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Fraca divulgação de candidaturas marca autárquicas num distrito que perdeu mais de 7600 eleitores

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Ter, 13/07/2021 - 11:28


A pouco mais de dois meses das eleições autárquicas, marcadas para o dia 26 de Setembro, o distrito de Bragança depara-se com menos 7632 eleitores que há quatro anos

Agora há 137 703 pessoas que podem ir às urnas decidir o futuro dos seus concelhos e freguesias, sendo que nas autárquicas de 2017 eram 145 335 eleitores inscritos. Em termos percentuais, o distrito perdeu 5% do eleitorado. Um número assustador, para alguns representantes partidários locais, mas perfeitamente expectável para outros.

Políticas de fixação devem ser urgentemente repensadas

A perda de eleitores, sendo que, em termos percentuais, foi em Vimioso que mais expressão teve, deve- -se, obviamente, à perda de gente. Jorge Gomes, presidente da Federação Distrital de Bragança do PS, afirma que tinha “noção” de se estar a perder eleitorado, sendo que a fixação de gente no distrito não estava a acontecer, mas não esperava que o número fosse tão “elevado”. “Isto só vem chamar-nos à atenção para medidas que temos que tomar para poder inverter ou, pelo menos, estancar a saída das pessoas”, assinalou. Mais consciente do número diz-se Jorge Fidalgo, presidente da Federação Distrital de Bragança do PSD. “Penso que é um número perfeitamente expectável, atendendo à diminuição da população, principalmente da mais idosa”, explicou, deixando assente é preciso compreender outra variável: “com a actualização dos cartões de cidadão, muitos dos nossos conterrâneos, que vivem no estrangeiro, passam agora a ser eleitores no país onde residem”. Ainda que para Sérgio Casado, representante da Federação Distrital de Bragança do CDS, esta perda também fosse “expectável”, estamos perante algo “muito preocupante”. Vistos, a nível nacional, como números e “não como seres humanos”, num distrito “cada vez mais votado ao abandono”, Sérgio Casado lamenta que as políticas que têm sido implementadas não estejam a dar origem à “fixação dos jovens”. Considerando-as “erradas”, o representante partidário admite que o caminho está traçado, “caminhamos a passos largos para a desertificação”. Admitindo que o Partido Comunista Português visita “regularmente” todos os concelhos do distrito, Fátima Bento, da Direcção da Organização Regional de Bragança do PCP, diz que “já estava a contar com os números”, até porque “é notável a redução de população”. Uma redução que, no seu entender, se fica a dever ao mesmo que os outros representantes acreditam ser gritante: “políticas erradas que conduziram a este despovoamento”. A contar com este cenário também estava Jóni Ledo, membro da Comissão Coordenadora Distrital de Bragança do Bloco de Esquerda, que diz que o partido se tem apercebido que “o distrito está a perder gente de ano para ano”. Ainda assim, reiterou que tudo isto mostra que as pessoas têm vindo também a sair das aldeias e das vilas para as cidades, uma vez que Bragança foi o concelho que menos eleitorado perdeu, cerca de 1% dos votantes. De qualquer forma há, no fundo, um problema inerente: “pequenas vilas como Vimioso, Alfândega da Fé, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, por exemplo, estão a sofrer”, veja-se agora Vinhais e Mogadouro que, como baixaram dos dez mil eleitores, passam dos sete para os apenas cinco mandatos para distribuir.

A dor de cabeça em formar listas nas aldeias

A perda de eleitores traz outro problema ao qual tem sido difícil escapar nos últimos anos: formar listas nas aldeias cada vez mais despovoadas destas terras é, muitas vezes, como diz o povo, um verdadeiro ‘31’. Jorge Gomes lamenta que haja aldeias que não têm eleitores para fazer duas listas, o que “é extremamente preocupante para quem lá vive e para exercício da democracia”. Quanto ao caminho a traçar, para que as coisas se alterem, é apenas um e passa por pôr em execução, “o mais breve possível”, medidas que devolvam gente ao território, sabendo que “é preciso que o poder central olhe para este verdadeiro Interior em que vivemos”, tendo como apoio as forças vivas dos vários concelhos. Defendendo que numa democracia devem existir “sempre” duas listas para que os eleitores possam escolher qual delas corresponde às necessidades dos territórios, Jorge Fidalgo também lembra que a Lei da Paridade, que dita que, na formação de listas, a representação mínima de cada um dos sexos tem que ser de 33%, “é, de facto, uma dificuldade”, pois “continuam a fazer-se leis a pensar nos grandes centros urbanos”. Ainda assim, traz a “possibilidade” de as mulheres participarem mais na vida política dos territórios. A questão das aldeias, no entender de Sérgio Casado também “será um problema cada vez maior”, uma vez que há cada vez mais freguesias com pouco mais de 200 eleitores, algumas nem isso. Para Fátima Bento esta questão está “perfeitamente” encadeada com a perda de eleitores. “As aldeias são as que mais sofreram e onde mais se nota o esvaziamento de população”, explicou, assinalando que a Lei da Paridade também “é um entrave”. Perante esta realidade distrital, Jóni Ledo considera que a redução do número de eleitores, o que também se verifica, obviamente, nas aldeias, leva a que a “capacidade crítica nos concelhos” seja cada vez menor. “Cada vez mais, os grandes empregadores são as câmaras municipais. O que faz com que as pessoas não exerçam a sua democracia em pleno porque estão, de certa forma, condicionadas”, assinalou.

