Que seja a Justiça a fazer justiça à Justiça.

Tem-se a percepção de que durante muitos e bons anos de desbragada democracia a Justiça esteve completamente alheada dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influências. Crimes de cariz político, portanto.
As prisões abarrotavam de criminosos comuns, mas a fina flor dos amigos do alheio, amigos do Estado, melhor dizendo, que tratavam a Administração Pública como se fora pertença sua e a usavam para proveito próprio, era intocável.
Não passava pela cabeça de um qualquer juiz ou polícia a ideia peregrina de questionar legalmente o comportamento dos políticos, sobretudo se de príncipes partidários se tratasse. O regabofe parecia não ter fim porque os dinheiros públicos davam para tudo e para muito mais.
Ainda hoje é assim, em certa medida, porque os políticos continuam a não ser julgados como tais, mesmo quando algum governante corrupto trai a Nação e lesa a Pátria escandalosamente.
Claro que as coisas não se faziam assim tão descaradamente! Havia um certo decoro, ainda que pouco, e sempre se encenava uma sentida dedicação à causa pública, tendo por música de fundo a modernização do País. 
Os mais altos magistrados políticos e judiciários da Nação a tudo assistiam indiferentes, ou inconscientes e porque não, coniventes. Claro que o povo murmurava mas isso era coisa de invejosos e intriguistas que o populismo ainda não havia sido inventado.
Para lá de que esses mesmos, os tais, eram os grandes arautos da transparência, da justiça e da moralidade. O resultado, porém, está à vista de toda a gente: uns tantos, esses mesmos, os tais, enriqueceram desmesuradamente enquanto o Estado se empobreceu até à indigência e o povo continua a ser explorado até mais não. Confiram-se as facturas da energia, da água ou dos impostos se dúvidas houver.
A verdade é que são muitos desses, que se diziam guardiões da Justiça, que agora não querem a Justiça em casa, porque a Justiça os embaraça e lhes mete medo.
Felizmente a Justiça parece estar a querer afirmar-se, finalmente. Titubeante, é certo, sem saber bem que caminho tomar. Ainda assim o Regime corrupto vive agora a sua pior provação. Não lhe bastava a dívida pública insustentável, a abstenção eleitoral abismal, ou o crescimento ilusório da economia que não é suficiente para que os portugueses possam olhar o futuro com sossego, o Regime tem agora pela frente o teste definitivo da Justiça repartida por múltiplos megaprocessos que envolvem políticos de topo que se julgavam intocáveis.
O futuro do País e da Democracia está nas mãos de meia dúzia de magistrados de quem se espera a maior coragem, tenacidade e amor à Justiça, precisamente. Juízes que, como era de esperar, são atacados por todos os lados, ardilosamente ou às escâncaras, pelos bandos de malfeitores que é seu mister acossar, com justiça, precisamente.
Que seja a Justiça a fazer justiça à Justiça. Não os políticos e muito menos os criminosos.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Henrique Pedro