O mel do poder

Há dias Castro e Almeida demitiu-se do cargo de vice-presidente do PSD, soprando a notícia de modo a provocar acres embaraços a Rui Rio para gáudio de Marques Mendes e roda de comadres habituadas à intriga após o remanso prandial seja na procura de manter ou reconquistar migalhas de poder partidário e autárquico. O  comentarista de Fafe, qual morgado camiliano prossegue na sua cruzada contra Rio, acerca de Castro Almeida elogiou-lhe virtudes, assegurando ser o antigo autarca, antigo avençado de Luís Filipe Meneses, e antigo secretário de Estado de Cavaco Silva grande amigo do ora Presidente do PSD, como se costuma dizer: com amigos assim, deste calibre não necessita de inimigos. 
O episódio é um entre milhares de outros de semelhante teor, todos conhecemos o significado da expressão – até Tu, Brutus –, porque o poder tem mel (pensemos no cavalheiro da poção, Santana Lopes) ao ponto de criar ódios e antagonismos viscerais a passar de geração para geração, acicatando ódios (ódio velho não cansa é título e substância de um livro de autor português) como bem exemplifica o isabelino na obra Romeu e Julieta.
Porque não pretendo colocar sal nas bubas esqueço as animosidades ocorridas no seio do PS e do PSD no distrito de Bragança desde o 25 de Abril de 1974, recordo uma no período salazarista entre o coronel Direito de Morais e o coronel Machado (Machadinho) a qual obstou à promoção a brigadeiro do primeiro e a sua entrada no alçapão da obscuridade.
Falar da apetência e uso do poder no Partido Comunista é muito difícil dado o Comité Central e estruturas adjacentes viverem e actuarem em círculo, de tempos a tempos há notícia de convulsão ou espirro de militante, no entanto, prevalece a disciplina do silêncio, já no Bloco de Esquerda a tosse quando ataca ouvem-se os esgares e nos últimos dias foram prolongados e ruidosos, especialmente na sua estrutura de Santarém porque a omnipotência da cúpula fez tábua rasa da opinião da omnipresente base escalabitana sacrificando o empenhado e competente deputado Carlos Matias. 
O mel do poder ataca em todos os segmentos e níveis da sociedade, mesmo no seio da profissão mais antiga do Mundo há profissionais a comerem o mel delicioso dos figos, e as colegas ficam com os beiços rebentados, assim ao modo das teúdas e manteúdas pelos burgueses bragançanos, e as desprovidas de atributos ficando condenadas ao fugidio comércio dos dias de feira, magalas sem patente e estudantes mais abonados.
O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente, disse e escreveu um Lorde, a sucessão de casos e escândalos financeiros destapados nos últimos tempos demonstram quão avassalador é o poder em todos os quadrantes da sociedade, só lhe resistem os ascetas e os imbecis. Mesmo os malucos quando o alcançam usufruem-no gulosamente, quantas vezes tragicamente a ponto de provocarem muitos milhões de vítimas, assim tem sucedido em todas as partes do Mundo.
Dentro de dias vamos conhecer as listas concorrentes às eleições legislativas, após virem a público vamos voltar a ouvir queixumes e iras dos colocados fora do círculo do poder, entendidos no vai e vem da roda partidária ficarão a remoer em silêncio esperançados num bambúrrio recuperador, os despromovidos sem remédio soltarão uivos esquecendo pecados antigos de igual ou maior rompante, os donos de memória lembram-se de velhos antagonismos centrados fundamentalmente no despique Bragança Mirandela repleto de rasteiras, entradas a pés juntos e cargas amparadas em chapeladas e cambões de última hora. 
O filósofo Bertrand Russell legou-nos o famoso livro «O Poder, Uma Nova Análise Social» tão actual como há dezenas de anos, o admirável pensador de «O Casamento e a Moral» penetra na ânima do entusiasmo na captura do poder e na desilusão colhida quando os candidatos são vencidos levando muito deles a refugiarem-se nos poderes fácticos e do oculto contrastando com os amantes da sabedoria contida na teleologia de vários ritos derivados desses mesmos poderes. O filósofo, eminente matemático, amigo do pacifismo, especialista na desmontagem do credo comunista, em Portugal colheu fartos aplausos por ser contra todos os dogmatismos e formas de guerra. Os dados à reflexão ganham conhecimento e sabedoria se lerem os escritos da sua autoria.
A alucinante e desmiolada corrida ao poder obrigou-me a reler Russell, da releitura ganhei um melhor entendimento das fraquezas humanas no afã da conquista do poder caucionador de vilezas veniais e capitais. Sórdidas também. Se o leitor for candidato proteja-se!

 

Armando Fernandes