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Notícias da aldeia

Sinto-me na obrigação de dar voz à aldeia que morre paulatinamente “à beira- mágoa” como diz o Pessoa. Muitos de nós tivemos a ideia romântica de regressar à aldeia, reconstruir a casa, erguer o pombal, ladrilhar o forno, semear a horta e esperar pela primavera para ver florir o pomar na promessa de mil frutos. Os anos passam e envelhecemos, os vizinhos envelhecem e esperam dolorosamente que os filhos regressem pelo Natal, em Agosto, ou para os funerais que se anunciam. E assim, a nossa aldeia vai-se tornando num sítio lúgubre, depositário das memórias dum tempo de fome e servidão, mas onde em cada recanto do povoado havia gente, sentia-se a vida, animavam-se os campos, enchiam-se as escolas de crianças que aprendiam pela força da persistência e do flagelo das reguadas. Nas nossas aldeias hoje vive-se bem, se entendermos por viver bem o facto de não haver fome e ter algum dinheiro no Banco espreitando os imprevistos do futuro. Mas com rigor nas nossas aldeias não se vive bem, sobrevive-se neste desassossego de ouvir o sino tocar a finados e prever, sinistramente qual será o último vizinho a morrer ou a abandonar a aldeia no espaço breve de quinze, ou vinte anos. Lá se vai andando, gemendo e mancando. Depois será o silêncio e um vasto deserto para os antropólogos, sinistramente, estudarem o fim duma comunidade que não resistiu ao abandono do Poder central.
E as frases continuam a ser magnânimas e qualquer político que se prese elenca, entre uma visitinha apressada, um copo de vinho e uma posta de vitela assada na brasa, que é urgente salvar o interior desta morte anunciada, potencializar o turismo, apoiar a riqueza endógena destas regiões para que o país caminhe a uma só velocidade, sem a clivagem entre o interior e o litoral. Depois, regressam a Lisboa e tudo continua na mesma; pelo natal mata-se o porco, com sorte virão os filhos ajudar a apanhar a azeitona, chegará o verão, haverá festas e o senhor padre, na sua velhice, celebra missa enquanto puder e continua-se a observar este deserto na ausência das crianças que há muito deixaram de povoar a escola. 
Em boa verdade nem sei para que existem partidos políticos nas terras do interior. Talvez para criar inimizades e conflitos entre os vizinhos que se batem pelo seu partido enquanto alguns de Lisboa se riem no amanho da sua vidinha. A política faz-se em Lisboa onde quase tudo se decide como se as mulheres e os homens da “polis” transmontana não existissem, ou sofressem duma incapacidade provinciana de entender o mundo e as subtilezas do conhecimento científico.
E depois, a inteligência lisboeta fala do interior como se fosse o último reduto duma comunidade longínqua e mística que ainda vive na idade média entre o burro, a vaca, a galinha, os mitos e os preconceitos que vale a pena visitar num passeio turístico, antropológico e etnográfico. Embora, ultimamente, quase ninguém de monta da área do Poder se tenha visto por estas Terras, pois os votos são poucos e será sempre amanhã que se olha para o interior como sendo parte integrante do todo nacional.
De vez em quando a dinâmica político-partidária lá se anima com as eleições das comissões políticas concelhias, ou distritais. Mas é sol de pouca dura, pois em breve, as grandes decisões regressam a Lisboa. E mesmo os candidatos a deputados que são os mais diretos representantes das populações, muitas vezes, são escolhidos pelas estruturas políticas nacionais num total desrespeito pelas estruturas locais e num insulto descarado à inteligência e à capacidade de decisão das populações do interior incapazes de fazer valer a sua vontade, pois o peso do seu voto pouco conta.
Sem dúvida que não há democracia se não houver partidos políticos fortes, atuantes e representativos da diversidade ideológica dos cidadãos. Mas partidos que marginalizam as regiões mais isoladas, não vale a pena. E mesmo os autarcas, não saem dum desassossego, numa luta heroica pelos seus municípios, batendo com insistência à porta do Poder que se entrincheira em Lisboa e muitas vezes assobia para o lado.
Assim não. Já não há paciência. Contudo o sol, por enquanto, ainda continua a nascer radioso lá para os lados da Lombada e a pôr-se no recato da Senhora da Serra. Pelo menos o sol ainda é democrata e é para todos.
Vou-me lá acender o lume e esperar que este inverno gélido não leve muitos vizinhos, pois já somos tão poucos os que resistimos.
Talvez este ano nasça alguma criança.    

Fernando Calado