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Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Manuel Lopes um judeu do tempo da inquisição 2

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No último texto ficámos na inquisição de Barcelona com o Manuel Lopes a dizer que as declarações feitas anteriormente eram falsas e que agora, sim, diria toda a verdade. Vejamos.

 

Confessou então que não nasceu no mar de Itália, mas em Portugal, na vila de Torre de Moncorvo, onde o batizaram. E que tinha 2 anos quando o seu pai morreu, em Mogadouro (1) e ele foi levado para Lebução, para casa de sua tia paterna, Isabel Cardosa, casada com Lopo Nunes.(2) Falou também dos irmãos, cuja existência antes negara.

Em Lebução, até aos 8 anos, frequentou a escola e aprendeu a ler e escrever, bem como a doutrina cristã. Depois, os tios foram-no introduzindo no judaísmo (3) e ele passou a frequentar as “juntas e congressos” que se faziam em casa dos mesmos tios e em que participavam outros cristãos-novos das suas relações.

Cumpridos os 12 anos de idade e catequizado na lei de Moisés, a tia mandou-o para Bragança, onde vivia um seu irmão, 7 anos mais velho, chamado João Ventura, em cuja casa ficou morando. João era tecelão de sedas, ofício que Manuel Lopes começou também a aprender. 

Em Bragança, com o irmão, viveu cerca de ano e meio. Nesse tempo, por 1696, reencontrou um segundo irmão, o mais velho de todos, chamado Luís Lopes Penha, que morava em Castela, em Benavente, metido no negócio do tabaco. Deslocou-se a Bragança, para casar com Ângela Gomes, filha de Manuel da Costa e, como “chefe” que era da família, para concertar o casamento do irmão João Ventura, com Beatriz Pereira, sua parente, da vila de Chacim.

E foi para Chacim que Manuel e João foram morar, casando-se este com a noiva citada, filha do falecido Bartolomeu Pereira. Ali ficaram morando por ano e meio, fabricando e vendendo sedas, com Manuel a cumprir as ordens do irmão.

Por 1697, deixaram Chacim e foram os três para Lisboa, levando também uma irmã de Beatriz, chamada Maria Manuela. Instalaram-se em uma casa da rua da Figueira, paróquia de S. Nicolau, “empregando-se em fazer chocolate e vender”.

Estando em Lisboa, Manuel Lopes teve oportunidade de assistir à celebração de um auto-da-fé, em 9.11.1698. Nele foram penitenciadas 39 pessoas, várias delas de Trás-os-Montes. Foi o caso de Francisco Rodrigues Coelho, o Riqueza, de alcunha, natural de Vimioso e morador em Bragança. (4) Tinha sido preso em 30.5.1698 e o processo decorreu em Coimbra, tendo sido condenado em cárcere a arbítrio e penitências espirituais. Certamente porque nos cárceres de Lisboa havia falta de prisioneiros para sair no auto, trouxeram-se, de véspera, os presos que estavam despachados em Coimbra, para que o auto-da-fé tivesse mais brilho e dignidade. 

Manuel Lopes havia conhecido o Riqueza em Bragança, morando ao cimo da Rua Direita, o qual era também conhecido pela alcunha de Cara de Renegado, “porque tinha muito má cara”. A respeito deste auto, contou Manuel que se realizou “no pátio sagrado, antes de entrar na igreja dos Domingos (sic), se levantou ali um tablado e adorno para a dita função”. (5)

Sobre o Cara de Renegado, diremos que, depois de sair penitenciado, se ficou a viver por Lisboa, e será um dos fugitivos do navio de Nª Sª la Coronada, juntamente com a mulher e 3 filhos.

Em Lisboa, entre os membros da nação vindos de Bragança, destacava-se João da Costa Vila Real, grande mercador. Manuel conhecera-o em Bragança, mas nunca privou com ele, nem entrou em sua casa. Em determinada altura, adoecendo o seu irmão João Ventura e passando alguma necessidade para sustentar a família, escreveu uma missiva para D. Leonor Nunes, mulher de João Vila Real, contando-lhe as suas necessidades e pedindo-lhe ajuda. E disse ao Manuel que fosse a sua casa levar-lhe a carta, como ele próprio contou:

- E com efeito, havendo ele levado à dita mulher o dito papel, logo que o leu, lhe deu a ele confessante alguns reais, para que os levasse a seu irmão; e lhe parece que voltou a ver a dita mulher para o mesmo efeito de socorrer o dito seu irmão, 3 ou 4 vezes mais, e o socorreu em cada uma delas com alguma quantidade, que não recorda qual foi; e muitas vezes a dita mulher, nas vésperas do sábado, enviava socorro ao dito seu irmão, por intermédio do seu filho mais velho, sem ter-lhe pedido então nada… (6)

Na primavera de 1699, Manuel Lopes reencontrou em Lisboa os tios que o criaram e muitos outros parentes, amigos e conhecidos de Lebução, Bragança e Chacim que, fugidos da inquisição, rumaram a Lisboa e, em 13 de abril, se embarcaram no navio Nª Sª La Coronada, com destino a Livorno. Disso falaremos adiante.

