PUB.

Trasmontanos funcionários e agentes da inquisição - Manuel Zuzarte Coelho, de Freixo de Espada à Cinta

Se houve famílias cristãs-novas que foram autenticamente dizimadas pela inquisição, também houve famílias cristãs-velhas formando verdadeiras dinastias de funcionários e agentes do santo ofício e disso se sustentavam, conforme dizia o padre António Vieira. Vemos isso no caso que hoje se apresenta.

Comecemos então por Jorge Pinto Pestana, filho de Francisco Fernandes Neto e de Apolónia Pinta, casado com Apolónia Pereira de Sampaio, todos naturais e moradores em Freixo de Espada à Cinta.

Era tabelião público, cargo que antes fora de seu sogro, Fernão Gonçalves. Em agosto de 1620, requereu a sua admissão como familiar, “visto ser na raia de Castela, por onde muitos da nação se passam ao dito reino”.

Foi encarregado de fazer as necessárias diligências sobre a limpeza de sangue do requerente, o licenciado António Fernandes Ronquilho, sacerdote na igreja matriz, com o padre Gaspar Barroso, reitor da colegiada da mesma igreja, por escrivão da diligência.

Todas as testemunhas afirmaram que, tanto da parte do requerente, como de sua mulher, os seus pais e avós eram cristãos-velhos, puros de sangue, que sempre viveram honestamente e ocuparam cargos honrosos na governança da terra, e o candidato era “homem manso e pacífico, de segredo, verdade e confiança”.

O processo correu com muita rapidez, certamente porque os inquisidores reconheceram urgência em ter informações sobre a fuga de gente da nação para Castela, pela raia de Freixo de Espada à Cinta. De facto, ao fim de 2 meses, foi passada carta de familiar do santo ofício a Jorge Pinto Pestana.(1)

João Pinto Pestana, era filho de Jorge Pinto e sua mulher Apolónia Pereira de Sampaio. Formado em leis, fez carreira na administração pública, iniciada em 1645, no ofício de inquiridor, distribuidor e contador, ao qual renunciou em 1655 “na pessoa que casar com sua filha”. Em 1647 foi nomeado de juiz de fora em Alcácer do Sal. Casado com Helena Meireles, teve uma filha chamada Violante, a qual casou com João Belerma Coelho, que ascendeu também a familiar da inquisição.(2) Não vamos alongar-nos com os cargos e as distinções e tenças outorgadas a seus filhos e filhas.

Vamos antes falar de Manuel Zuzarte Coelho, genro de Jorge Pinto Pestana, marido de sua filha, Antónia Pinta. Falecido o sogro, em 1637, logo ele se apressou a requerer a sua nomeação para familiar da inquisição, nos seguintes termos:

— Diz o licenciado Manuel Zuzarte Coelho (…) que ele, com bom zelo e por se acharem vagos 3 ofícios de familiares do santo ofício, que vagaram por falecimento de Sebastião Barreto,(3) António Saraiva(4) e Jorge Pinto Pestana, sogro dele suplicante (…) e porque também a dita vila está no extremo de Castela onde de ordinário está passando gente da nação, e por não haver mais que um familiar se perdem muitos bons lances, o que ele empreendera por serviço de Deus e por ser bem quisto, fora de arruídos…(5)

Foi encarregado o vigário de Freixo de Espada à Cinta, padre Francisco Nunes, de proceder às necessárias averiguações de limpeza de sangue do candidato e de sua mulher. Todas as 12 testemunhas ouvidas juraram que o pretendente era pessoa competente para desempenhar o cargo, “sem qualquer mácula de sangue judeu, preto, mourisco ou de outra infecta nação” e seus ascendentes “são e foram da principal gente desta terra e hão servido os ofícios honrados nela, como é servirem de vereadores e juízes e provedores da casa da santa misericórdia”.

Devemos acrescentar que o Dr. Manuel Zuzarte era homem muito rico e que a principal fonte de sua riqueza era o fabrico e venda de sedas. E esta atividade, que já vinha de seus pais, prolongou-se pelos seus descendentes, nomeadamente o seu filho, António Zuzarte, que casou com Antónia Pereira em 25.3.1675.

Uma filha de António Zuzarte e Antónia Pereira foi batizada em 14.4.1679 com o nome de Maria Zuzarte, a qual casou em 1695, com seu primo Manuel de Gamboa, filho de António Gamboa e de outra Maria Zuzarte. Também estes viviam abastadamente, do fabrico da seda e tratando-se “à lei da nobreza”.

Manuel Zuzarte Coelho como o avô, se chamou um filho de Manuel Gamboa e Maria Zuzarte, nascido em 29.6.1696 e batizado fevereiro seguinte.

Seguiu a carreira eclesiástica, ordenando-se padre, “do hábito de S. Pedro, confessor e pregador e ecónomo da colegiada da vila de Freixo de Espada à Cinta”. Para além dos bens patrimoniais recebidos dos pais quando se ordenou padre, tinha os rendimentos da profissão, avaliados em 120 cruzados (48 000 réis) e uma capela com bens vinculados no valor de 4 000 cruzados (1 conto e 600 mil réis) que rendia anualmente mais de 130 mil réis, fora das despesas.(6)

Ao início de 1632, contando 36 anos de idade, o padre Manuel Zuzarte Coelho apresentou no conselho geral da inquisição um requerimento solicitando a sua nomeação para o cargo de notário do santo ofício.(7)

As diligências para investigação da limpeza de sangue do candidato e seus ascendentes, foram entregues ao comissário do santo ofício António Luís Noga, reitor da igreja de Alfândega da Fé, natural de Valverde, lugar do mesmo concelho.(8)

Todas as testemunhas ouvidas abonaram as capacidades do candidato, a sua limpeza de sangue com cálculos da sua fortuna à volta dos 6 mil cruzados (2 contos e 400 mil réis) “em boas fazendas”.

Foi despachado favoravelmente o seu requerimento em agosto do mesmo ano de 1632. No exercício do seu cargo, o notário Manuel Zuzarte Coelho foi por diversas vezes encarregado de tarefas de maior responsabilidade, como eram as de comissário do santo ofício, na condução de diligências de habilitação de familiares. Veio a falecer em Freixo de Espada à Cinta em 7.3.1753.

 

Notas:

1 - ANTT/TSO/CG-Habilitações, Jorge, mç. 1, doc. 5.

2 - Idem, Habilitações, João, mç. 24, doc. 566.

3 - Idem, Habilitações, Sebastião, mç. 1, doc. 1611. No requerimento, Sebastião Barreto Varejão escreve: — Porque na dita vila não há nenhum familiar, sendo muito necessário, por haver nela muita gente da nação. A diligência foi conduzida pelo abade de Mós, padre António Martins Barreto, comissário do santo ofício.

4 - Idem, Habilitações, António, mç. 4, doc. 186. António Saraiva era natural de Trancoso, feitor da alfândega de Freixo. Obteve carta de familiar da inquisição em setembro de 1623.

5 - Idem, Habilitações, Manuel, mç. 5, doc. 182.

6 - Idem, Habilitações, Manuel, mç. 104, doc. 1929.

7 - Aos notários do santo ofício existentes em diferentes terras do reino, competia, fazer o rol dos bens sequestrados aos que eram presos pela inquisição e lavrar os autos de venda em hasta pública dos bens necessários para despesas de viagem e alojamento dos mesmos prisioneiros.

8 - Habilitações, António, mç. 66, doc. 1331. Foi-lhe passada a carta de comissário em 19.9.1724.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães