Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Torre de Moncorvo 4.º Encontro de História e Cultura Judaicas

Em termos de história e cultura judaica, Torre de Moncorvo constitui caso singular. Com efeito, no ano de 1976, quando em Trás-os-Montes fervilhavam comícios políticos, realizaram-se ali umas jornadas de cultura judaica, promovidas pela câmara municipal presidida pelo Sr. Almiro Sota. Seguiu-se a atribuição do título de cidadão honorário ao embaixador de Israel, Sr. Halevy-Milmar em reunião de câmara de Moncorvo de 1.6.1982 e o pedido de geminação da vila trasmontana com uma cidade israelita.

Quando se esperava que a iniciativa entrasse a “dar frutos”, no campo da cultura e do turismo e do estreitamento de relações culturais, aconteceu o contrário, certamente porque os responsáveis políticos camarários que seguiram consideravam o assunto de menor interesse. Só em 2002,no salão nobre da câmara se realizou uma sessão, com palestras de dois investigadores da Cátedra de Estudos Sefarditas e apresentação do livro “Subsídios para o Estudo da Inquisição em Torre de Moncorvo”. Anos depois, com o mesmo presidente da Câmara, Eng.º Aires Ferreira, foi apresentada a obra “Os Isidros – A Epopeia de uma Família de Cristãos-novos de Torre de Moncorvo” e um prospeto desenhando uma rota dos judeus na vila de Moncorvo, que ainda hoje é distribuído no posto de turismo local.

Entretanto, outros municípios lançaram iniciativas semelhantes (e muito mais agressivas, refira-se), no sentido de estudar e promover os estudos de cultura judaica, com vista à promoção de rotas de turismo. Foi o caso de Belmonte, Guarda, Trancoso, Castelo de Vide, Tomar…

Em 2015, com o atual Presidente da Câmara, Dr. Nuno Gonçalves promoveu-se a adesão de Torre de Moncorvo à Rede das Judiarias e realizou-se o 1.º Encontro de História e Cultura Judaica.

Nos dias 22 e 23 pp. teve lugar o 4.º desses Encontros. A organização foi da responsabilidade da câmara e coordenação científica da Dr.ª Adília Fernandes, e Dr. Adriano Vasco Rodrigues, Moncorvenses de incontestável saber e vasto relacionamento na matéria.

Congratulamo-nos com a iniciativa que trouxe a Torre de Moncorvo Mestres como o Sr. Professor Norberto Cunha, da universidade do Minho, o Sr. Dr. António Assis, da universidade Lisboa, o Sr. Professor Luís Reis Torgal, da universidade Coimbra, o Sr. Dr. Carlos de Almeida Barata, da universidade federal do Rio de Janeiro e o Sr. Dr. Fernando Rosas, da universidade

Nova de Lisboa. Obviamente que não nos atrevemos a comentar os trabalhos apresentados, todos de âmbito mais ou menos geral, relacionados com a inquisição e cristãos-novos. Ao público presente agradou particularmente a intervenção de Fernando Rosas, fazendo uma brilhante história do judaísmo e da inquisição em Portugal. Tratou-se, em parte, da reposição de um programa já transmitido pela RTP-2.

De natureza mais particular e específica foi a conferência do Sr. Dr. Guilherme Maia Loureiro intitulada: – O Moncorvense Francisco Botelho de Morais e a importância da crítica das fontes de Genealogia Sefardita.

Antes de mais, cumpre render homenagem ao genealogista Dr. Loureiro pela preocupação que teve em preparar um trabalho adaptado ao local e ao público-alvo da conferência. Pela primeira vez, na história destes Encontros, alguém que veio de fora apresentou um texto especificamente dirigido ao auditório Moncorvense, tratando um tema referente à história judaica de Torre de Moncorvo.

Perdão: o tema não respeita apenas a Moncorvo, mas também a Freixo E. Cinta e outras terras trasmontanas. Na verdade, ao longo de 500 páginas de diligências para habilitação de António Coelho Meireles e seu irmão José Borges Varejão, desenrolam-se incríveis lutas políticas e questões sociais, mostrando grandezas e misérias da nobreza e da aristocracia cristã-velha da região e do viver quotidiano dos cidadãos.(1) Vamos contar.

Como sabem, a inquisição tornou-se numa poderosa e temida organização que dominava toda a sociedade, muito especialmente a partir da aprovação das leis de limpeza de sangue que proibiam o exercício de determinadas atividades e a entrada nas classes da nobreza e do clero aos cristãos-novos.

Por outro lado, era muito prestigiante e economicamente rentável ser funcionário ou colaborador da inquisição. O acesso, porém, era extremamente difícil e os pretendentes sujeitos a rigorosos processos de investigação.

Aconteceu que, em 1702, José Borges Varejão, filho do capitão-mor de Freixo, então solteiro e depois casado com a não menos nobre D. Maria de Távora de Carvalhais, apresentou o seu pedido para ser familiar da Inquisição.(2)

De acordo com o regimento da inquisição, abriu-se um processo para averiguar se entre os seus ascendentes houve algum com fama de judeu ou cristão-novo. Como o seu avô paterno (António Varejão de Gamboa) era natural de Torre de Moncorvo, foram também feitas investigações nesta vila, ouvindo-se uma dúzia de pessoas das mais velhas e credenciadas da terra. E entre elas foi chamado a testemunhar Francisco Botelho de Morais, que, além de capitão-mor da comarca e homem da governança da câmara, era um dos mais famosos genealogistas Trasmontanos, tendo escrito, entre outras obras, um “Nobiliário de Famílias nobres de Portugal e particularmente da província de Traz-os-Montes”. Em seu depoimento, Botelho de Morais, foi cáustico e, entre outras declarações, afirmou:

— José Borges Varejão é descendente de nação hebreia e cristão-novo por três vias, porquanto Pedro de Esportilho, casado com Mécia de Esportilho, cristão-novo inteiro, vivendo em Valhadolid, sua pátria, foi o dito Pedro Esportilho preso pelo santo ofício e queimado, e o seu retrato se pôs na sé da dita cidade ou igreja onde se costumam pôr semelhantes retratos. E a dita sua mulher com uma filha do mesmo nome vieram para Bragança aonde casou a dita filha com um homem principal e deles foi filha Maria Lopes Esportilho que veio casar a esta vila de Moncorvo e desta foi filho António de Castro, chanceler da correição e deste foi filha Maria de Castro e desta foi filho António Varejão de Gamboa e deste é filho Pedro Varejão de Gamboa, pai do justificante…(3)

Limpo, limpinho, maior clareza não podia haver, a respeito desta primeira via judaica. Além da via dos Portilhos, havia também sangue judeu proveniente de Maria Álvares de Castro que veio de S. Felices de Gallegos para Freixo a casar com João Fadiga. Desta Maria Álvares descendiam Maria Pinta, avó paterna de José Borges Varejão e Catarina de Meireles, avó materna do mesmo. Esta ascendência judaica das avós do habilitando fora já denunciada por outras testemunhas de Freixo. Aliás, havia pessoas que se recordavam de três filhas de Pedro Lopes da Fonseca e Maria Coelha Zuzarte que, em 1669, foram presas pela inquisição de Coimbra, acusadas de judaísmo e eram da família do candidato.

Não vamos falar das investigações que então se fizeram sobre a ascendência de S. Felices de Gallegos. Vamos ater-nos à denúncia de Botelho de Morais sobre os Portilho, uma família muito importante e que tinha descendência espalhada por todas as famílias nobres de Trás-os-Montes. Assim, infamar José Borges Varejão era infamar outras famílias nobres de Trás-os-Montes. Acresce que, antes e depois de Borges Varejão outros candidatos a cargos inquisitoriais ou eclesiásticos da descendência dos Portilho tinham sido considerados como cristãos-velhos, sem qualquer gota de sangue judeu, havendo quantidade de padres como era o caso, em Torre de Moncorvo, do padre Jacinto de Castro Borges, da Companhia de Jesus e do padre Bartolomeu de Castro Borges, beneficiado da igreja matriz de Moncorvo, filhos do Dr. João Gois e sua mulher, Ana Borges. Inclusivamente havia no tribunal de Lisboa, um inquisidor natural do Vimioso – Manuel Pimentel de Sousa – “que descende de Rui Gonçalves de Gusmão e Mécia Portilho”, conforme se escreve neste mesmo processo, em nota à margem.

Tudo isto foi contado por José Borges Varejão em uma longa exposição, acrescentando que Francisco Botelho de Morais “põe nas genealogias das pessoas a quem tem ódio, mácula”. E explicou que o ódio do genealogista vinha de tempos antigos, das lutas entre os Botelhos e os Castros, com “mortes e cortamento de pernas”… contos que darão um livro de história política de Moncorvo naquela época.

Obviamente que os inquisidores mandaram apurar a verdade. Voltou o comissário a Torre de Moncorvo, instalando-se no convento dos frades franciscanos, para evitar que fosse conotado com uma das parcialidades. Ele próprio explicou:

— Por evitar os juízos que os moradores faziam se vissem ir Francisco Botelho de Morais falar comigo tempo dilatado, porque me consta dizem em semelhantes ocasiões: “quem será o miserável sobre que cairá o raio de Francisco Botelho”, por lhe chamarem o inimigo comum e bem mostrar ser, pois o é de sua mulher e filhos, com os quais não só não trata, mas os desacredita por papéis, em litígios que com eles trás (…) na tal vila (Torre de Moncorvo) haveria mais de 70 anos tendo notícia houvera parcialidades entre a família dos Borges, de que descende o justificante e a família dos Botelhos e dos Castros, de que descende Botelho de Morais (…) parcialidades foram tais e os ódios, que continuadamente se andaram infamando nas partes mais públicas, e fazendo pendências que pareciam guerras civis naquela vila (…) nas tais pendências cortaram uma mão os Borges a Damião Caldeira, da família dos Botelho, de que procede o dito Francisco Botelho…(4)

Impossível no âmbito dessa página fazer uma descrição detalhada dos acontecimentos. Diremos tão só que as diligências se dilataram no tempo (por 40 anos!) e no espaço (foram também a Espanha, onde se provou que Maria Álvares descendia de uma família da nobreza, com brasão insculpido na igreja). E o candidato estava já “adiantado em anos e cheio de moléstias e achaques” quando os inquisidores decretaram a sua limpeza de sangue.

Enquanto as diligências de habilitação de José Borges Varejão correram, seu irmão, António Coelho Meireles, que fora juiz de fora em Viseu, corregedor em Portalegre e Coimbra e desembargador da relação do Porto, ascendeu à posição de desembargador da Casa da Suplicação, numa carreira de sucesso. E buscando mais prestígio social e proventos económicos, requereu a continuação do processo e o cargo de familiar do santo ofício. Foi-lhe a carta concedida em 16.9.1745. Nesta altura já Botelho de Morais era também falecido e desacreditado como genealogista.

Notas:

1 - A nossa investigação sobre este caso começou em janeiro de 2018 quando preparávamos a biografia de Antónia Coelho Zuzarte. – Jornal Nordeste, n.º 1106, de 23.1.2018.

2 - Os Familiares eram informadores e executavam as ordens transmitidas pelos comissários, como fossem as de executar as prisões e conduzir os prisioneiros às cadeias da inquisição.

3 - Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, António, mç. 100, doc. 1793. Provou-se mais tarde, com documentos autênticos, que as informações de Francisco Botelho não eram totalmente verdadeiras.

4 - Ao corte da mão de Caldeira, terá seguido uma espiral de violência com Jerónimo Botelho de Vasconcelos, “cabeça do rancho contra a família dos Borges” a matar uns filhos do Dr. João Gois e os Borges a responder, matando Jerónimo Dessa, da parcialidade dos Botelhos. Razão teria o abade do Felgar ao falar de uma verdadeira “guerra civil” em Torre de Moncorvo.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães