PUB.

‘A Formosa Pelicana’ de José Mário Leite

PUB.

Qui, 09/12/2021 - 17:42


Com 64 anos, o colaborador do Jornal Nordeste, José Mário Leite, lançou o seu quinto livro, ‘A Formosa Pelicana’. É gestor de ciência há mais de 20 anos, mas admite que a escrita é outro dos seus amores. Natural de Torre de Moncorvo, quis saber mais sobre Violante Gomes, a Pelicana, mãe de António de Portugal, Prior do Crato, que passou por Torre de Moncorvo

Como surgiu este livro?

Este livro surgiu em Torre de Moncorvo, de conversas com pessoas amigas, mas foi um livro que se me impôs. Ao contrário dos outros, que eu procurava o tema e pesquisava. Em Moncorvo, quando eu fui presidente da Assembleia Municipal, uma historiadora e professora abordou-me por outras razões e, em determinada altura, mostrou- -me preocupação com a casa da Violante Gomes, a Pelicana, mas eu desconhecia esta personagem de Torre de Moncorvo. Mais tarde, uma escritora de Moncorvo, Júlia Guarda Ribeiro, interrogava- -se ‘porque é que não há um romance sobre a Pelicana e dos seus amores com D. Luís de Portugal?’. E isto começou realmente a mexer comigo. Aconteceu que um dia estava no Chiado e fui até à FNAC e caiu-me na mão um livrinho de Manuel Alegre, que se chama ‘Auto de António’, e eu devorei aquele livro, sentei-me e li-o todo, mas foi de tal forma a empatia que tive de o trazer comigo. Era um livro sobre D. António, o grande herói que foi. Mas se o meu livro é sobre D. António, porque é que se chama ‘A Formosa Pelicana’? Por duas razões, uma delas porque a capa é lindíssima, é um quadro feito pela minha mulher e não lhe podia colocar outro título que não fosse este. Depois porque Violante Gomes era conhecida como a formosa Pelicana, era a mulher mais bonita do reino, no séc. XVI, e também porque, quando eu andei a fazer pesquisas é muito fácil encontrar dados, comentários, opiniões sobre homens, mas das mulheres não é tanto assim. Fiquei a pensar que para uma mulher ser falada no séc. XVI é porque tinha que ter muito valor, tinha que ter algo que a fazia sobressair. Portanto é de certa forma uma homenagem às mulheres bonitas, belas, formosas do Nordeste Transmontano.
 
É então um romance histórico?
É de certa forma um romance histórico. Eu não sou historiador, mas pesquisei muito, os pilares deste romance são factos históricos, depois construí em cima deles um romance. Este romance teve duas linhas, uma delas quando havia várias opiniões, de vários historiadores, obviamente que eu captava para mim aquela que mais me convinha para o romance, sem qualquer fundamento histórico ou científico, apenas me interessava aquilo que dava seguimento ao meu romance. Por outro lado, na ausência de dados e qualquer referência, fazia eu a própria história.
 
O que foi mais desafiante?
A construção do romance em toda esta história ou foi realmente esse trabalho de pesquisa? O trabalho de pesquisa foi fascinante, mas o trabalho de escrever é para mim uma catarse, dá-me muito prazer escrever. Uso os meus tempos livres quase todos para escrever. Há tanta coisa para dizer sobre o Nordeste Transmontano, sobre a minha terra, sobre a Vilariça, sobre Moncorvo e sobretudo sobre os concelhos raianos. Eu acho que os concelhos raianos, Bragança, Miranda do Douro, Vimioso, Freixo de Espada à Cinta e Torre de Moncorvo deviam erguer uma estátua a um judeu Isaac Ben Judah Abravanel. D. João II obrigou-o a ir para Espanha, onde foi muito próximo dos reis católicos. Era um homem cultíssimo, poderoso, um estadista, mas era também um teólogo, estudioso da Torá e decreto de Alhambra, que expulsou os judeus de Espanha, sendo que um dos destinos era Portugal. O desenvolvimento do Nordeste deve-se muito aos judeus que aqui ficaram e que ficaram por causa do Abravanel, não de uma forma directa, mas indirecta.
 
E com toda esta pesquisa ficou a saber mais sobre a sua terra…
É verdade, passei a saber muito mais sobre a minha terra, mas o meu livro também me permitiu enunciar algumas teses. Não sendo historiador, são teses minhas e que podem interessar de alguma forma aos leitores.
 
Que teses são essas? Uma delas é que o D. António era judeu e que foi isso que o condenou. Não foi o facto de ser bastardo. O que o condenou foi ele ser judeu, foi o seu sangue judeu, numa altura em que a inquisição se tinha instalado em Portugal. De qualquer forma há aqui uma curiosidade muito interessante. Este livro segue de perto a Bíblia e alguns fenómenos bíblicos transportados para o séc. XVI. Tem a ver também com a minha formação, porque eu andei no seminário durante alguns anos em Vinhais e em Bragança. E há na religião cristã um momento singular, que é o momento em que Jesus Cristo expira no gólgota. Nessa altura ele tem uma placa por cima da cruz que diz ‘Jesus Nazareno Rei dos Judeus’. Eu diria que o rei dos judeus foi o primeiro cristão. Portugal, em 1580, teve como rei um judeu. E é neste balanço que se passa o meu romance. Eu sinto muito as dores da mãe de D. António, que era judia e que de certa forma se assemelha às dores da Nossa Senhora ajoelhada na cruz. Ela sempre foi judia, imagino que terá morrido judia. O filho não sei se morreu cristão, ou se morreu ainda judeu, mas o momento exacto é esse e que eu também traduzo aqui no meu livro, sobretudo num gesto de D. António quando abandona Portugal nas margens da Vilariça. Outra tese tem a ver como casamento da Pelicana com D. Luís de Portugal. Há quem diga que aconteceu, há quem diga que não. É curioso que nos livros que li lá fora referem-se sempre a D. António como filho legítimo por acto secreto, ou seja, o casamento de D. António e da Violante Gomes aconteceu efectivamente e foi secreto. Há quem o coloque em Évora, há quem o coloque em Lisboa, mas não havendo registo nenhum eu coloco onde eu quero e para mim aconteceu na Vilariça. Há ainda outra tese que eu gostaria de deixar em aberto. A igreja de Torre de Moncorvo, que foi há época o maior santuário religioso que foi construído no Nordeste, foge ao que eram as características arquitectónicas da altura, em que as igrejas tinham a porta principal virada para poente e a lateral virada para sul. A de Moncorvo não tem. Nunca ninguém me deu uma explicação, mas eu tenho uma explicação no meu livro e acho que as pessoas vão gostar. Quando surgiu o gosto pela escrita? Eu fui colega do grande Ernesto Rodrigues no seminário em Vinhais e logo no primeiro ano que nós fomos para lá eu e ele ganhámos um prémio, eu em poesia e ele em prosa, e isso criou em mim uma apetência para escrever. Convivi sempre com escritores, com jornalistas, fui amigo do saudoso Teófilo, quando estava aqui em Bragança, do Fernando Calado, que também andou comigo no seminário, e tinha um anseio de escrever, mas também muito receio. Curiosamente, na altura em que o Teófilo, o Ernesto e outros formavam o chamado grupo ‘Chave D’ouro’, ao qual eu me atrelava, aventurei-me a escrever o ‘Cravo na Boca’, que foi o meu primeiro livro.
 
E é uma paixão?
É já uma paixão, sem dúvida. Uma paixão idêntica à que tenho pela minha terra. É curioso que este livro também tem um pouco do Teófilo. Quando eu publiquei o meu primeiro romance, ‘A morte de Germano Trancoso’, eu recordo-me que o Teófilo esteve na apresentação aqui em Bragança e queixou- -se que os escritores transmontanos criam muito sobre a sua terra e ficavam por aqui, não iam mais além, os temas não eram nacionais. Embora na altura contestasse, porque é normal quando se ouve uma crítica ser essa a primeira reacção, mas isso ficou- -me a moer cá dentro. Pensei que tinha que arranjar um tema nacional que também tenha a ver com o Nordeste, porque eu só sei escrever sobre o Nordeste, só sei escrever sobre aquilo que conheço, portanto, de certa forma, isto também é uma homenagem ao Teófilo.
Jornalista: 
Ângela Pais