PUB.

Violência: pão nosso de cada dia?

Convidado pela vereadora da Cultura de Mirandela, Deolinda Ricardo, a organizar e moderar o 2.º TUAESCRITA, em 4 de Junho de 2016, às 17 horas, convidei Jorge Golias, José Manuel Pavão, José Mário Leite, Telmo Verdelho e Teresa Martins Marques para debater o assunto em epígrafe: «Violência: pão nosso de cada dia?». Desenvolvo, aqui, o guião proposto.
Somos confrontados diariamente com notícias de violência sob as mais diversas formas. Crimes antigos no chão transmontano – fosse a posse da terra, defesa da honra, alguma obscura vingança… – são, agora, não só acompanhados de outros, incluindo atitudes e comportamentos sentidos como tais, mas amplificados pelos meios de comunicação, que assim nivelam o país e o mundo.
Terra profundamente marcada pela religião, que importância assumiu esta no controlo das emoções negativas, se não foi, como pretende René Girard (La Violence et le Sacré, 1972), fonte desse desequilíbrio hoje patente no Islão extremista? O que significa matar em nome de Deus ou de uma causa, chame-se esta Pátria, Nação ou Império?
Há vocábulos perigosos, como pode confirmar Telmo Verdelho; e causas difíceis de entender, se se invoca em vão o nome de Deus ou esboçamos genocídios, sobre que discorrem José Mário Leite (A Morte de Germano Trancoso, 2016) e Jorge Sales Golias (A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, 2016). É matéria historicamente abordada por John Docker, emThe Origins of Violence. Religion, History and Genocide (2008). O termo genocídio foi inventado por Raphael Lemkin, em 1944.
A violência de género, que aquele romance também inscreve, fora antecipada em ficção de Teresa Martins Marques (A Mulher Que Venceu D. Juan, 2014), cujo último ensaio (Clave de Sol – Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, 2016) revela inéditos de autor que nos deixou há 20 anos – em particular, peças de teatro sobre a crueza das relações sociais.
Cimos de crueldade ocidental / inter-estatal e familiar estão, porém, no sexto romance de Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita (2016), título-resposta a mecanismos psico-neurológicos sobre que falará a experiência do médico José Manuel Pavão.
Na qualidade de director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – que se associa à iniciativa da Câmara Municipal de Mirandela –, o debate deseja-se participativo, visando a melhoria do quotidiano, na relação com outrem.

Tradição e multiculturalismo

Discuti, em Estudos da Cultura (ebook, 2016), os perigos do exclusivismo hereditário, que, na passagem da família à comunidade, desemboca em tradição. Esta, que é um processo de transmissão cultural (não mera entidade), implica uma regular aquisição em forma de vida social. Nos desvios desta forma, começa a violência.
Podíamos recuar 36 000 anos, ao Neandertal. Mais perto de nós, a violência é produto de várias cegueiras: nacionalismos torpes, racismo, xenofobia, outras pertenças e «identidades abusivas» que atentam contra direitos. O pensamento liberal (Friedrich Hayek, Raymond Aron, K. Popper, Mario Vargas Llosa) vê um perigo maior civilizacional nos nacionalismos. Em The Road to Serfdom (1944), o primeiro acrescentava o socialismo real ou marxista. O nacionalismo caricatural estava em Hitler, Mussolini, Franco; hoje, disfarça-se em regionalismos autonómicos (em Espanha, sobretudo) ou recusa etiquetar-se ideologicamente, sem prescindir de fórmulas terroristas. Llosa, todavia, distingue essas práticas da «de los nacionalistas que actúan en la legalidade y rechazan los métodos violentos» (El País, 13-XII-1998).
Ao desconsiderar a violência – afinal, os pacíficos também são maus! –, que tange à desordem natural das coisas, urge perceber que aquela se estende ao crime inumano de certas famílias, castas, tribos, clãs, estados legisladores de conveniências, enclausurados numa ideia feita de intocável tradição, comum a extremismos, nacionalistas ou não. Ora, a tradição só se faz contemporânea (em suas raízes antigas) se for «memória não hereditária da colectividade» (Lótman, Uspenskii), definição de cultura assente na longevidade dos discursos, valores e códigos da memória, que se renovam no diálogo com outrem, o estrangeiro, que todos somos. Isso dá-nos «plasticidade de espírito», faz-nos «adaptáveis ao costume alheio, facilmente comunicativos com os outros povos» (António Sérgio), mesmo em nossa casa. Facilita o pluriculturalismo «como un derecho dentro de la comunidad nacional», que, ao contrário do que escreve Agnes Heller, não «va en contra de esta tradición […] de identificación entre cultura y nación» (El País, 6-II-1993).
Será barragem suficiente o multiculturalismo, também intra-fronteiriço? Interessando a poderosos, aquele conceito desliza para um complô económico agrupando minoria (já nem sequer estados, tão-só fundos de investimento), o qual desnivela, desiguala, tiraniza, convertendo-se em fundamentalismo tão perigoso como os assentes numa religião. Seja de que teor for, incapaz de confluência, atentatório dos direitos humanos, é de evitar qualquer radicalismo.
Outros, que se julgam poderosos – quando não políticos de pacotilha, resguardados na noção de tolerância; ou progressistas, de Esquerda, segundo liberais –, contemporizam face a quem, por princípio, jamais aceitará posição alheia. Comunidades islâmicas multiplicando-se no Ocidente têm a liberdade de defender os seus direitos (que não concederiam a ocidentais em seus países), e, no gozo geral da liberdade de expressão, asseveram, em terra de asilo, que dela serão, um dia, senhores. Michael Burleigh lembra, resumido em título: “La tolerancia multicultural europea ayuda a los terroristas” (El País, 21-X-2008). Francis Fukuyama já corroborara, justificando: «El viejo modelo multicultural estaba basado en el reconocimiento de los grupos y de sus derechos. A causa de un erróneo sentido de respeto por la diferencia – y tal vez por sentimientos de culpa poscoloniales –, se otorgó a las comunidades culturales una excessiva autoridade para fijar las reglas de conducta de sus membros. […] La civilidad de la Ilustración europea, de la cual es heredera la democracia contemporânea, no puede ser culturalmente neutral, dado que las sociedades liberales tienen valores propios que resguardan la igualdad de los valores y de la dignidad de los indivíduos. Las culturas que no aceptan esas premisas no merecen igual protección en una democracia liberal. Los membros de la comunidade inmigrante y sus descendientes merecen ser tratados en un plano de paridad como indivíduos pero no como miembros de la comunidad cultural.» (La Nación ([Buenos Aires], 11-VIII-2007)         
Face às vagas de milhões de imigrantes, refugiados e deslocados, paredes-meias com a violência, joga-se o destino da democracia; talvez a sorte de uma civilização.

Ernesto Rodrigues