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Robusta irresponsabilidade

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Os jornais não transmitem notícias e opiniões sempre do nosso agrado, também, tal como os mensageiros de outrora nos transmitem cousas desagradáveis, aborrecidas, quantas vezes desastrosas e alheias à nossa vontade.

Na edição de 24 de Março pp. O Nordeste cumpriu o seu deve informativo, na qualidade de leitor impressionou-me a robusta irresponsabilidade de três pessoas objecto de referência que na minha opinião calcaram grosseiramente o cânone do bom senso que deve prevalecer em situações de catástrofe como é notório e patente exemplo a pandemia, mortífera pandemia, vinda da China a qual imitando outras de igual malefício para a Humanidade está a avançar e inundar o planeta deixando atrás de si um cortejo de mortos e milhares de infectados.

A primeira pessoa a merecer referência é uma menina de vinte e dois anos, Ângela João de seu nome, natural de Vimioso, que resolveu em pleno corrimento da maleita fazer a viagem dos seus sonhos na companhia do namorado ao Peru.

Se visitar um país da América Latina, em qualquer circunstância obriga a saber o essencial (básico) inserido nos manuais de economia turística (sistemas de saúde, segurança, comunicações, seguros, bancário e costumes locais), em tempo de tripla oscilação de todos os pontos focais atrás referidos mandava a prudência pensar e repensar a realização da sonhada deslocação ao País das batatas (Neruda cantou uma ode ao tubérculo) antes de a encetar. A menina de 22 anos mandou às malvas os cuidados e colheu um montão de ásperos trabalhos. Não contente com a metida do pé… na poça, deu-se ao luxo de salmodiar queixumes contra as autoridades portuguesas e o namorado fez coro de assentimento. A menina tem idade para diferenciar o bem do mal, que já tenha regressado é o meu desejo, que os pais lhe ofereçam colorido canto não do condor, sim de recriminações é presente bem merecido.

A segunda robusta irresponsabilidade cabe a uma senhora (não identificada) emigrante em França viu-se atacada de toleima, em face da febre de laurear-se entendeu ir ao Intermachê, aí lembraram-lhe estar obrigada a cumprir quarentena. A mulher ficou notificada, certamente, irá lembrar os milhares de automobilistas a mostrarem o seu sentido de responsabilidade a inundarem a auto-estrada a caminho do Algarve, sem esquecer outros vândalos do respeito pelos seus concidadãos. O sempre professoral Presidente da República prefere aos costumes dizer nada pois a marcha do tempo em direcção às eleições presidenciais não pára. Ninguém se espante!

O Nordeste na mencionada edição destaca a espantosa opinião do presidente do núcleo da Quercus em Bragança. Num lampejo de vacuidade em face da pandemia reconhece o pesadelo, mas «valoriza os benefícios ambientais» da monstruosa calamidade. Ao modo da Ministra da agricultura exibe estridente júbilo ante os lucros ambientais conseguidos no decorrer da quarentena. Os familiares de milhares de mortes ocorridas na China, na Itália, Estados Unidos, Espanha, Portugal e outras paragens caso lessem as ignaras palavras de Folhento umas ficariam horrorizadas, outras iradas, outras desejosas de folhearem os dedos das mãos na carantonha do presidente de um núcleo defensor da nobre árvore que não tem culpa de um abstruso deste jaez falar ao modo de um animal objecto de ensaio do escritor e filósofo romano de nome abreviado Apuleio.

Sabemos, quão é molesta para o ambiente a desastrosa política de todos (todos sem escapar um) os dirigentes do poder, infelizmente, não sabemos qual a paternidade do vírus, também desconhecemos quais os factores e fautores da sua propagação e muito menos no que tange a forma de a suster. Por isso mesmo é incomensurável a diferença – poluição é praga humana – o vírus é praga sobre os humanos –, eis a diferença diria o estimado colaborador de Sherlock Holmes. O Sr Folhento mostrou a sua cultura fundamentalista estilo «com o mal dos outros posso eu bem».  

Eu não me interessa saber que combustíveis ele utiliza para aquecer a casa, viajar e cuidar de si, não concebo que recorra a oriundos da indústria, porém será interessante saber o modelo de recuperação da economia pós convulsão epidérmica no Nordeste preconizada por tão resoluto ortodoxo da causa climatérica sem mácula e sem pecado. Propostas de actuação sérias, cientificamente exequíveis, sem lugares comuns, capazes de instituírem o «mundo que nós perdemos» (Peter Lasket) longe das imperfeições de agora. O filósofo Revél ensina que não devemos discutir o erro, no caso presente a invocação do mítico Quercus remete-me para Guernica, eis a razão do gasto de energias.

As lastimáveis considerações vão para lá do direito à asneira. Acreditem!

Leonel Folhento, Presidente do núcleo em Bragança da Quercus – Reconhece o pesadelo, «mas valoriza benefícios ambientais»

Armando Fernandes