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Tantos Emigrares a Nordeste

O mês de agosto anima-se. Regressam os filhos, os netos, as novíssimas gerações de emigrantes que já nasceram por esse mundo de Cristo.

O conjunto, com bailarinas que fazem o deleite dos mais idosos, dá vida ao terreiro da aldeia. A velha, mais velha do povoado dança com o seu compadre e fala dos seus filhos, todos ricos depois de terem comido o pão que o diabo amassou pela França, pela Alemanha, pelo Canadá. Bebe-se vinho que repousou nas adegas mais frescas junto ao ribeiro. Os mais novos bebem cerveja e falam as mais diversas línguas, enquanto exibem perícias na potência da moto 4.

Na aldeia rompeu-se o silêncio e amaciaram-se as solidões dolorosamente longas.

As memórias de tantos emigrares regressam. O tio Cubano lá está de novo sentado à sua porta, moendo os dias e as amarguras de recordações passadas e de riquezas antigas por terras de Cuba.

O sonho realizou-se e o tio Cubano, nos tempos áureos da ditadura de Fulgêncio Batista passeava-se, como um fidalgo, pelas longas avenidas de Havana fumando, ostensivamente, um charuto havanês.

 Mas a História, inesperadamente inverteu-se e o Tio Cubano não resistiu à demolidora nacionalização da revolução Socialista de Fidel Castro. E assim, de um dia para o outro, este português emigrado em Cuba, regressou à humílima casa que tinha na sua pequena aldeia, deixando para trás infindos campos agrícolas.

 As poldras do rio Maçãs, perto da Senhora da Ribeira, ainda são as mesmas que pela calada da noite, davam passagem a salto a milhares de portugueses que se faziam a Espanha, a França, ou à Alemanha tão promissora. Os Carabineiros e a Guarda Fiscal espreitavam, mas a astúcia dos passadores, às vezes, levava a melhor. Outras vezes, as balas da velha espingarda mauser riscavam a noite. Havia mortes e prisões, mas a saga da emigração continuava numa guerra infinda entre a lei e a necessidade.

As aldeias fronteiriças viveram esta angústia permanente de tantos que queriam passar para a outra margem do rio. Todos colaboravam para que os emigrantes chegassem sãos e salvos ao seu destino, desde os párocos, aos taxistas, aos passadores profissionais, aos contrabandistas, à velhinha que não fazia mal a uma mosca, mas conhecia todos os carreiros dos montes e vales como a palma das suas mãos. Corria dinheiro. Uns enriqueceram, outros ficavam mais pobres, mas o sonho continuou por anos sem conta.

E assim, o nordeste é a história duma epopeia indescritível de deixar a casa e procurar o mundo.

Vencemos o Cabo das Tormentas e o Cabo da Boa Esperança tão perto. Esbanjou-se ouro, pedras preciosas e comeu-se o pão negro da miséria. Fomos ao Brasil abanar a árvore das patacas, no sonho de regressarmos ricos de fatinho branco e dente de ouro. Enfim, saímos de casa, ficámos por lá, ou regressamos ricos, ou pobres. E este mês de agosto é o mês de todas estas memórias.

Os tempos mudaram, estamos na europa e os velhos emigrantes que construíram casas bizarras e se passeavam pelas aldeias exibindo os velhos automóveis com poderosas aparelhagens de som, já não existem e hoje, na maior parte dos casos, os filhos, os netos dos emigrantes dos anos sessenta vêm de férias a Portugal, no fascínio da Internet, do Facebook, do azul das águas límpidas das praias e regressam de novo ao estrangeiro, deixando, definitivamente as nossas aldeias, vilas e cidades onde o silêncio já dói

Os idosos rezam aos santos para que estejam ainda vivos no próximo mês de agosto, para fazerem a festa, abraçarem os filhos e os netos, enquanto o nordeste, de tantos emigrares, vai morrendo paulatinamente.

Como escreveu Fernando Pessoa, tentando ver por entre um húmido nevoeiro: “Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a hora!  

 

Fernando Calado