Eles próprios, o Manuel e o irmão, ainda em Chacim, terão sentido também apertar-se o cerco da inquisição e planearam a fuga para Lisboa e Livorno, o que aconteceu no ano seguinte. Veja-se a descrição dessa viagem, feita por Manuel Lopes na inquisição de Barcelona:

- Na cidade de Lisboa estiveram até ao ano de 1700 e embarcaram em um navio chamado Picaron e o capitão era genovês e não se recorda do nome nem do apelido. E do porto de Lisboa, passaram em 48 horas ao porto de Cádis e estiveram detidos na baía por causa do mau tempo e não desembarcaram e algumas vezes João Ventura seu irmão ia a Cádis buscar mantimentos. E do dito porto passaram à cidade de Almeria, Cartagena e Alicante, porque o capitão tinha nos ditos portos negócios e mercadorias. E também, no mesmo tempo, arribaram a Maiorca e em nenhum dos ditos portos desembarcou pessoa alguma da família do seu irmão. E desde Maiorca, rumaram a Génova. E do mesmo navio, sem saltar em terra, tomaram uma falua e se foram para Livorno, em companhia de outra família que, entre marido e mulher e filhos, seriam 6 pessoas, de cujos nomes não se lembra, que embarcaram ao mesmo tempo e ocasião no dito navio Picaron, no dito porto de Lisboa, quando embarcou a família do dito seu irmão João Ventura. (7)

A família referida, que com eles embarcou era a de João Cardoso Pereira, (8) de Chacim, a sua mulher, Isabel Cardosa Pereira e 4 filhos. E levavam com eles um rapaz de 8 anos, sobrinho de João Cardoso Pereira, chamado Gabriel Cardoso. Aportaram em Cádis e ali permaneceram algum tempo, acabando por falecer João Cardoso Pereira, “tendo-se confessado e recebido o viático pela mão do capelão do navio”. O cadáver foi a sepultar numa igreja daquela cidade espanhola. (9) E dele e dos que o acompanhavam ficou a descrição física, feita por Manuel Lopes, verdadeiros bilhetes de identidade. Vejam:

- João Pereira Lopes era alto de corpo cara redonda e cheia de carnes, olhos negros, com algumas brancas assim como a barba e cabelo, que era curto e liso, e teria 50 anos e ouviu dizer a sua mulher e filhas que havia sido mercador.

Isabel Pereira, sua mulher, era alta e magra, cara comprida e branca, olhos negros, assim como as sobrancelhas e o cabelo, este curto e liso, com algumas brancas, de 40 anos.

Maria Pereira, filha dos anteriores, era alta de corpo, cara larga e branca olhos negros e também sobrancelhas e cabelo, este comprido e liso, que seria de 18 anos (…) e lhe diziam que havia casado em Livorno, com um filho da terra, corretor de lonja…

Gabriel Cardoso, sobrinho de João Cardoso Lopes, de 6 anos de idade e altura correspondente à idade, cara comprida, morena, olhos azuis, cabelo preto.(10)

O barco seguiu viagem, acostando em Almeria, Cartagena e Alicante. Neste porto estiveram uns 15 dias. Ao zarpar, entraram dois novos passageiros: uma mulher e um seu cunhado. (11) Iam para a Itália, a tentar impedir que o marido daquela casasse com outra mulher. Manuel não fixou os nomes, mas isso não nos impede que os identifiquemos.

A viagem do navio Picaron terminou em Génova. Dali para Livorno, Manuel Lopes e os parentes alugaram uma faluca e com eles seguiram também os ditos cunhados que Manuel voltará a encontrar em Pisa, como adiante veremos. 

 

Notas:

1- A sua mãe tinha falecido 2 anos antes, possivelmente na sequência do parto de Manuel. 

2- Inq. Coimbra, pº 1145, de Lopo Nunes.

3- Pº 630, tif 95: - Começou a instruí-lo nos ritos e cerimónias dos judeus, advertindo-o e aconselhando-o que aquelas cerimónias e ritos havia de observar e guardar e não a doutrina cristã.

4- Inq. Lisboa, pº 18001, de Francisco Rodrigues Coelho.

5- Pº 630, tif 211.

6- Idem, tif 185-186. ANTT, inq. Lisboa, pº 2366, de João da Costa Villa Real: ANDRADE e GUIMARÃES – Nós, Trasmontanos… João (Abraham) da Costa Villa Real (Bragança, 1653 – Londres, depois de 1729), in: jornal Nordeste nº 1046, de 29.11.2016. Foi casado a primeira vez com Isabel de Sá, da família La Faia – Pissarro e segunda vez com Leonor Nunes ou Leonor da Costa, viúva de Luís Pereira d´Eça. A fuga de João da Costa Vila Real para Inglaterra, levando 17 membros da sua família, foi verdadeiramente espetacular.

7- Pº 630, tif 102-103.

8- João Cardoso Pereira era filho de Diogo Cardoso Nunes (pº 5724-C) e Maria Lopes, de Chacim.  

9- Pº 630, tif 110.

10- Idem, tif 163-165.

11- A mulher chamava-se Ângela e era filha de João Lopes, o Galego, de Chacim. A propósito diria Manuel Lopes: - E a dita mulher e seu cunhado, ao princípio que se embarcaram, tiveram o rancho entre a peça da artilharia e a praça de armas, onde como disse, ia ele confitente, seu irmão, Isabel Pereira (Cardosa) e sua família, e algumas vezes a dita mulher e cunhado entravam na conversação na dita praça de armas com os sobreditos, e passados alguns dias que estiveram entre a dita praça de armas e peça de artilharia, se separaram da dita praça de armas e dali foram com os demais até Génova.- Pº 630, tif 231

 

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães