A LIBERDADE À JANELA

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Escrevo este texto sábado, dia 9 de março de 2024, vésperas de eleições legislativas e, portanto, ignorando qual será o resultado do escrutínio. Não tenho nenhuma bola de cristal nem a capacidade de análise e previsão dos variados e eloquentes comentadores políticos da nossa praça e, como tal, não faço ideia do quadro político que vai preencher a próxima legislatura. Sei, porém, que, parafraseando La Palisse, teremos, em 11 de março, o cenário determinado pela expressão livre de todos os elei- tores que, na véspera, decidiram dirigir-se às assembleias de voto. Os entendidos adivinham um período conturbado, de instabilidade política e governativa, fruto de uma votação mais focada no passado e no voto de protesto do que numa vontade de ter uma governação tranquila e virada para o futuro. Será o que os portugueses, no seu todo, quiserem que seja porque, contrariamente ao que acontecia há meio século atrás, todos os votos são bons, sejam quais forem as consequências. É essa a maior conquista da Liberdade que, precisamente, há cinquenta anos, espreitava já à janela. Em meados de março de 1974 chegavam a Bragança, ecos de uma revolta que, a partir das Caldas, vinha dar ânimo aos que, no Liceu, no Mensageiro e no Chave D’Ouro ansiavam e, a seu jeito, davam o seu contributo para que, um mês mais tarde, a Praça da Sé se enchesse de gente, sobretudo jovens, empunhando bandeiras e cartazes rudimentares, dessem as boas vindas à Liberdade e Democracia, em todo o seu esplendor e brilho. Apesar de falhado, o Levantamento das Caldas, sobretudo por ter nascido num dos pilares em que a ditadura se sustentava, comentado à boca pequena mas, profusa e entusiasticamente, sinalizou que a abertura por onde espreitávamos para vislumbrar o mundo novo por que ansiávamos, melhor, mais equitativo, solidário e, sobretudo, pacífico era mais do que uma janela… era, afi- nal, o postigo da porta que estava já a ser des- trancada. Valia a pena continuar a insistir nas metáforas políticas do Mensageiro, procurar livros “de culinária” na Mário Péricles, pintar de tinta vermelha as escadas do Liceu, conspirar no Chave D’Ouro para fazer eleger a última Academia, de forma tão democrática quanto possível, mesmo que a Censura continuasse a truncar os textos e a cercear as ideias, os livros dos autores proibidos escasseassem, as mensagens espichadas no granito da entrada liceal e nos vidros da porta de entrada, não vissem a luz do dia tendo sido diligentemente apagadas durante a noite… afinal, contra tudo e contra todos, superando todos os obstáculos e pressões do poder estabelecido a última Academia do Liceu, absolutamente representativa e totalmente paritária foi eleita legitimamente por todos os alunos. De outra janela se fala agora: a que medeia entre setembro de 2024 e setembro de 2025 onde o Presidente da República pode dissolver a Assembleia da República. Que ela não seja usada para esconder a Liberdade. Que ninguém ouse fechar as janelas que abril abriu!

José Mário Leite