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Psicologia Ancestral

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Boas tardes, nobre gente. Que estas palavras vos encontrem bem. Que estas palavras vos apertem a mão, abracem e convosco corram por esses caminhos adentro à procura da primavera a despontar. Esses caminhos dos termos outrora calcorreados por gentes que viviam os dias constantes do campo. Por falar em trabalhos do campo lembrei-me de psicologia, estando a humanidade tão necessitada de reforço anímico. Veio-me um dia destes à mente a frase “trabalha ou anda que hás-de ir ao Naso.” Segundo me contou meu pai, era assim que se traziam os infantes motivados durante os afazeres do campo. Para quem desconheça, o Naso é  a maior romaria do planalto mirandês e decorre no início de Setembro. Seria esta frase um exemplo daquilo a que se chama hoje psicologia motivacional. Isto é, chamo eu que não sou especialista na matéria. A recompensa apresentava-se em forma de romaria e de tudo o que a romaria representaria de bom para uma criança de então fazer face ao seu inegável e hercúleo esforço. Meus caros, andemos que havemos de ir ao Naso, andemos que lá à frente alguma boa recompensa esperará por nós para valer o prolongado custo destes dias. É um bom princípio enchermos a mente de coisas boas num qualquer futuro. Pelo menos, faz-nos sentir um pouco mais bem dispostos. Os benefícios deste tipo de pensamento estão comprovadíssimos pela ciência. O sonho como constante para se levar a vida. A médio prazo a recompensa que nos aguarda; já para ultrapassar o presente momento recomendo a pscologia motivacional de grupo. A este nível lembrei-me dos cantares de trabalho de norte a sul do país. A forma de aligeirar o peso da jornada através do canto, da distração da mente produzindo e partilhando algo aparazível ao ouvido. A motivação vinda através da música, algo que nunca perdeu actualidade para o ser humano. Outra forma musical de se levarem de vencidos os obstáculos e de se levarem de vencidos em conjunto eram as formas cantadas quando era necessário efectuar algum esforço físico de forma concertada. Por exemplo, na arte de partir uma pedra. Uma vez assisti para fazer uma daquelas grandes e largas pedras de xisto que se punham em cima da porta de entrada das casas... Têm um nome mas agora esqueci-me. Começava-se por bater o terreno à procura da pedra indicada. Encontrada a dita punham-se umas cunhas nos sítios certos como se fossem agulhas de acunpuctura, complementava-se com os ferros sabiamente cravados e unia-se uma força cantada e compassada até que a pedra saísse lisa e direitinha como uma fatia de fiambre. Muito bonito de se ver, realmente. Também do género, lembro-me de um vídeo do Michel Giacometti que no seu trabalho de recolha sonora etnográfica gravou a bordo de uma traineira algarvia a parte em que os pescadores dão com o pescado (na altura não havia GPS nem sondas) e vão puxando as redes enquanto uma espécie de mandador vai marcando o ritmo daquela cantilena. Doze horas demoravam a içar as redes, revesando-se na tarefa. São cantilenas impossíveis de descrever por palavras. Cultura portuguesa ao mais puro nível. Preciosíssimo. Escrito isto passei pelo Youtube: se quiserem ver esta relíquia procurem por “alar da rede”. Pelo caminho encontrei curiosamente uma “cantilena da pedra” da Póvoa de Lanhoso. Passo a citar, “o cantar à pedra, para os alveneiros, ou cantilena da pedra, na linguagem dos musicólogos, é constituído por interjeições adaptadas a uma sugestiva melopeia em que o ritmo respiratório condiciona o ritmo do trabalho. Cada inspiração é seguida por um momento de esforço máximo coincidindo com um movimento melódico ascendente, o esforço muscular cessa no momento da expiração.” Maravilhoso!

Psicologia colectiva e cultural para a execução de árduos trabalhos. E assim temos de ir buscando modos de conduzir o esforço conjunto destas semanas. Procurar as réstias de inteligência emocional para manter a mente o mais sã possível. Estes exemplos de motivação perante as dificuldades não são do meu tempo, mas claro que a aprendizagem pela vivência não é tudo. Nem escola da vida nem a vida da escola. Às vezes aprendemos com a escola dos outros e a maior parte disto aprendi com a escola da vida de meu pai. São as vontades de querer conhecer e de querer dar a conhecer que se juntam. Chama-se transmissão cultural. Uma coisa que só faz bem transmitir nem apanhar, embora muitas vezes uns não queiram saber e outros não estejam para repassar. Um pouco de cultura e outro tanto de psicologia motivacional. Tudo muito ancestral, tudo incrivelmente útil e actual. Assim é o ciclo da vida e o do mundo e assim queiram continuar a ser. Cuidai-vos bem. Um forte abraço!