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Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Isabel Henriques (Miranda do Douro, c. 1602) 

Ao tempo em que o Prior do Crato e o rei Filipe II disputavam o trono de Portugal, João Lopes Freire tomou o partido do rei castelhano. Devia ser homem de influência entre a população de Miranda do Douro, já que, em reconhecimento dos seus serviços foi elevado à categoria de “escudeiro fidalgo” e contemplado com a tença de 20 mil réis. Foro e tença passaram, para o seu filho, Pedro Nunes Freire, a requerimento deste, feito em 1602.(1)

Pedro Nunes foi meirinho da correição de Miranda, o mais alto posto, do ponto de vista policial, responsável pela manutenção da ordem e execução das leis, na área da comarca de Miranda, que abrangia quase toda a Terra Fria Trasmontana.

Pois foi com este Pedro Nunes que Isabel Henriques casou e deles nasceram 5 ou 6 filhos, o mais velho dos quais teria menos de 12 anos quando ele faleceu e Isabel ficou viúva, a morar na Rua da Costanilha, em uma casa que confrontava com as de Francisco Henriques e com a de Maria Lopes, a Cardosa.

Sobre a situação da casa de Isabel temos vários testemunhos que nos dão curiosas informações de natureza social e espírito bisbilhoteiro que levava à devassa da vida privada dos cristãos-novos. Um desses testemunhos, foi prestado por João Fernandes Borralho, um alentejano de Serpa que em Miranda se fixou:

— Disse que um dia pela manhã, ao nascer do sol, olhou por uma fresta que tem a casa em que vivia, e em um quintal de Isabel Henriques, viu a mesma em uma janela que fica sobre o mesmo quintal, e que ela tinha, em uma das mãos, uma erva que estava em um cesto na mesma janela e ela, olhando para o céu, para a parte do nascente, e bulindo os beiços, como que rezava; e tornava a olhar para a erva e colhia dela uma folhinha e tornava a olhar para o céu, como antes, e se recolheu. E ele reparou nisto, por ser cristã-nova e o disse a Maria Ramos, sua ama e a Marta Nunes, sua vizinha, mulher de João Martins. E depois ele olhou por mais 3 ou 4 manhãs e sempre via que Isabel Henriques se levantando da cama, ao parecer dele testemunha, fazia as mesmas cerimónias ao nascer do sol (…) e as cerimónias duravam meio quarto de hora e de onde ele e as sobreditas pessoas observavam, a dita Isabel Henriques não podia vê-los.(2)

Claro que o testemunho foi confirmado pelos outros, acrescentando João Martins que a pequena fresta por onde espreitavam era na parede da loja do Borralho “e a janela onde Isabel Henriques se põe, se não descobre de outra parte da cidade senão da fresta, porque ficam casas em redor sem janela para aquela parte”. João Martins terminou com a declaração seguinte e bem significativa do ambiente de espionagem que na cidade se vivia:

— Os parentes de Isabel Henriques todos fugiram para Castela e a cidade tem olho em Isabel Henriques e diziam que só faltava ela ser presa.

Esta denúncia foi feita em Miranda do Douro, ao início de setembro de 1646, em um sumário conduzido pelo notário da inquisição Francisco de Chaves. No entanto, o objetivo do mesmo sumário era provar que Isabel ia a fugir para Castela, com medo de ser presa pela inquisição. Vamos contar.

Tendo a inquisição prendido Francisco Henriques, a mulher e a filha Ângela, ficaram em Miranda, “ao Deus dará” as duas filhas mais novas. E então, Isabel Henriques e Maria Lopes, a Cardosa, suas vizinhas, tomaram conta das meninas. Tempos depois, as quatro, dirigiram-se à Quinta de Vale da Águia, meia légua distante da cidade, caminho de Castela. E alguém que as viu ir, espalhou a notícia dizendo que iam a fugir da inquisição. E logo foram no encalço das “fugitivas”, com soldados que as detiveram e levaram para a cadeia de Miranda, dando notícia ao corregedor da comarca.

Isabel e Cardosa eram acusadas de “encaminhar” as meninas para Castela, ao encontro da irmã mais velha que vivia em Alcañices, casada com Tomás Henriques. Defenderam-se elas dizendo que apenas iam em romagem à igreja da Senhora da Encarnação, mais conhecida naquele tempo, por Nossa Senhora dos Bertolos.

Ao fim de 3 dias foram libertadas mas, 3 anos depois, o assunto voltou a ser falado, no sumário de Francisco Chaves. Porém, o ponto mais interessante deste sumário e desta investigação foi assim colocado pelos inquisidores de Coimbra:

— Nós, inquisidores, fazemos saber ao licenciado Francisco Chaves, notário do santo ofício da cidade de Miranda que nesta Mesa há informação que os cristãos-novos dessa cidade, na ocasião em que se prende alguma pessoa pelo santo ofício, mandam à pessoa presa um novelo com agulhas espetadas e entende que o fazem para que as pessoas presas não confessem.(3)

Efetivamente, ficou provado que era usual mandar aos presos um novelo de linhas com agulhas espetadas, não para coserem os vestidos mas em forma de aviso para coserem a boca e não denunciar os que remetiam o novelo. Também esta foi uma acusação feita a Isabel Henriques pela mulher do carcereiro de Miranda, que testemunhou:

— Haverá um mês que, estando presa no aljube uma mulher por nome Maria Lopes Cardosa (…) foi ao aljube uma mulher por nome Catarina, que anda em casa de Isabel Henriques, que da parte da mesma, deu à dita presa um papel em que iam dentro linhas com agulhas, dizendo-lhe que dizia sua senhora que tomasse aquilo e se encomendasse a Deus e fizesse como mulher, o qual recado deu estando ela presente; e a presa respondeu que Deus lhe pagasse o que lhe havia feito e que vivesse muitos anos e começou a chorar. E disse que Isabel Henriques estava muito triste a temerosa de ser presa também.(4)

Outra culpa lançada sobre Isabel Henriques respeitava a um acontecimento ocorrido 20 anos atrás, em 1628, quando morreu seu irmão, Manuel Henriques e o amortalharam à maneira judaica e praticaram outras ritualidades nas quais participou também Isabel Henriques. E neste aspeto, também o seu processo ganha importância para o estudo das ritualidades funerárias entre os marranos de Miranda do Douro.

Isabel Henriques foi presa em 3 de outubro de 1646. Por 4 anos sofreu nas celas da inquisição de Coimbra, saindo levemente penitenciada em cárcere a arbítrio dos inquisidores, no auto-da-fé de 9.7.1650.(5)

No mesmo ano, condenada pelo mesmo tribunal em 5 anos de desterro para Angola, saiu Joana Henriques, filha de Isabel, casada com Gregório Mendes.

Notas:

1 - ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológico Históricas… tomo VIII:61.

2 - Inq. Coimbra, pº 10350, de Isabel Henriques, fl. 53.

3 - Idem, fl. 33.

4 - Idem, fl. 39.

5 - Idem, pº 8222, de Joana Henriques.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães