Pascoelas e violetas

Na borda da estrada vi pascoelas a tiritarem de frio, a balouçarem sem quebrar, vi violetas minúsculas a concederem cor ao terreno a enxugar a água resultante das copiosas chuvadas caídas nas margens do rio Tejo. A contemplação da humildes flores não me recordaram a sagração da Primavere (era o dia de início da estação verdejante, assim o desejo), lembraram-me vivazmente a matriz de onde provenho, aqueles campos, as faceiras, as hortas ou cortinhas, os tufos de erva aqui e acolá, todos os rebentamentos vegetais a nos alegrarem, mesmo as raparigas namoradeiras obrigadas a irem vigiar os laregos soltavam cascatas de riso utilizando sabiamente os olhos e os lábios no indicar a possibilidade de os ansiosos interessados retouçarem nos lameiros e veigas convidativas ao «pecado» em plena Quaresma.
Nos arredores da cidade também existiam pascoelas e violetas, olhava-as, no entanto, porque eram belíssimos, maiores e cujo nome – amor-perfeito – encerrava enorme carga simbólica cotava alguns, sempre que podia, nos bem arranjados do jardim António José de Almeida. Relativamente a jardins de culto, feéricos e frementes tenho a minha conta, lastimo existirem tantos patrimónios nesse segmento da arte ao abandono que me levam a deduzir a pouca consideração dos decisores pelos jardins, os alegretes, os muretes floridos, as janelas engalanadas como duas que exibiam formosas begónias na rua Santo Condestável.
Do grafar o nome a tinta preta Pelikan nas flores eu lembro-me, de olhos baixos ou arregalados agradeciam raparigas sem ósculos, a moda dos beijinhos restringia-se à família, para de imediato colocarem a oferta no meio de um livro. É bem provável passados anos aparecerem as pétalas secas, tal qual a paixão, e se motivarem ligeiro suspiro é frémito deteriorado quantas vezes repelido de supetão.
Ali estava a enovelar em forma de caleidoscópio imagens, palavras, gargalhadas, lágrimas, suspiros, alegrias, suavidades afagadoras do ego, as pascoelas continuavam a tremer, as violetas pediam socorro pois estavam prestes a afogarem-se, esquecendo-me da trepidação da vida, da saída de pista do PSD, do ajuste de contas de rapazes crescidos e educados no mau manual da JSD, levando à «decapitação» de Feliciano Barreiras Duarte (bem pode principiar a procurar emprego), a promoção de José Silvano (quem diria!) acreditando eu no seu bom desempenho caso não escorregue numa casca de laranja, nos gorjeios aflautados da Senhora Cristas nutrido exemplo da jactância, no homem espectáculo António Costa, no amais que esperado triunfo de Jorge Gomes, o vencido não entendeu a cidade, muito menos os avisos dos camaradas treinados e batidos em desmontarem minas e armadilhas. E qual estaca, especado, permaneci longos minutos.
Sem pedantismos espúrios a intencionalidade desta crónica será sempre aferida por quem a lê, todavia a minha intenção é o de afirmar o estatuto (divino?) da Natureza, no caso em preço dos montes e vales da Terra Fria, já pouco semeados de gente, enormemente glosados nos círculos políticos e sociais, a plagiarem a passarada ávida das sementes, bichos saídos da casca das frutas (ainda aparecem) e abelhas precedidas de insectos no chupar os açúcares das flores.
Imóvel, risonho, ao chegar a casa o Nordeste obriga-me a fechar o carão; a falta de financiamento impede a realização de uma feira, a falta de clientes leva ao encerramento de casas de venda de dinheiro, os dois exemplos nada indicam de bom, os produtores e empresários do Nordeste têm pensar argutamente trabalhando na dualidade ter mais lucros e menos despesa num círculo agressivo e tempestuoso. Como fazer? Fazendo, aproveitando a inteligência dos criadores e a acutilância dos empreendedores.
Falar é fácil, opinará o leitor. É facial, no entanto sugiro aos estrategas do desenvolvimentos passeios a enlamear os sapatos, não descansem a inércia no fundo surrado da verborreia, observem as abelhas, as aranhas tecem teias de intenções e realizações (há teias enormes e custosas), a formiga como disse um pensador é empirista que colecciona, “mas o verdadeiro trabalho filosófico é o da abelha, que reira suco das flores para o transformar, como o espírito faz com os dados da natureza”.
To o texto é um hino â natureza. Lá onde estiver o panteísta Teixeira de Queiroz desculpara a presunção, fica o desejo. Na Quaresma serei absolvido, assim acredito. Boa Páscoa.
Armando Fernandes
Ps. Parabéns à Diocese de Bragança pela digitalização do seu Arquivo e o ter colocado à disposição de todos os públicos. Um exemplo a ser seguido.

Armando Fernandes