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Nós trasmontanos, sefarditas e marranos- Manuel Lopes, um judeu do tempo da inquisição - 9

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Será que as celas da inquisição funcionavam com escola de correção e educação cristã? Ou, ao contrário, se transformavam em fábrica de judeus? Na verdade será difícil tirar uma conclusão definitiva. E o caso de Lebução é bastante exemplar. Com efeito, a generalidade dos penitenciados, não esmoreceu na crença da lei de Moisés. Regressados a Lebução, todos eles voltaram a judaizar, mais ou menos abertamente. Os relatos de Manuel Lopes a esse respeito são eloquentes. Duas décadas depois da passagem pelas celas da inquisição, em casa de seus tios, nas noites de sexta-feira, juntavam-se todos em “sinagoga”, para a oração. Vejamos o seu testemunho: - E as Juntas que tem declarado, que se faziam em Lebução em casa da dita sua tia Isabel Cardosa, a que assistiam os que ali nomeou, se reduzia principalmente do que se lembra, a entrarem todos juntos, especialmente à 6.ª feira à noite, em um aposento mais retirado da casa, e ali rezavam- -se diferentes orações, que são as mesmas que tem declarado nas suas audições de 28 e 29 de Março, e se rezavam na sinagoga, e as mais vezes as diziam de memória, e outras vezes as liam por um livro castelhano que não se lembra o titulo, nem o autor nem de quem era, e do tamanho de 3 dedos de alto, como nas horas manuais, que pelos demais o repetiam em voz baixa. E da mesma maneira, quando de memória diziam as ditas orações, tudo para não serem ouvidos e sentidos e alguns das dita juntas copiavam as orações do dito livro para as aprender de memória, e os que já as sabiam, chegavam onde havia água corrente e desfaziam o dito papel, cópia das ditas orações, que se desfaziam e não ficava coisa alguma dele. E ele confitente, ainda que não se recorde de quais dos sobreditos copiavam as ditas orações, está certo que as copiavam no dito aposento retirado, mas não viu algum deles desfazer o papel ou cópia na água mas lembra-se de ter ouvido de alguns deles. (1) Onde chegava o medo e a imaginação! Temendo que lhe apanhassem os papéis com as orações judaicas, logo que as memorizavam, desfaziam-se deles nas águas dos ribeiros! Entre as pessoas referidas por Manuel, como participantes nas “juntas” em casa de Isabel Cardosa e Lopo Nunes, contavam-se, por exemplo, o Dr. Manuel Mendes; Manuel Campos, parente do mesmo, pelo lado paterno, e sua mulher, Maria de Mesquita; Brás Cardoso Nunes, sobrinho paterno do Dr. Manuel Mendes, e Clara Nunes, sua mulher; Domingos Nunes e sua mulher Branca Gomes (2) … e outros mais que, 20 anos atrás, conheceram as celas da inquisição. E não se juntavam apenas em sinagoga, em dias de sexta-feira. A guarda do sábado, como dia santo, era preceito que, na terra, seguia a gente da nação, e para o guardar e celebrar, “se juntavam ora em casa de uns ora em casa de outros” – acrescentou Manuel Lopes. Há uma ideia bastante generalizada que os “marranos” foram esquecendo as orações e adulterando os ritos e cerimónias da sua lei, à medida que os anos e os séculos passaram. Até que ponto essa ideia terá correspondência com a realidade? Pois, o testemunho de Manuel Lopes mostra exatamente o contrário. Ele diz que as orações e os ritos que se faziam em Lebução, em casa de sua tia Isabel eram “as mesmas” que se faziam em Lisboa em casa de seu tio João Dias Pereira e na sinagoga de Livorno, em Itália. Vejamos, a título de exemplo, algumas das orações que rezavam em volta de uma refeição em família. Antes de mais, deviam lavar- -se as mãos e este ato era acompanhado da seguinte oração: - Bendito Adonay rei do mundo que nos santificou em seus santos; benditas encomendanças nos ensinou sobre a limpeza das mãos. (3) Partir o pão será um dos primeiros gestos da refeição. Um gesto que, segundo contou, era acompanhado da récita seguinte: - Bendito Adonay nuestro Diós, rei do mundo e pão da terra. E ao oferecer de beber a qualquer que esteja sentado à mesa, ao tomar o vinho na mão: - Bendito Adonay nuestro Diós sacan fruto de vide. E sendo água diziam: - Bendito Adonay nuestro Diós rei do mundo que tudo foi por