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“Se não fosse o arco de Santo António já não estava aqui para contar a história”

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Qua, 21/07/2021 - 16:31


Paulo Trigo, natural de Alimonde, no concelho de Bragança, sofreu, há escassos dias, um acidente de tractor, mas, “felizmente”, não passou de um valente susto

Ano após ano, sobretudo por esta altura, de tempo mais quente, são várias as notícias que relatam o que nenhum agricultor, neste distrito marcado pelo apego à terra, gosta de ler: a vida ceifada ao volante do tractor. Paulo Trigo, de 41 anos, natural da aldeia de Alimonde, no concelho de Bragança, considera-se um verdadeiro “sortudo”, já que, “felizmente”, não entrou para as estatísticas, obrigando-nos, como quem diz, a relatar mais uma morte. A residir em Bragança, mas com propriedades agrícolas na aldeia, onde todos os dias faz questão de ir para trabalhar a terra, Paulo Trigo ganhou o fascínio pelos tractores em pequeno, mas foi por pouco que, no fim de Junho, não morreu debaixo de um dos dois que tem. “Eu e o meu cunhado estávamos a carregar madeira. Quando acabámos pus o reboque ao tractor. Andei apenas uns metros e vi o reboque tombar. O reboque automaticamente levantou o tractor, que capotou”, explicou, afirmando que, no entretanto, vendo o cenário mal parado, pensou saltar, mas, como entre o pensar e o fazer ainda passa algum tempo, já só se viu debaixo da máquina agrícola. Paulo Trigo não recebeu assistência hospitalar, garante que “não valia a pena”. Mesmo assim, as duas ou três mazelas que ainda tem na barriga, volvidas três semanas do acidente, lembram-no bem do que diz ter sido um “grande susto”. Paulo Trigo, que aos 16 anos emigrou para a Suíça, para “compor a vida”, tendo voltado aos 31, ou seja, há dez, atribui a culpa à carga, que “deveria estar mal feita”. “Ainda que o terreno seja um pouco inclinado, parece-me que terá sido a carga que provocou tudo isto”, esclareceu. Casado e pai de dois filhos, o ex-emigrante, que deixou a Suíça pelo amor à região e aos seus, trabalha na Ferrovial, no piquete, onde faz “o que é preciso”. Ainda assim, é a trabalhar a terra que se sente, como diria o povo, como o peixe na água, sendo que a agricultura “é mais por gosto do que por necessidade”. Assim, tão fortemente apegado às lides do campo, Paulo Trigo assume que com estas máquinas não se brinca. “Quando eu era miúdo, o meu pai tinha um tractor, sempre o teve, e eu aprendi o que sei com os meus irmãos, que o manobravam. É por isso que tenho muito cuidado com os tractores e lhes guardo bastante respeito”, afirmou, dizendo ainda que, quando se viu debaixo de um dos que carinhosamente comprou, “não se pode facilitar, já que os riscos são muito grandes”. Tendo o episódio terminado, no fim de contas, menos mal, Paulo Trigo teve uma espécie de anjo da guarda que lhe salvou a vida. “Se não fosse o arco de Santo António, que já vinha com o tractor, e nunca o tirei, já não estava aqui para contar a história”, considerou. O tractor, que aparentemente parecia não ter ficado com tantas mazelas como o dono, sofreu alguns danos, no motor, que, à partida, terá que ser refeito. Ainda assim, “mais vale gastar dinheiro a compô-lo que, Deus nos livre, num enterro”.

Acidentes de tractor já fizeram quatro mortos este ano.

Segundo a Guarda Nacional Republicana (GNR), durante os primeiros seis meses de 2021, no distrito, já morreram quatro pessoas ao volante de tractores. Conforme revelam os dados, em igual período, outras três ficaram feridas com gravidade. Este ano, em Vinhais já se registaram três acidentes de viação com veículos agrícolas. Em Alfândega da Fé e Torre de Moncorvo contaram-se dois e em Bragança e Mogadouro um, em cada concelho. Os outros sete concelhos, estão, para já, a zero. No que toca a acidentes de trabalho com veículos agrícolas, há registo de dois em Mogadouro. Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Miranda do Douro, Mirandela e Vinhais registam, cada um dos concelhos, um acidente. Os restantes cinco concelhos estão em branco. Os acidentes que feriram com gravidade três pessoas decorreram em Mogadouro, dois deles, e em Torre de Moncorvo. Quanto aos acidentes que fizeram vítimas mortais, dois deles aconteceram em Vinhais e os outros dois em Carrazeda de Ansiães e em Alfândega da Fé. Conforme revelam ainda dados da GNR, relativamente ao ano passado, refira-se que, em 2020 o distrito registou um total de 35 acidentes, 21 dos quais de viação e 14 de trabalho. Este ano, o cenário está um pouco diferente. Os acidentes de trabalho superam, por dois, os de viação. Refira-se ainda que no distrito, em 2020, se contaram dois feridos graves. Número que contrasta com os três de 2021, sendo que só vamos a meio do ano. No que toca a mortes, em 2020 houve seis pessoas a perder a vida ao volante. Perante este número, olhando para 2021, o cenário é mais negro, já que até fim de Junho já se ultrapassou metade desse valor. Em resposta ao pedido de fornecimento destes números, a GNR deixou-nos o que nunca é demais lembrar: muitos acidentes podem ser evitados com uma frequente manutenção das máquinas agrícolas, as estruturas de protecção, como o arco de Santo António, podem evitar a morte do condutor ou reduzir a gravidade dos ferimentos, os acessórios de iluminação e sinalização devem ser utilizados de acordo com a lei e, como não podia deixar de ser, não se recomenda que estas máquinas sejam operadas quando se está sob o efeito de alcóol ou fadiga. Sendo o capotamento a principal causa de mortes e ferimentos, é obrigatório, desde o dia 8 de Janeiro de 2021, circular com arco de segurança erguido e em posição de serviço. Esta obrigatoriedade aplica-se aos tractores homologados com esta estrutura

Jornalista: 
Carina Alves