Meu Brasil, brasileiro…

Se consultarmos os mapas da emigração portuguesa de 1850-1950 ficamos a saber quão intensa, dorida e retalhada em rios de lágrimas foi o corrupio de transmontanos para o Brasil. Nasci na casa de um avô ausente no Rio de Janeiro, cresci a ouvir falar desse homem militante do Partido Democrático, lavrador de courelas, professor no âmbito do movimento republicano das Escolas Móveis, caçador de coelhos e lebres, fumador inveterado, fazedor de filhos, cinco em cinco anos, emigrante empenhado e disposto a pagar a dívida e juros usurários. Pagou, forrou gastando as solas dos pés, regressou em 1958, um malão de roupa, anel de ouro no mindinho, óculos, relógio de bolso, botões de punho e botão destinado a fechar o colarinho da camisa, tudo em ouro, poupanças que no seu entender escorariam velhice sem temores e tremores. Lá estava a acolhe-lo na noite da chegada, a aldeia em peso visitou-o, o brasileiro Francisco Buíça estava de volta.

Descansou uns dias, visitou velhos amigos, recebeu piadas vindas da boca do seu camarada de armas durante a I Guerra Mundial, o Padre Aurélio no decorrer da missa dominical dado os brasileiros de torna viagem serem dados ao espiritismo e outras ideias abstrusas.

O ritmo galopante da inflação levou à desvalorização do cruzeiro, quem possuía 100 cruzeiros passou a ter um cruzado, o sonho de um fim de vida confortável esvaiu-se, sobraram as recordações e uma resignação a pedir meças ao bíblico Job, os últimos suavizava-os a ler tudo quanto lhe levava, ficava agradado ao receber as revistas Cruzeiro e Manchete,

Porque muito o admirava dada a sua a sua curiosidade cultural, a sua argúcia a jogar a sueca, a sua escrita desprovida de erros ortográficos em impecável cursivinho, a sua permanente ironia relativamente a Salazar, no seu entender refinado manholas, à diligência no sentido de lembrar as virtudes da honradez e rompante frontalidade, senti profundamente a sua morte ocorrida em Junho de 1973. Na altura da urna descer até repousar no coval devia ter rasgado o véu de silêncio proferindo palavras alusivas ao Homem a quem tanto devo. Remordo os lábios sempre que a omissão aparece.

O drama da emigração em busca da árvore das patacas brasileiras povoou o ambiente das comunidades rurais do tão propalado reino maravilhoso, reino pedregoso, a escalavrar famílias nessa já longínqua era – monárquica, republicana, salazarista –, a ideia do eldorado não se restringe à literatura.

Sim, recordo Os Brilhantes do Brasileiro de Camilo, vai para além dos livros de Carlos Malheiro Dias, Ferreira de Castro, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Mina de Diamantes e Quando os Lobos Uivam, a pungente poesia de Guerra Junqueiro referindo os forçados a abandonar os seus casinhotos, entre muitos outros de menor envergadura, só que a pulsa salvífica do enorme, estranho, quente, gerador de leite e mel povoava os sonhos dos nossos avós mortificados por cilícios de toda a casta de provações, desfavores e miopia analfabeta e interesseira do poder, dos diversos poderes. Sendo assim e foi o lodo e o pó dos caminhos serviu de argamassa ao desejo da evasão colorido periodicamente quando Fulano e Cicrano recebiam a «carta de chamada» de familiares ou amigos bem instalados porque conseguiam bons réditos na exploração do varejo, botecos, padarias e confeitarias como as do meu avô sitas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, as dele transformadas em churrasqueira como tive ensejo de contemplar nas idas à mítica cidade.

Agora? Agora Bolsonaro ganhou, não adianta chorar sobre o leite derramado, em muitos aspectos o Brasil ainda é uma África tropical envernizada já o disse e novamente escrevo, alegria e verve dos anos quarenta do século passado personificada na portuguesa Carmen Miranda coexistiu e continuou com os nefandos crimes de Getúlio causadores do seu suicídio e dos carrascos generais do golpe de 1964, o vinhaense da Moimenta Alípio Freiras recentemente falecido exemplifica os milhares de vítimas da repressão, ou seja: a história do Brasil tal como a nossa está povoada de contrastes, muito mais evidentes neste tempo devido à vertiginosa velocidade de imagens e palavras.

A mirífica vazão rural do Brasil desapareceu tal como desapareceram (e bem) as fontes de mergulho e o pão cozido nos fornos (mal) das nossas aldeias, viajamos facilmente até lá, compramos cá a farofa e a picanha, o Mundo mudou e Bolsonaro pode provocar tremendos entorses à democracia, porém não tem poder (de nenhuma natureza) capaz de sorver a seiva vital da sociedade brasileira, e não podemos esquecer o óbvio: essa mesma sociedade votou livre e maioritariamente em Bolsonaro. As representações lacrimejantes de bem-pensantes portugueses além de ridículas estão inchadas de hipocrisia dada sua vesguice ao ignorarem o facínora Maduro da Venezuela.

Aguarde-se o rolar do tempo, volto a reler Machado de Assis, Lins do Rego, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Padre António Vieira, a ouvir Marcelo Vianna, Sérgio Mendes, a esfusiante Dona Edith do Prato e outros discos editados pela Biscoito Fino. Biscoitos não, feijoada versão de Minas Gerais sim!

 

Armando Fernandes