Pousadas: Santas e Santos

Apesar da precaução na escolha de uma mesa na sala a fim de tomar o pequeno-almoço em paz, sossego, se, esquecer a nitidez na visualização da paisagem, soberba, relativamente ao revestimento vegetal, num aceno espiritual a englobar várias referências históricas, simbólicas, filosóficas, literárias e musicais, uma senhora recamada de bijutaria no avantajado busto, braços e dedos, resolveu enlaçar as pessoas em seu redor na sua apologia classificativa das Pousadas e Paradores. As palavras brotavam-lhe da boca de lábios grossos repintados a escarlate, se me é permitida a expressão – fazia a festa, lançava os foguetes e recolhia as canas – em girândola no arraial da Senhora da Agonia na minhota Viana do Castelo perdição de um Presidente da Câmara teimoso no querer amputar o Castelo, o PSD ficou sem o feudo até aos dias de hoje, na cercania do burgo no alto do Monte de Santa Luzia está a confortável Pousada onde há anos rebentou um sarilho de fraldas fomentado às escondidas por um intriguista brigantino porque é possuído pela maleita que está na origem das filhas de Lot terem sido transformadas em sal. 
O mote apregoado através da verborreia da senhora presunçosa de ter estado na generalidade das Pousadas fez-me «saltar a tampa» expressão do agrado de Salgueiro Maia, por isso de uma assentada teci merecidos elogios às Pousadas de S. Bartolomeu em Bragança, à de Santa Catarina na vetusta Miranda do Douro a contrariar o escrito Ares de Trás-os-Montes, no qual o filósofo diz: se forres a Miranda vê a Sé e desanda. Ora, a vista oferecida, e a comida nela servida deslustravam a opinião  do pensador discípulo de Teixeira de Pascoaes, seu vizinho no  Marânus onde está implantada a Pousada de São Gonçalo, conclui estar a salvo dos gostos estéticos da Senhora. Enganei-me!
A Senhora chocalhou as pulseiras ao modo da cascavel lançando Santas e Santos madrinhas e padrinhos de pousadas daqui e de acolá, obrigando a lembrar várias a distinguirem Conventos sublinhando o papel das ordens religiosas no amparo assistencial das Ordens religiosas, umas edificadas na linha de fronteira com Castela – Flor do Crato, Lóios, Elvas, Estremoz, Vila Viçosa, Serra d’Ossa e Serpa; outras na orla marítima – Óbidos, Palmela e Alvito – a confirmarem os bons serviços prestado a Portugal pelos monges e frades, sem embargo de vários desvarios praticados ao longo dos séculos. Tal como uma vespa incomodada pelo atrevimento dos rapazes de Lagarelhos a espevitarem os seus aposentos nas frinchas das paredes, nos ocos das árvores e cavidades existentes nas estrias de madeira dos cabanaise forros das casas de antigamente a dama incomodou-se ao ponto de procurar auxílio na extensão da mão direita – o telemóvel informador – levando-a a debitar nomes sobre nomes comemorativos e evocadores de padroeiros e protectores da generalidade das povoações portuguesas. Sem alterar o tom de acentuação, ironicamente, agradeci a lição retirada de um qualquer guia, mesmo doceiro a não distinguir paternidades, pedi licença, levantei-me e evitei entrar na «dança» das estalagens e Pparadores de «nuestros hermanos» pois para enfado já tinha recebido dose suficiente.
É abundante, sólida e multidisciplinar a bibliografia sobre a obra assistencial no nosso País, a sua leitura permite-nos aferir quão grande foi a miséria reinante no decurso dos séculos, visitarmos os antigos locais de acolhimento mostra-nos as subtilezas dos arquitecto na sua construção, a título de exemplo recordo a Pousada de Guimarães e consequentemente o Professor Fernando Távora, sim o fautor do restaurante Maria Rita, e porque vêm ao talho de foice o arquitecto Alcino Soutinho não só em Amarante, também em Alfândega da Fé, ou seja: o nosso património por portas e travessas emerge a torto e a direito, até nas refeições matutinas ao arrepio da minha vontade na fruição da soledade contemplativa.

Armando Fernandes