Mogadouro e Vinhais com a corda ao pescoço

Mogadouro e Vinhais baixam dos dez mil eleitores e, com isso, deixa de haver sete mandatos para distribuir. Passa-se assim a apenas cinco. Neste momento, já só Bragança, Mirandela e Macedo de Cavaleiros é que mantêm os sete mandatos. Jorge Gomes admite que “isto é um susto” e considera “os territórios de baixa densidade deveriam ter uma grelha de composição do órgãos de poder local diferente da grelha que é feita para o Litoral”, já que os vereadores das câmaras da região “têm muito trabalho para fazer porque têm um território enorme para gerir”. Um problema que, para Jorge Fidalgo, também se deve à dita “política” implementada. “Era bom que a nível político pudesse haver a consciencialização de que é necessário encontrar outra forma para que a representatividade não seja condicionada pelo número de eleitores”, vincou o também autarca de Vimioso, assinalando que “não podemos ficar parados a assistir a uma degradação da própria democracia”. A questão de Mogadouro e Vinhais é vista com profundo lamento por Sérgio Casado, que se limita a deixar assente que “é um caminho que será traçado por múltiplos concelhos, pelo país fora”, pois “somos cada vez menos”. Além da perda de mandatos, Fátima Bento considera que os eleitos nas assembleias municipais serão também cada vez menos e que “sairemos todos prejudicados com isto”, já que a pluralidade e a representatividade se vão perdendo.

Fraca divulgação de candidatos gera desconhecimento na população

Ao longo dos últimos dias têm sido conhecidas algumas candidaturas às várias câmaras do distrito. O tempo que nos separa da ida a urna é cada vez mais curto, restando pouco mais de dois meses para se poder ir votar e escolher quem queremos à frente dos destinos dos nossos territórios, mas ainda há muito quem não saiba sequer para quando estão marcadas as eleições. Por Bragança, onde já se apresentaram como candidatos o actual presidente da câmara, Hernâni Dias, pelo PSD, e António Morais, pela CDU, há muita gente que desconhece a data. “Salvo erro, são em Setembro”, assegurou Manuel Carlos Cruz, sem saber precisar o dia. Dizendo que pretende votar, quanto a candidatos, as certezas também são poucas. “Deixe ver se me lembro dos nomes”, foi assim que respondeu, dizendo apenas conhecê-los. Vítor Fonseca não sabe de todo quando acontecem as eleições e assegura que o desconhecimento “é um pouco pela falta de interesse e pela falta de divulgação”, já que nem sabe quem são os candidatos. Cristiano Gonçalves tem a mesma resposta para a data e para os candidatos: “não faço ideia”. O jovem, que assegura que vai votar, lamenta que as notícias agora se foquem apenas na pandemia e não haja “muita divulgação”. Pelo contrário, Maria das Neves sabe a data das autárquicas, mas acredita que “há muita falta de divulgação” no que toca às candidaturas e pretensões de quem as apresenta, sendo que, no concelho, Jorge Gomes deverá ser o candidato do PS, não se tendo ainda apresentado oficialmente como tal. A cidadã também garante que votará e que a pandemia não deve afastar ninguém das urnas. “Vou com os cuidados que é preciso ter”, assinalou. Já por Miranda do Douro, onde já se apresentou Helena Barril, pelo PSD/CDS- -PP, e Júlio Meirinhos, pelo PS, há mais conhecimento de causa. Emerência São Pedro diz saber quem são os candidatos e sabe-o por causa da “divulgação” que já fizeram. Ainda assim, quanto à data, mesmo sabendo-a, diz que “é preciso ter as devidas precauções”, mas “a vida tem que continuar”. Ana Pimentel também diz saber quem são os candidatos à câmara. “Estou a par do que se passa no concelho. É muito importante votar, sejamos quem sejamos, o nosso voto vale tanto como o do Presidente da República”, afirmou. Já António Pires, que também sabe quais os candidatos à câmara, tomou conhecimento através das redes sociais e dos próprios. Ainda assim, diz que “devia haver mais divulgação”. Afirmando que vai votar, o cidadão considera que “ainda falta muito tempo”, mas que já sabe, mais ou menos, por quem deve recair a escolha.

Jornalista: 
Carina Alves