Vendavais: As falsas promessas

Na falsa educada utilização promíscua das palavras, todos acabam por adiantar algo em que talvez gostassem de acreditar, mas que no íntimo do seu ser, não acreditam ser possível, a não ser no vão contentamento de quem as ouve. Sempre foi assim no deslizar do tempo incomensurável e continuará a ser no que está para vir.
A despedida do ano que agora chega ao fim faz-nos desejar imensas coisas boas. Somos demasiado egoístas ou gananciosos. Deveríamos ser mais comedidos e desejar simplesmente um novo ano com saúde e paz e ficar por aqui. Só isto. Mas é impossível porque queremos tudo e acabamos por cair nos desmandos tremendos que nos levam aos abismos mais profundos. Exageros. Nada de novo. A ambição é própria do homem e a parcimónia raramente faz parte do seu comportamento habitual. Novidade é, ou talvez não, quando para conseguir esses desejos se promete muita coisa em troca, na firme convicção de que nunca vão passar de vãs promessas.
Antes do ano acabar tinha que ser aprovado o Orçamento de Estado para o próximo ano, como é normal, e ser homologado pelo Presidente da República, a fim de ser implementado a partir de janeiro. Discutiram na Assembleia todos os requisitos necessários a esse objetivo e os partidos políticos assumiram as suas responsabilidades tendentes à aprovação em causa. No meio desta discussão, bailava um decreto promessa antigo do governo sobre a contagem do tempo de serviço dos professores a ser implementado a partir de janeiro de 2019, após acordo com os sindicatos respetivos, mas que estava incluído no Orçamento, como sabemos. Estava. Antes da discussão do orçamento o governo tornou bem claro que isso não iria acontecer e fez uma proposta de contar somente dois anos e nove meses e alguns dias. Seguiram-se greves e negociações a par da intransigência do ministro da tutela. Nada se alterou.
Aprovado que foi o Orçamento e perante a teimosia do governo em apresentar ao Presidente da República o tal decreto de conceder apenas dois anos e nove meses aos professores, esperaria certamente que Marcelo o aprovasse e tudo ficaria resolvido. Mas não. Marcelo não só não aprovou como remeteu para nova discussão toda a problemática da contagem a ser cedida. Teremos assim a continuação da saga que já tem algum tempo e muita discussão sem soluções à vista. 
Quando o governo dava os primeiros passos nos meandros ministeriais, prometeu tudo e mais alguma coisa para se poder manter em exercício. Agora que já está a ver uma luz ao fundo do túnel, que é como quem diz eleições e a possibilidade de se manter nos gabinetes, puxa dos galões da teimosia e arroga-se da importância necessária para desdizer o que disse e faltar às promessas proferidas. Não está à espera do reverso da medalha!
Se os meus alunos me respeitam, por que razão não me há-de respeitar o governo? Pois bem. Vamos fazer uma proposta aos senhores ministros. Todo o tempo que têm de trabalho não contará nem como tempo de serviço nem para a reforma. Ficamos quites. Será que aceitam? Se os professores podem ficar sem quase dez anos de serviço, como se não tivessem exercido a sua profissão, então eles também podem ficar sem essa equivalência. Que percam todas as mordomias que têm e as regras especiais que os envolvem nos meandros e corredores do poder e vamos ver se aceitam ficar sem tudo isso. E nós não estamos a fazer promessas! São meras propostas. Aceitam? Claro que não.
Constatamos deste modo que as promessas têm sempre uma razão de ser, nem que não seja mais que uma simples promessa para atingir alguns dividendos imediatos, como foi o caso. A verdade é que as promessas ficaram, mas apesar de terem atingido um objetivo de curto prazo, terão de ser renegociadas, custe o que custar. Mas como este ano de 2019 tem eleições decisivas para o governo e para o partido socialista, as negociações poderão ser mais fáceis. No entanto, também se pode dar o caso de o partido socialista estar tão convicto da vitória que não vai arredar pé da sua promessa inicial e arrastar o caso até às eleições. E a ser assim, só um milagre de S. Marcelo pode resolver a contenda. 
Para já, resta-nos despedir de 2018 com um ligeiro amargo de boca e com a esperança de em 2019 os professores terem, não uma falsa promessa, mas um entendimento razoável que lhes permita reaver o que lhes foi tirado indevidamente.
Certo é que fica no ar a promessa dos professores de continuar a luta para adquirir o tempo perdido. O governo terá de enveredar pelo diálogo e pela negociação e ver se assim consegue tirar dividendos políticos em ano de eleições. Como diz o povo, assim como assim, as promessas são sempre falsas! Viva a esperança que é a última a morrer.

Luís Ferreira