Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - João Lopes da Mesquita (n. Viseu, 1650)

Na noite de 10 para 11 de maio de 1671, o sacrário da igreja de Odivelas foi profanado, com hóstias espalhadas pelo chão. O país foi então varrido por uma onda de indignação,(1) seguida de outra não menor, de boatos e falsas notícias. E, competindo ao santo ofício zelar pela fé e castigar os crimes contra a religião, imagina-se como os familiares, comissários e outros esbirros da inquisição andariam numa roda-viva, farejando possíveis criminosos.

Por esses dias passavam por Moncorvo dois homens novos, irmãos, chamados Francisco da Mesquita e João Lopes da Mesquita. Não sabemos como as coisas se passaram mas tão só que os forasteiros foram metidos na cadeia, por suspeitas de envolvimento no caso de Odivelas.(2) Ali permaneceram por 6 meses e meio. 

Vendo-se injustamente preso, João Lopes pensou que o melhor seria falar com o comissário local do santo ofício, dizer-lhe que não tinha nada a ver com o caso do “Senhor Roubado”, explicando bem por quais caminhos andara naquele tempo. E para ganhar mais credibilidade, diria ao comissário que, até então, ele seguira a lei de Moisés. Acrescentaria que a sua prisão, embora injusta, foi uma bênção de Deus pois que, estando na prisão, foi alumiado pelo Espírito Santo, para abandonar a Lei errada em que andava e se tornar verdadeiro cristão.(3) E foi o Espírito Santo que o inspirou a chamar o comissário para confessar seus erros e pedir perdão.

Supomos que o plano foi combinado com o irmão que ali estava também preso, se bem que ele o negasse. Facto é que o comissário Caldeira foi à cadeia da Torre de Moncorvo ouvir a confissão dos dois irmãos, certamente em separado e em outra dependência da casa. Foi muito notada a visita do comissário, pois que, antes, se fez uma faxina completa da prisão.

As declarações de João Lopes foram passadas a escrito pelo próprio comissário que, no fim, lhe disse que ia mandá-las para a inquisição de Coimbra. E também lhe ordenou que, saindo dali, se fosse apresentar no mesmo tribunal.

Saídos da cadeia, os dois irmãos dirigiram-se para a cidade do Porto onde João Lopes teria já contratado casa de morada, pois estava de casamento marcado. No Porto estaria também morando nessa altura um terceiro irmão, chamado António Rodrigues da Mesquita,(4) médico formado pela universidade de Coimbra, casado com Ana Pereira, da vila de Muxagata.

Antes de prosseguirmos, vamos até Vila Flor, cerca de 1640, ao casamento de Manuel Lopes Álvares,(5) e Branca Rodrigues, cristãos-novos. O filho mais velho do casal chamou-se Matias da Silva Pereira,(6) o qual viria a casar com Filipa Gomes. Em Vila Flor nasceram também o Dr. António e o Francisco da Mesquita, atrás referidos.

Ao findar da década de 40, acaso receando ser presos pela inquisição, Manuel e Branca pegaram nos filhos e foram para Viseu.

Em Viseu, por 1650, nasceria um quarto filho do casal, o biografado João Lopes da Mesquita que, por 1672, casaria com Filipa Rodrigues,(7) de Vila Flor. Começaram por se estabelecer no Porto, cedo rumando a Viseu, trabalhando João Lopes com o pai e o irmão Francisco, que eram rendeiros e mercadores de grosso trato. João Lopes dizia-se mesmo “um homem muito rico”.

Ano e meio depois do casamento, Filipa Rodrigues faleceu e João dirigiu-se a Madrid, onde morava sua sogra, então casada, em segundas núpcias, com Diogo Lopes, levando-lhe alguns vestidos de sua falecida esposa. Por Castela terá andado algum tempo e, regressado a Portugal, foi casar em Freixo de Numão, com Beatriz de Matos, filha de João Matos.

Os anos de 1690 foram terríveis para os marranos de Trás-os-Montes, vivessem eles na terra natal ou em outras localidades, pois o sistema de informações e registo de denúncias na inquisição foi pioneiro, em relação às modernas polícias.

Nessa vaga de prisões foi também apanhado João Lopes da Mesquita, em agosto de 1693. As culpas remontavam a 1671, quando seu irmão António se apresentou e disse que fizera cerimónias judaicas com ele. Confissão semelhante fizera seu parente Jorge Nunes Ximenes. Havia uma terceira acusação, feita por seu irmão Francisco da Mesquita,(8) preso em novembro de 1692 e que, em 4.5.1693, denunciou o seguinte:

— Disse que havia 28 anos em Viseu, se achou com seu irmão João Lopes da Mesquita e se declararam…

Estranho, pois que os factos remontavam ao tempo anterior a 1671 em que ele se comprometeu perante o comissário Caldeira a abandonar a lei de Moisés. A partir daí, ele provava, com testemunhas da maior nobreza e seriedade de Viseu, que sempre fora cristão exemplar. Por isso, não descortinava razão para estar preso.

Havia, porém, um pequeno obstáculo. O comissário Caldeira ordenara-lhe que fosse apresentar-se à inquisição de Coimbra, quando saísse da cadeia de Moncorvo, coisa que ele não fez.

Confrontado com a falta, explicou que o comissário Caldeira lhe disse “que mandara a dita apresentação a este tribunal, aonde ele confitente viria buscar a absolvição, sendo chamado”. Como nunca foi chamado…

Tempos passados, João Lopes pediu audiência e perante os inquisidores disse que “dava mil louvores ao divino Senhor, que lhe abriu a sua memória para alimpar a sua alma”.

Contou então que, saindo de Moncorvo para o Porto, ali ficou doente e o seu irmão Francisco não esperou por ele e foi apresentar-se em Coimbra. Depois de curado, foi a Viseu ter com o dito irmão e este lhe dissera que já não era necessário ele ir apresentar-se.

Claro que os inquisidores não acreditaram nele e o mantiveram preso, que “o tempo amadura a fruta”. Efetivamente, não demorou que João voltasse a pedir audiência, a qual começou com esta declaração:

— Quando o prenderam, achara que não podia ser preso senão por via de seus inimigos, e essa logo foi a causa de seu pecado não caminhar direito, que a causa por onde foi feita a sua prisão acha que não foi mais do que o divino Espírito Santo bater nos corações dos senhores inquisidores o mandassem prender e foi para bem da sua alma.

Fantástico: a sua prisão foi um verdadeiro milagre, uma benesse que os inquisidores, guiados pelo Espírito Santo, lhe ofereceram!

A partir de então, começou a confessar que sempre fora judeu, “que segunda-feira fez 8 dias, estando no cárcere, fez um jejum judaico e a razão de o fazer foi por se ver muito atribulado e carregado com as culpas, em tal forma que em uma noite das antecedentes chegou a botar um lenço ao pescoço para se afogar, do que quis Deus nosso senhor livrá-lo”.

Contou que chegara a jejuar 40 dias seguidos, à imitação de Moisés, tomando apenas pão e água, à noite. Descreveu quantidade de celebrações judaicas e denunciou familiares, amigos e outros correligionários. Explicou ritualidades e cerimónias da lei Mosaica e ditou para o processo muitas orações, mostrando um grande conhecimento das escrituras sagradas. E aquelas orações e este conhecimento, tornarão indispensável a leitura do seu processo, num estudo aprofundado da vivência dos marranos de Trás-os-Montes.

 

Notas:

1 - O rei e a corte vestiram-se de luto durante 3 dias e decretaram missas, procissões e preces públicas de desagravo, em todo o país.

2 - Casos semelhantes terão acontecido em outras localidades, nomeadamente na cidade da Guarda onde, em consequência, foi processado e afastado do cargo o comissário Clemente da Fonseca Pinto. ANDRADE e GUIMARÃES – Na Rota dos Judeus Celorico da Beira, p. 50, ed. câmara municipal de Celorico da Beira, 2015.

3 - Inq. Coimbra, pº 6655, de João Lopes da Mesquita: — Considerando seus erros e que estava preso pelo caso de Odivelas, injustamente, e considerando que Nosso Senhor Jesus Cristo o queria castigar, arrependido das ditas culpas, mandou chamar o dito comissário e diante dele fez sua apresentação, deixando os ditos erros e de os haver cometido está muito arrependido.

4 - Idem, pº 734, de António Rodrigues da Mesquita, apresentou-se na inquisição de Coimbra em Julho de 1671, quando os irmãos estavam presos em Moncorvo. Foi mandado regressar a casa e, logo depois, internar-se-ia por Castela, onde andou cerca de 20 anos. Regressado a Viseu, foi chamado ao tribunal onde abjurou, em 31.8.1693. Preso em 2.3.1694, saiu condenado em cárcere e hábito perpétuo e 4 anos de degredo para Angola. Faleceu em 12.10.1704, no cárcere da inquisição de Coimbra, onde estava novamente preso. A sentença foi lida no auto da fé de 25.7.1706, mandando-se desenterrar os seus ossos e queimá-los, juntamente com o seu retrato.

5 - Manuel Lopes era filho de Matias Lopes e Isabel Manuel, aquele de Sambade e esta de Fozcôa. Casaram em Madrid e viveram em Sambade na década de 1620. Voltaram a Castela onde, por 1651, foram presos pela inquisição de Toledo. Reconciliados, foram-se para Labastide Clairence, onde Matias faleceu. Por 1660, a viúva, residia em Bidache. – SCHEIBER, Marcus – Marranen in Madrid 1600 – 1670, pp. 115-116, Verlag Stuttgart.

6 - Matias Pereira casou com Filipa Gomes, também originária de Vila Flor. Residiram em Viseu onde foi tendeiro. Em 1671 residiam em Málaga, Castela.

7 - Inq. Coimbra, pº 5326, de Filipa Rodrigues, filha de Jorge Fernandes e Ana Mendes.

8 - Idem, pº 7322.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães