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Vendavais - Entre a cadeia e o compromisso

A corrida para as legislativas já começou. Ninguém pense que os partidos estão à espera do momento certo para iniciar o torneio. O que nós conseguimos perceber apenas, é que as estratégias não estão à vista de todos e que este início é bastante confuso, sem delineamentos corretos e com muitos receios do que está para vir. Resumindo, nada se aposta por enquanto.

A verdade com que se debatem alguns partidos é pretender inverter os resultados das europeias ou manter ou alargar esses mesmos resultados, o que não é fácil. Não é linear que se mantenham, mas não será igualmente assumível que alguns se mantenham. Daí que despegar dos scores obtidos é um objetivo para todos eles. Vejamos: o PS quer manter ou aumentar, o que lhe daria a tão almejada vitória e a possibilidade de controlar novamente o governo da Nação. O BE, ao manter o score obtido, poderia impor ao PS normas de governo e controlar, não só o PS como até exigir lugares no próprio governo. O PAN, ufano do resultado que amealhou, gostaria de fazer parte de uma qualquer geringonça e poder arvorar-se como parte de uma solução governativa. O PCP não está conformado com o escasso resultado obtido e quer aumentar para não ser colocado na prateleira sem fazer parte da próxima geringonça. O PSD quer aumentar o magro resultado para poder bipolarizar politicamente o país e fazer parte da solução governativa com o PS, arrumando a influência da esquerda e a geringonça. Para o CDS não interessa manter os resultados obtidos já que não lhe conferem qualquer autoridade para se impor a um próximo governo. Assim, todos querem mudar os resultados das europeias e curiosamente, para melhor. Falta fazer as apostas.

Visto isto, podemos dizer efetivamente que a corrida para as legislativas está na estrada e Costa está a tentar liderar sem que tenha grande oposição dos outros partidos. Os motores estão a aquecer. Costa lançou o primeiro trunfo. Disse que quer aumentar os funcionários públicos. Uma jogada de mestre, tanto mais que os restantes partidos pouco disseram a respeito. O único que se pronunciou foi o CDS, dizendo que o principal seria aumentar o investimento e a produtividade e não só uma classe de trabalhadores. Quase parece o Bloco a falar ao tentar igualar todos os trabalhadores. Claro que é necessário investir e produzir, mas se Costa quer aumentar os funcionários públicos, pois que aumente e não se esqueça que para além destes há outros trabalhadores, mas pertencem a empresas privadas. Falar em aumento de vencimentos é sempre um bom trunfo e dá votos com toda a certeza.

Sobre o assunto, o BE ainda não se pronunciou, pois não se quer comprometer com a promessa dos outros e se for governo, pode ter de dar o dito por não dito e sofrer dissabores. Posição igual tem o PCP até agora. Aumentar os trabalhadores é sempre bom para os comunistas, mas há sempre gatos escondidos com o rabo de fora e eles ainda não os descobriram.

E o PSD? Pois o partido que se quer arvorar em oposição e até obter um resultado muito superior ao das europeias e até quer formar governo com o PS, se este quiser, acabando com a geringonça, até agora nada disse a respeito das afirmações de Costa. Mas também nada disse a propósito do autarca Álvaro Amaro ter sido constituído em arguido. Será esta a razão principal para não se ter ainda pronunciado? Não é fácil tomar posições sem estar seguro e ver um seu autarca na eminência de ir parar à cadeia. Como se pode comprometer com alguma coisa quando pode ser vexado pelas atitudes dos seus correligionários? Para não dizerem que nada faz, vai adiantando a possibilidade de alguns acordos de regime com o PS o que lhe dá a sensação de estar a fazer a cama para o próximo governo. Mas não.

As eleições estão a ser comandadas pelo PS. Os restantes partidos estudam lances e jogadas para não perderem a corrida. O que surpreende é o facto de Rui Rio querer alterar o panorama interno do partido e querer subir o score e nada fazer para o conseguir. Está preso entre a cadeia de uns e o compromisso de si próprio que não quer assumir! Só que, a ser assim, Rio não só não consegue os votos que pretende, como não será a oposição que quer fazer crer aos apoiantes. Se quer realmente ser oposição e afirmar o PSD como partido concorrente do PS, tem de fazer muito mais. Tem de sair da sombra e deixar o medo de lado. E se a cadeia estiver à espreita de alguém, que sirva de exemplo ao que ele afirma sobre a honestidade e as qualidades dos governantes. Agora é tempo de compromissos. Sem medo. Sem medo para todos. Quem quer ser governo, tem de apostar e seguir em frente. Se ninguém fizer frente a Costa, não só ele vai ganhar, como a Catarina será a segunda dama de ferro e todos os outros não passarão de amas-secas. Os acordos de regime fazem-se depois. Acordem todos.

Luís Ferreira