Rio acima, Rio abaixo

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O seu posicionamento ideológico é de um cidadão que assenta com base na razão do estudado num colégio de disciplina e língua alemã, na ordem de um determinado Mundo, que por vezes se cruzam secura no trato e comedimento nos gastos e surgem ideias e formulações que chocam contra interesses, burocracias instaladas e acomodadas, a abstrusas práticas dos aparelhos partidários. Estou a falar de Rui Rio.
Bem sei, dentro do PSD há quem o acuse indeciso, de o sotaque dele ser pronunciado, de ter afrontado e vencido um homem poderoso na altura, conhecido em determinados meios pelo apodo de Papa, concretamente Pinto da Costa, de preferir as boas constas ao «ponha no livro», de os carros nas suas mãos durarem anos a fio.
É verdade, também é, para desgosto meu defensor da regionalização, aprecio o seu empenho na aplicação da justiça de forma célere e rigorosa, a defesa da doutrina social-democrata antítese do espúrio neoliberal de má memória, personalizado em Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. A continuada aparição das suas imagens na televisão lembrou aos eleitores os cortes nos salários e pensões, eles entenderam castigar duramente os visíveis rostos da pungente austeridade.
Para lá da lógica dos burocratas laranjas, os eleitores de modo geral aguardam uma ruptura decidida com a prática seguida pelo PSD nos dois últimos anos, a não se concretizar o seu emagrecimento eleitoral continuará a proporcionar réditos avantajados a António Costa. E, quem está mais habilitado a romper a inócua prática?
O trumpista versão portuguesa entenda-se o menino na incubadora, o rapaz de lenço na cabeça ao modo dos piratas em iates capitalistas, o playboy das santanetes, o sportinguista militante e fugitivo, o primeiro-ministro do nosso descontentamento, Pedro Santana Lopes não me parece crível. Sim, eu sei, nós sabemos, o caminhante de andar por aí ganhou a Câmara de Lisboa, e antes a da Figueira da Foz, e apetece perguntar: e o que sobrou de tais vitórias? Uns lugares consignados a amigos, tal como a gritante reserva de o cadeirão de deputado a um seu prosélito antigo autarca em Ourique.
Sim eu sei, nós sabemos, tem sido louvado o seu desempenho na Santa Casa, não coloco em causa a exibição, quisesse eu arranjaria cuidados implicativos, o tempo é grande escultor dizia a Yourcenar.
Está em jogo o poder, não discricionário, no PSD. Está em jogo a solvência em alta do Partido interclassista, de raízes populares urbanas e rurais, de veios cristãos e respeito pelos laicos, detentor de lastro nacional, não nacionaleiro, capaz de fazer frente ao Partido Socialista. Caso não consiga e se acentue o seu definhamento o sistema político acabará no modelo mexicano do PRI, com nefastas consequências daí advindas.
Está nas mãos dos militantes escolherem o guia dos seus destinos políticos, a escolha deve e é livre, cabe-lhes sopesar tudo quanto está em jogo, o arrependimento nestes casos e estilo apertar a orelha é ela não deitar sangue, importa que os decisores de base coloquem a paixão na arca e deixem a razão prevalecer.
Há antecedentes de insensatez, recordo um, o modo como Manuela Ferreira Leite foi defenestrada, lembro a sua lucidez na análise da situação económica e modos de obstar à aplastante caminhada em direcção ao abismo, a Senhora não gostava de andar no circuito da carne assada e puré de batata, de distribuir beijos e abraços a esmo, no entanto, tinha razão. O País pagou duramente o não ter sido ouvida. Dizem-nos ter regressado o tempo das vacas gordas, ainda bem, conviria que esse ciclo ultrapassasse os sete anos, conviria darmos plena expressão à terra de leite e mel, conviria nunca mais voltarmos a termos de suportar a agonia da austeridade. Ora, a coexistência de dois partidos sólidos e entregues a dirigentes bem estruturados, afastados dos jogos da corda saltitante e da macaca do pé-coxinho, são imprescindíveis, a não ser assim venha o Diabo quando quiser para gáudio de Passos Coelho.

PS. Barcelona não é só dos independentistas, dos que votaram sem cadernos eleitorais, com trapaça, insultando os adversários catalães do surto da independência. A ganga propagandística aposta na radicalização. Os custos que os paguem os outros! Se vingasse a tese da independência nós íamos pagar muito, com língua de palmo. A vesguice é atroz.
 

Armando Fernandes