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Somos todos velhos e doentes

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Bons dias, meus caros. Aqui vamos nas sete semanas de quarentena com ordem para continuar. Nó górdio absoluto para ver se o dito deixa de fazer estragos. As escolas e grande parte dos serviços só devem reabrir em Abril. Agora as autoridades receiam mais os que vêm de fora do que os que estão dentro. Volte-face nesta autêntica série ou filme de co-produção mundial no qual todos somos actores e espectadores e em que, apesar de vencedor antecipado do melhor argumento original, todos torcemos para que a longa-metragem acabe quanto antes. Já sabem, seguir as recomendações das autoridades, ler o essencial (e oficial) e levar a vida com tranquilidade. Válido para todos pois o vírus não escolhe idades.

Tem havido uma injustiça nesta história do vírus que pretendo aqui abordar. Assim como com outras questões sociais que têm marcado os dias de hoje, deveríamos pensar em mobilizar-nos contra as ínúmeras vezes em que ao longo da novela coronavírus se disse com toda a naturalidade e até com um certo sentimento de alívio por entre conversas informais, debates com especialistas e especialistas em debates, a seguinte frase: “isto só mata é velhos e doentes”. Peço desculpa, queria ter dito aliás, “isto poderá ser mais crítico para pessoas de maior idade ou que tenham o sistema imunitário previamente debilitado”. Aos próprios visados, em nome dos restantes cidadãos portugueses, e do mundo em geral, gostaria de apresentar as minhas sinceras desculpas por esta desumanização em relação às vossas insignes pessoas e aos grupos sociais a que os caríssimos pertencem. Eu sei que estão habituados a que ninguém vos passe o mínimo cartucho. Também sei que já estão acostumados a ver o vosso nome vir à baila quando o assunto são vacinas e demais surtos de gripe. Mas desta vez têm sido, quanto muito, apenas números no meio disto tudo. Nem sequer vos procuram para uma entrevistazinha que seja à entrada de um centro de saúde nem na fila da farmácia. Mas vendo bem as coisas, é melhor ser um número do que não ser nada, tal como a atenção e consideração que a sociedade por norma vos dedica. Desde que o número seja maior que zero, claro. Creio, no entanto, que se vocês eventualmente fossem outro tipo de pessoas ou mesmo outro tipo de animais, talvez existisse um mínimo de sensibilidade para convosco. Se não, comparemos outras variáveis para analisar esta temática. Vejamos se teria o mesmo indiferente impacto: Não te preocupes, este vírus só mata sul-americanos que consideram Portugal um país esquisito por não conseguirem ter uma empregada em casa. Esquece, quem precisa de ter medo são as mulheres que vivem sozinhas e passam o tempo a pôr fotos de gatinhos maltratados no Facebook. Não, isto só te pode matar se tiveres o cabelo às cores e argolas no nariz. Não quero saber porque isto só é grave para os gatinhos das mulheres que vivem sozinhas. Nada disso, quem morreu até agora foram só gajos que participaram no festival da canção nos últimos anos. Estou tranquilo porque às vezes até lavo as mãos e eu li que 70% da malta que palmou costumava tirar fotos a fazer posições de ioga ou a comer saladas com pitaia, ruibarbo e cenas assim. Não perco tempo com o coronavírus porque quase todas as vítimas mortais foram infectadas através do seu podcast ou do canal no youtube. Podes dormir descansado porque quase todas as baixas foram de indivíduos que trabalhavam em espaços de coworking. Eu estou tranquilo porque eu não vejo televisão e isto só é potencialmente mortal para quem vê o telejornal. Eu não tenho receio porque só tem morrido quem frequenta festivais literários ou possui coelhinhos de estimação. A maior parte do pessoal apanha isso e cura-se a não ser que tenha tatuagens parolas e com cenas budistas. Eu estou na boa porque isto é como a SIDA, só dá nos mariconços. Realmente, não sei se alguma das frases anteriores seria passível de causar indignação em massa. Massa tenra, claro. Uma fervurita nas redes sociais e já está. Nunca passa disso, infelizmente. Bem, mas se acharmos que sim, é melhor pararmos um pouco para pensar como se sentirão as pessoas doentes ou com mais idade no meio disto tudo. É que estas pessoas são muitas, parecendo que não. E são também os nossos pais, avós, familiares, amigos e a comunidade em geral. Creio que deveria haver mais sensibilidade e consideração na maneira menosprezível como mencionamos estas pessoas na história do coronavírus. Até porque um dia seremos nós e não sei se vamos gostar de ouvir, nem se nos iremos sentir mais tranquilos por ver que a tranquilidade ou o disfarçar do nervoso miudinho dos outros passa por perceber que somos nós quem está na linha da frente para lerpar. Um pouco de consciência e bom senso não mata nem faz mal a ninguém. Apoveito pra deixar uma palavra de conterrâneo apreço a todas as gentes do nordeste com muitos anos de vivências e experiências acumuladas e àqueles a quem a saúde esteja de momento a pregar alguma partida. Força, minha gente! Estamos juntos nesta caminhada. Um grande e apertado abraço para todos vós!

 

* Leitor de Português na Universidade de Sun Yat-sen

Cantão Guangdong – China

 

Manuel João Pires