrasada pelos espanhóis na guerra da Guerra da Sucessão de Espanha, com incêndio da igreja e dos livros de registo de batizados e casamentos, (4) pelo que não foi possível provar a naturalidade de um avô. Nem a do próprio candidato, pois também na Ervedosa os livros desapareceram, queimados no tempo da guerra. Da identidade dos seus pais e dos avós, já falamos quando se tratou do seu irmão Domingos, que era o familiar do santo ofício que dirigiu a coluna de prisioneiros para Coimbra. Chegado a Bragança e entrado na vida militar, António Malheiro tratou de casar, o que consumou com Brígida de Morais, “filha de um coveiro”, da qual, estranhamente, parece que as origens se não investigaram, com a profundidade costumada. Terá funcionado a “cunha” do padre Inácio Bernardes a quem o candidato escreveu, recordando as falhas dos arquivos paroquiais, acrescentando: - Peço a Vossa Mercê, que veja como temos de acabar de concluir este negócio (que se não podem achar livros que deem inteira razão destas coisas. Peço a V. M., podendo ser, que esta diligência venha cometida ao reverendo abade de Vinhas ou ao de Rebordãos (…) Espero que V. M. me faça honra e favor de encaminhar este negócio, que o saberei merecer. Chaves, 1 de fevereiro de 1721. (5) Voltemos a Bragança onde António malheiro ficou viúvo e voltou a casar, com Mariana de Morais, viúva de um alferes e mãe de um rapaz que se preparava para ser padre, tendo já recebido as ordens menores. Vale a pena espreitar os seus antepassados, nomeadamente o seu avô paterno, António Pires, natural de Moimenta, que veio para Bragança a servir os padres do colégio e o seu pai, Miguel Pires, que tinha a profissão de “entalhador e imaginário”. E este será um nome a ter em conta para a história dos entalhadores de altares e escultores de imagens de santos. Resta dizer que António Malheiro da Cunha recebeu carta de familiar do santo ofício em 28.7.1721. E se era pobre quando veio para Bragança e se alistou como soldado, então era já um homem de elevado estatuto social, com fazenda avaliada em mais de 6 mil cruzados (2 contos e 400 mil réis) e com um ordenado 300 mil réis/ano. Para que os números representem alguma realidade, diga-se que a jorna de um operário andava então nos 100 réis. E se ele era filho de um sapateiro, os seus descendentes contar-se-iam entre a elite da nobreza brigantina e trasmontana, reescrevendo a história da família.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães