Um caixão de surpresas

Uma destacada militante do Partido Social Democrata, que também já foi sua líder mor, disse que o seu partido não era nenhum saco de gatos. Lamentavelmente muitos críticos entenderam exactamente o contrário, ou seja, que o PSD seria isso mesmo, sem apelo e com agravo.
Pessoalmente também entendo que não, que é por demais óbvio que não há gatos e muito menos ratos no PSD ou em qualquer partido que se preze. Tal seria um contra-senso, de resto, dado que gatos e ratos não se dão lá muito bem.
Quanto a mim o PSD é, isso sim, uma grande caixa de surpresas. Um caixão, melhor dizendo, tantas, tão grandes e tão surpreendentes elas são e tendo em conta também que o seu destino poderá ser a cova política. Ao fim e ao cabo o PSD é o espelho do Regime.
Já para os presunçosos partidos de esquerda o PSD é uma verdadeira caixa de Pandora, um jarro mais precisamente, dado que esse foi de facto o artefacto oferecido a essa primeira mulher da mitologia grega, no qual todos os males do mundo se acoitavam.
Jarro de vidro ou de barro, não importa, que Passos Coelho entreabriu e agora Rui Rio fragorosamente partiu, libertando inesperados infortúnios e malefícios, sem que se possa imaginar quando e como a tormenta irá terminar. Afinal o diabo de Passos Coelho morava dentro do próprio PSD, somos levados a concluir.
Tudo isto está a ser particularmente triste e frustrante para muitos portugueses, militantes ou simplesmente simpatizantes do PSD que, como agora se constata, depositavam infundadas esperanças em Rui Rio, a quem tinham como um político pragmático, um paladino da ética política e um acérrimo defensor das tão ansiadas reformas do Regime e do Estado e que, por isso mesmo acreditavam que ele iria acordar muitos abstencionistas, com efeitos salutares na deprimida democracia portuguesa.
Foi esta auréola de Rui Rio que se esfumou ruidosamente dando lugar à imagem de um líder titubeante, que dificilmente encontra pessoas credíveis que com ele queiram trabalhar e que ainda não mostrou saber lá muito bem o que quer e muito menos para onde vai.
Rui Rio, até mais ver, por azar ou inabilidade, apenas conseguiu transformar a esperança, que também estava aprisionada no jarro de Pandora do PSD, no pior dos malefícios.  
Porque o mais provável, agora, é mesmo que António Costa alcance a maioria absoluta nas próximas legislativas, que a Geringonça se desconjunte, que o presidente da república fique refém do PS e que o CDS de Assunção Cristas acolha a multidão de desiludidos do PSD, uma vez que Rui Rio não será capaz de fazer o pleno no seu próprio partido.
Contudo, manda o bom senso que se diga que ninguém pode prever com rigor o comportamento do PSD nos próximos tempos e muito menos se António Costa será capaz de corrigir e fazer esquecer os fragorosos fracassos da sua administração, por mais que os ventos económicos continuem de feição.
Em qualquer caso a maioria absoluta do Partido Socialista seria um mal maior que o próprio monstro do Bloco Central, só mesmo comparável à de um governo do PS com o BE. A má memória da governança de José Sócrates, que ainda queima, aí está para o sugerir.
Uma coisa é certa: a democracia portuguesa precisa de ser reformada ou mesmo refundada. Portugal não pode continuar a sofrer eternamente as injúrias sistemáticas de um Regime imoral, por mais legítimo que ele seja.
Bem pode o PSD, portanto, tratar de arranjar uma nova imagem, um novo líder, uma nova direcção e um novo rumo, enquanto é tempo. Para bem de Portugal e da democracia.
 
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.
Henrique Pedro