A lógica do mercado

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Pelos vistos há falta de professores. Milhares de alunos têm passado anos inteiros sem algumas disciplinas do currículo. Há dias um jornal titulava: número dos que estudam para ser professor caiu setenta por cento em vinte anos. Como seria de esperar aqueles que militam no pensamento dominante dão explicações mais ou menos fantasiosas: ora a falta de vocação por parte dos mais jovens, ora as exigências de uma profissão desgastante, ora a ausência de incentivos para os que tem que se deslocar, etc. e tal. Ao contrário dos universitários que olham para o mercado de trabalho, o preconceito não lhes permite atingir as verdadeiras causas. Quem as conhece de sobra são as dezenas de milhar de almas que trabalham nas escolas. Mas essas procuram disfarçá- -las por se sentirem culpadas daquilo que não são e porque, como estão ali a ganhar a vida, não querem levantar muita poeira. Ora eu já me pirei, não estou atracado a direitas ou a esquerdas e pensar fora da caixa dá-me algum gozo. Além disso sei bem do que a casa gasta. Esbracejei nela para não ir ao fundo nada menos que quarenta e três anos, o que não é pouco, e a experiência diz-me que quem agora poderia decidir ser professor não o faz por outras razões. O doutor freud dizia que educar consiste no difícil trabalho de domar os instintos, o truque que permite a vida social. Dá-se o caso de andarmos há muito a fazer o contrário, isto é, a soltar o selvagem que está latente em cada ser humano. As causas são várias e complexas. Lembro- -me de que já os morangos com açúcar recriavam aulas que tiravam seriedade a uma coisa que de si tinha pouca, transformando-as em anedotas e aceitando com leveza a má conduta da ganapada. E de dois programas que parodiavam situações idênticas: os batanetes, da sic, e a turma dos chanfrados, da globo. Os sketches de uns e outros até podem ter alguma piada para quem ignore que se trata de um retrato fiel do que se passa na maioria das salas reais. Os restantes, é mais certo que arrepelem os cabelos. Porém a nossa desgraça é anterior. As ideologias de raiz jacobina, percebendo que o que se mete nas cabeças infantis fica para sempre e vai mais tarde dar forma à própria sociedade, para além de outros métodos subversivos investiram em força na escola do estado, razão pela qual ela hoje se recusa a responsabilizar os miúdos pelos seus atos, não sabe o que fazer com a indisciplina, a violência, a delinquência, o crime e deforma mais do que forma. Na generalidade das salas de aula é o caos. Regem-se pela mais desenfreada parvoíce, vai nelas uma festa rebaldeira onde os profes são os bombos e que todos escondem com vergonha. É justamente o que se pretende: dali passa-se para as ruas e é a doer. Ninguém sabe isso melhor do que quem passou doze anos a limpar o pó daqueles bancos. Como lhes resta alguma autoestima não querem ser enxovalhados e fazem o manguito à ideia de regressar. Com algum jeito até terão assistido a entradas alucinadas dos próprios progenitores por ali adentro maltratando quem tentava dar o seu melhor para lhes educar os cachopos, coisa que nem saberiam o que fosse. Aconteceu- -me na parte final da carreira assistir a cenas do estilo, e um belo dia, dando conta de ter andado a cantar a grândola vila morena cheio de fé a pensar no bem de gente como aquela, tive vontade de dar com a cabeça nas paredes. E depois ai jesus que os jovens não escolhem o ensino… Pois não… Às tantas, como os seus papás, desprezam e abusam de tudo o que é de borla. Quando lá andaram talvez se tenham apercebido da vida facilitada em termos de exigência e avaliação dos colegas de carteira com necessidades educativas especiais e fingido ser tontos para terem as mesmas regalias. E não é que tinham?!... Quem sabe se agora o pudor e a dignidade que lhes restam não os afastarão daquilo tudo… Eu não tenho dúvidas. Ter gramado a comédia da escola comuno-socialista autoriza- -me a declarar sem aspas que nunca nos dias da vida a aconselharia a alguém de quem gostasse. Indicava-a sim a indivíduos que busquem desportos radicais, masoquistas que não prezem a saúde da mente ou alguém a quem deseje má vida. Fora isso, a falta de docentes não tem que ser negativa. Vai piorar, mas há males que vem por bem e espero sinceramente que um dia se lhes aplique a lei mercantil da oferta e da procura, segundo a qual a abundância de um produto o deprecia e a escassez o valoriza.

Eduardo Pires