Ter, 25/03/2025 - 10:33
Num país onde as es- tatísticas da saúde mental gritaram por atenção, 22% da população afetada, segundo o mais recente Perfil de Saúde de Portugal, há ainda quem teime em ignorar os sinais. Pior do que a ausência de respostas eficazes no panorama nacional é o silêncio que se instala em muitos territórios do Interior, onde a distância dos centros urbanos se reflete, dolorosamente, na ausência de cuidados de proximidade, de equipamentos técnicos, de empatia. E é exatamente por isso que o trabalho desenvolvido pela associação Matiz, com sede em Mirandela, se ergue como um exemplo de esperança, coragem e ação transformadora.
Quisemos, nesta edição, perceber e dar a conhecer aos nossos leitores como este trabalho é feito e em que medida tem impacto na vida das pessoas.
Desde 2023, a Matiz é a única instituição no distrito de Bragança a levar apoio domiciliário a pessoas com doenças mentais. Um serviço raro, único, na verdade, que não só cuida, mas acompanha, escuta, ensina, reorganiza vidas. Não se limita a levar comprimidos ou verificar rotinas, leva dignidade. E fá-lo com uma dedicação quase artesanal, respeitando o ritmo de cada utente, as suas histórias e os seus silêncios.
É fundamental sublinhar: este tipo de resposta não é apenas necessário, é urgente. A saúde mental, sobretudo no interior do país, tem sido demasiadas vezes empurrada para debaixo do tapete da invisibilidade. Faltam equipamentos, faltam meios, mas também falta vontade política para assumir, com clareza, que não pode haver verdadeira equidade no acesso à saúde se continuarmos a considerar a saúde mental um luxo urbano.
A reportagem publicada, que faz a manchete desta semana, retrata com sensibilidade e profundidade aquilo que tantas vezes passa despercebido: o impacto concreto que uma visita pode ter na vida de quem se sentiu abandonado ao caos da própriamente. “Gosto que eles estejam por perto”, diz um dos utentes. E nesta frase simples está contida uma verdade imensa: a presença transforma. Estar perto, humanizar a assistência, adaptar o cuidado às necessidades reais, este é o caminho.
A equipa multidisciplinar da Matiz + Perto, composta por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de reabilitação e auxiliares, faz muito mais do que intervir: construir, diariamente, pontes entre o isolamento e a reintegração. Trabalha para quebrar o estigma, para ensinar que não há vergonha em ter uma doença mental, que há sempre um potencial reabilitador, mesmo nos casos mais complexos.
Nesta região tantas vezes esquecida, a Matiz está a ser uma luz acesa. E o seu trabalho não deve ser apenas enaltecido, deve ser replicado, apoiado, amplificado. É preciso que o poder público reconheça a urgência de ampliar respostas como esta, e que a sociedade perceba que cuidar da saúde mental não é um gesto de caridade, é uma questão de justiça social.
Numa altura em que se fala tanto de igualdade de oportunidades e coesão territorial, perguntemo-nos: que igualdade pode existir quando a geografia dita se alguém tem ou não acesso a um cuidado tão básico como o apoio psicológico e social? Aqui está um exemplo que mostra que não precisa de ditar!