Notícias e comentários

E com frequência evocada uma verdade que, sendo verdadeira e verificada, não deixa de ser recorrente com as consequências conhecidas e confirmadas:

A forma como alguns temas são tratados na comunicação social potencia o seu efeito, agravando-o.

É, nomeadamente, o caso dos estivais incêndios florestais, cujo espetáculo ígneo repetidamente transmitido, em direto (e diferido), aumenta a apetência dos pirómanos para dar seguimento à sua impetuosa vontade de forçar a atuação dos bombeiros e correspondente cobertura dos media. Estou seguro que a divulgação de reportagens recentes com residentes a resistirem à intimação de abandono das suas casa em risco, nos dramáticos episódios da serra de Monchique, deste verão, veio fomentar comportamentos idênticos noutros que, de outra forma, poderiam obedecer, sem qualquer resistência às indicações das autoridades. Disso dei conta em crónica publicada há pouco tempo.

Mais recentemente, voltei a erguer o dedo em riste, a propósito da forma como o assunto dos Ensaios Clínicos é distorcido, na opinião pública e dificultado à sua adesão, com prejuízo para todos porque as notícias apenas dão relevo aos casos mal sucedidos e dramáticos. Muitos outros casos se poderiam aduzir, todos referidos e assinalados e nunca desmentidos. E, contudo, nada indicia qualquer mudança, qualquer alteração de relevo, qualquer alternativa consistente. Dei comigo interrogar-me porquê e, curiosamente, reconhecendo a justeza da crítica, não encontro, em boa verdade, sustentação, suficientemente robusta, para uma opção diferente.

Chamar a atenção para o que é evidente, é fácil. Mesmo que o alerta não seja demais, mesmo que a intenção seja (e é) servir o público e o bem-estar comum, os alertas sobre os “pretensos” exageros mediáticos, mesmo que funestos, não podem, de forma nenhuma sugerir que não é igualmente o serviço público que move os muitos e bons jornalistas nas reportagens que, com o maior profissionalismo, trazem ao conhecimento de todos.

Se um incêndio de grandes proporções deflagrou e consome, descontroladamente, dezenas de hecatres florestais... como não o noticiar, na hora e com relevo? Se um ensaio clínico correu mal, seja de que fase for (porque se há-de querer que um repórter seja especialista em tudo o que noticia?) obviamente que tem relevância muito superior às centenas que correm bem e em segurança nas restantes fases. Como pretender que não seja exercida, na plenitude, a missão a que tantos e tão bem se dedicam?

Apontar os possíveis efeitos perversos, repito, é fácil, para mim (mea culpa) e para todos os que como eu, nos jornais e noutros meios de comunicação, se dedicam ao comentário. Nós não temos carteira profissional, não nos regemos por nenhum código deontológico público e escrutinável. Emitimos a nossa opinão e regemo-nos pela nossa própria deontologia. Não relatamos, comentamos. Não expomos factos, exprimimos pensamentos. Não nos distanciamos, pelo contrário, encarnamos os nossos relatos na primeira pessoa.

Contudo, também repito que a forma como os media anunciam e relatam determinados factos, contribuem significativamente para uma imagem negativa, que não corresponde à verdadeira e fomentam comportamentos que agravam situações já de si, suficientemente dramáticas.

Claro que gostava que fosse de outra forma. O meu problema é encontrar o princípio que seja suficientemente válido, definido e caracterizado que dê suporte a uma guinada consistente, noutra direção.

Um jornalista, tal como eu, também tem a sua opinião pessoal, mas é-lhe recomendado (muitas vezes imposto) que se abstenha de a manifestar no exercício da sua profissão. Eu também tomo conhecimento de factos mas não me interessa nem me motivo a relatá-los de forma distante e disciplinada como fazem os melhores repórteres. Talvez haja, entre estes dois mundo, uma zona de contacto e talvez exista nesse espaço a melhor resposta para este problema. Quem sabe se a solução não pode ser encontrada após uma discussão aberta, uma conversa franca e uma reflexão conjunta, entre comentadores e jornalistas?

Um evento desses seria, sem dúvida, motivo para uma boa notícia e um excelente tema para uma crónica: a opinião dos repórteres de notícias e os factos que motivam os cronistas!

José Mário Leite