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No declinar das ideologias

É aceite por muitos teóricos contemporâneos que a política é pendular, o que significa que as ideologias se sucedem em experiências de eterno retorno, como quem regressa a modelos já anteriormente ensaiados, mas que de novo possam responder aos ideais, ou aos interesses, depois da exaustão e do fracasso dos modelos vigentes.
Contudo, nos nossos dias assistimos ao declinar das ideologias em detrimentos dos clubismos, ou de interesses mais recônditos. Há muito tempo que não assisto, no nosso meio político, a uma ação esclarecedora que reflita, por exemplo, se o pensamento ideológico de Kant, ou de Hegel, entre outros, ainda pode ser uma mais-valia para a consistência do ideário político e dos modelos epistemológicos. Os nossos líderes políticos, então mais interessados em publicitar a vinda dos ministros, ou secretários de estado, para arregimentar multidões, do que no debate das ideias, ou estratégias.
Perante o fracasso de tantas ideologias, assistimos ao capitular da política com consistência, apoiada em ideias e em ideais. Até os velhos comunitarismos se diluem pela força duma cultura de massas que os aproveita, para artificialmente, atrair turistas que se deleitam com os relatos dos habitantes que agem pelo efeito de espelho, reproduzindo o que alguns estudiosos disseram quando teorizavam os comunitarismos. Perante este fracasso ideológico, cada vez mais a estrutura pendular nos leva a refletir na virtualidade dos comunitarismos, onde o individualismo é ultrapassado pela comunidade com os seus valores e sentimentos, onde o eu se dilui na grandiosidade do nós, sem contudo perdermos a liberdade individual. Nesta perspetiva, novamente ganharia sentido uma europa da cultura, dos homens que são capazes de dar consistência ao grande milagre do saber fazer, de dar forma e significado às coisas, em detrimento da europa das mercadorias e da desumanização.
Vivemos apressadamente, não temos tempo para ler, para debater, para a reflexão filosófica. Quase parece que as ideologias chegaram ao seu término. Morre a política, renasce o clubismo de interesses individuais, onde o homem social perde a sua essência e surge uma aberração que é o homem solitário, isolado, sem a dinâmica e os valores do grupo.
E assim, com alguma frequência, no espaço social onde vivemos, somos levados a fazer análises empíricas desta política em crise de ideologias, onde a democracia pode perigar, nesta ingenuidade romântica de apologia aos valores democráticos, faltando-lhe, contudo, a consistência das ideias. Se não vejamos, quanta gente que milita em determinada estrutura partidária será capaz de falar da ideologia que está inerente a esse mesmo partido, ou mais fácil ainda, das diferenças elementares existentes entre o seu partido e o partido do vizinho?
Esta reflexão leva-nos por caminhos ínvios onde muitas vezes a força do caciquismo, de interesses obscuros se sobrepõem à limpidez dos ideais democráticos e humanitários. Também se constata como determinado partido político vence as eleições, numa região, em virtude duma relação de forças intrínsecas à socialização das suas gentes e à conjugação de valores subjetivos, independentemente da defesa que esse partido faça dos interesses das populações. E aqui de novo renasce o clubismo em que um partido político ganha as eleições porque há uma aposta forte nesse partido, independentemente da sua ideologia, ou serviço que presta à comunidade, mas porque sempre foi o nosso partido e os nosso vizinhos, maldosamente, não se hão de rir da derrota das nossas opções partidárias, tal e qual como acontece no futebol.
Não queremos acreditar que chegou ao fim o templo emblemático das ideologias. O tempo do José Fontana, do Sá Carneiro, do Mário Soares, do Freitas do Amaral, ou do Álvaro Cunhal. A política terá que continuar pois a “polis” ainda serve de abrigo à humanidade. E para nosso consolo, resta-nos este fascínio pendular e a esperança que depois da crise, havemos de regressar, finalmente, ao convívio ameno do homem ético e solidário.

Fernando Calado