sua palavra. Já atrás se disse que, em Lebução, guardavam os sábados, juntando-se “ora em casa de uns, ora em casa de outros”. E tanto em Livorno como em Lebução, nas sextas de tarde, as mulheres “vão para suas casas, limpando-as e compondo-as e fazendo o que se há- -de comer no sábado, porque nele não se acende o fogo, nem se faz coisa de trabalho, nem se toca em dinheiro”. Porém, as circunstâncias originam por vezes, atitudes rituais muito próprias. Veja-se, a propósito, o testemunho de Manuel Lopes sobre algumas atitudes rituais observadas em casa de seus tios: - A dita Isabel Cardosa e mais família faziam e diziam as mesmas cerimónias, orações e jejuns e guardas de sábado que tem declarado se faziam em casa do dito João Dias Pereira, seu tio. E ele confitente viu a dita sua tia Isabel Cardosa por duas ou três vezes no tempo que esteve em sua casa, não se recorda o tempo determinado, descalçar-se os pés, e pô-los, estando em pé, embora encostada a uma cadeira, sobre grãos-de-bico. E assim mesmo, por quatro ou cinco vezes, a viu quedar-se vestida, indo-se todos dormir, junto do fogo, e dizia a dita sua tia que tudo isto fazia por penitência, sem explicar outra coisa mais. E as orações e cerimónias declaradas no capítulo imediato antecedente assim todas as pessoas que tem dito as viu fazer em observância da lei de Moisés, porque se comportam todos da mesma maneira e uns por outros, assim nas juntas que os viu fazer também em Bragança os viu fazer em casas particulares. (4) Falou-se atrás dos ajuntamentos que se faziam em casa de seus tios e de algumas pessoas que neles participavam, assim como das celebrações do “sabath” ora em casa de uns ora de outros. Importará, pois falar um pouco dessa gente que em Lebução se relacionou com Manuel Lopes, para entender a ambiência da terra. Desde logo, o Dr. Manuel Mendes, que era filho do médico Pedro Álvares e sobrinho materno de outro (Pedro Dias da Mesquita). Médicos também, foram dois de seus filhos: Diogo Mendes, formado pela universidade de Coimbra e Manuel Mendes, (5) como o pai, formado pela universidade de Santiago da Galiza. Médico também, formado em Salamanca, foi o seu neto Manuel António Nunes, que casou com Jerónima da Costa, prima de Manuel Lopes, filha de Isabel Cardosa e Lopo Nunes. Nesta galeria de médicos falta colocar o retrato do médico Francisco Nunes Ramos, cunhado de Manuel Mendes, irmão de sua primeira mulher, Brites Nunes e Luís Bernardo Campos Pereira, que estudou em Salamanca e Coimbra, neto paterno do Dr. Manuel Mendes, filho de Baltasar Mendes Cardoso e Teresa Maria de Campos. Como se vê, com 8 médicos numa única família, (haveria mais?) bem podemos afirmar que Lebução era uma terra de médicos. Mas era também uma terra de fabricantes e mercadores de tecidos de seda. Já se falou de Lopo Nunes e do sirgo que comprava para trabalhar a seda, tal como se falou de Pedro que aprendeu em Lebução o ofício de torcedor de seda com o mestre Jerónimo Álvares. Torcedor de seda, igualmente, era Manuel Vaz Campos, um dos homens que Manuel Lopes conheceu em Lebução com frequência na “sinagoga” de seus tios, em Lebução. Álvaro Mendes se chamou o filho mais velho do Dr. Manuel Mendes, o qual casou com sua prima Maria da Fonseca. Um filho e 3 filhas deste casal estão particularmente ligados à família de Manuel Lopes e certamente ajudaram a colorir os seus dias em Lebução. Com efeito, por 1690, chegou a Lebução, vinda de Castela, a sua prima Isabel Dias Pereira, filha de seu tio João Dias Pereira, para casar com Manuel Dias da Mesquita, filho de Álvaro Mendes. Veio acompanhada e “guardada” pelo tio materno Diogo Dias Marques que, por sua vez, casou, na mesma altura, com Clara Nunes, também filha do mesmo. E um terceiro casamento ficou contratado: o de Manuel Dias Pereira, irmão de Isabel Pereira, com Isabel Maria Mendes, (6) outra filha de Álvaro Mendes. E seria depois daqueles casamentos que Manuel Lopes deixou Lebução, levado por Diogo Lopes Marques para Bragança. Pouco tempo depois, Manuel Lopes soube que Clara Nunes falecera, ficando Diogo Marques viúvo. Mas logo haveria de casar com Leonor Henriques, irmã da falecida.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães