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Inquisição – lutas políticas – pureza de sangue (3) - Vila Flor: Manuel de Alvarenga Cabral

A família Alvarenga teria algum destaque entre os “finos cristãos-novos” da comunidade hebreia de Lamego. E a preocupação com a lavagem do sangue judeu parece evidente, ao menos em um ramo dela que, por 1550, se abalou para a novel cidade de Miranda do Douro.

Deste ramo era o casal constituído por Francisco Rodrigues, sombreireiro de profissão e Filipa Alvarenga. Eles foram os pais de Leonor Alvarenga, a qual casou, cerca de 1570, com Belchior Fernandes, também sombreireiro, natural de S. Gens, termo de Resende.

Antes de prosseguirmos, uma nota sobre a capacidade de atração populacional que Miranda do Douro exercia naquela época. Outra nota sobre a profissão de sombreireiro que então era bastante prestigiada, aproveitando para dizer que Belchior Fernandes aprendeu a arte com o mestre Manuel Gonçalves, de Vila Real, também ele emigrado em Miranda do Douro.

Filipa e Leonor, sua filha, não eram os únicos membros da família Alvarenga que trocaram Lamego por aquela cidade, a primeira a ser criada em Trás-os-Montes.(1) Com efeito, no cabido da sé, contava-se um cónego chamado Manuel Alvarenga, também natural de Lamego, que Leonor tratava por primo. E esta será mais uma prova do interesse desta família de “finos cristãos-novos” em esconder as suas raízes judaicas e integrar-se na sociedade portuguesa cristã. Aliás, uma irmã do cónego Alvarenga, fizera-se freira no mosteiro de Santa Clara, em Vila do Conde, com o nome de Isabel da Visitação. Um e outro acabaram por ser processados pela inquisição, acusados de judaísmo. Tal como o foram seus irmãos, Maria e Cristóvão Alvarenga, moradores em Lamego.(2)

Mas voltemos atrás, ao encontro de Maria Resende, uma das filhas de Belchior Fernandes e Leonor Alvarenga. Casou com Amaro Correia, natural de Torre de Moncorvo, “filho adulterino do Paulo Couraça”,(3) de uma das famílias mais nobres da terra e de uma cristã-nova. Amaro era criador de sirgo e fabricante de seda, passando depois à classe dos rendeiros. Era homem de muito bom conceito no seio da sociedade Mirandesa, a ponto de requerer a sua nomeação para o cargo de familiar da inquisição. Não o conseguiu por causa do sangue infecto de sua mãe e pelo que recebeu no casamento com Maria de Resende.(4) Registe-se, no entanto, esta tentativa de limpeza de sangue.

Manuel Alvarenga se chamou o filho de Belchior e Leonor, nascido em Miranda do Douro, por 1595. Desde cedo o destinaria seu pai para o sacerdócio, a crer no testemunho de Rodrigo Neto, que foi aprendiz de sombreireiro em casa de Belchior Fernandes, em Miranda do Douro. Com efeito, chamado a depor na diligência de habilitação de Amaro Correia, em julho de 1623, disse:

— Antes que morresse alguns anos, Belchior Fernandes falou a ele testemunha para que testemunhasse na abonação de um seu filho, Manuel Alvarenga para que se fosse ordenar, e ele testemunha não quis e lhe disse que lhe não podia dar bom testemunho, e que ele se ordenou e se meteu a frade em S. Domingos, de Zamora, e ouviu dizer que ao cabo de alguns meses o correram fora por a informação não ser boa e que o dito Manuel Alvarenga está hoje casado e é boticário em Vila Flor.(5)

Como se vê, Manuel Alvarenga conseguiu ordenar-se e meter-se a frade num convento de Zamora, sendo expulso quando se descobriu que era cristão-novo e prestara falsas declarações, com testemunhas possivelmente compradas. Expulso do convento, aprendeu a boticário e foi-se estabelecer em Vila Flor, casando com Maria Coelho de Meireles, natural de Torre de Moncorvo, de uma família da nobreza local e cristã-velha. E a partir de então acrescentou o nome, passando a assinar Manuel Alvarenga Cabral. Na verdade nada o ligava à família Cabral, devendo registar-se mais esta tentativa de limpeza de sangue.

Registe-se também o facto de Maria Coelho Meireles ser aparentada com Lopo Machado Pereira, homem nobre e cristão-velho. Tudo isso ajudaria a que Manuel Alvarenga se tornasse um homem de grande respeito na sociedade vila-florense e aceite na classe da nobreza e governança da terra, exercendo o ofício de escrivão do juiz, para além da atividade de boticário.

A casa de Manuel Alvarenga situava-se no “arrabalde” de Vila Flor, “defronte da Misericórdia” e a vizinhança era constituída sobretudo por famílias da nação hebreia, que olhariam para ele com alguma desconfiança. E, em breve, a desconfiança faria nascer inimizades. Nomeadamente com Beatriz Pereira, viúva de Simão Pereira e com Branca, sua filha. Discutiram mesmo e “pelejaram” em público, por causa de “um vestido” que elas lhe emprestaram. E parece que já antes o Alvarenga e o pai de Beatriz se envolveram em questões por causa de uma vinha.

Estas inimizades avolumaram-se quando o vigário-geral da comarca, Dr. Manuel Homem Chamorro, por 1636, fez visitação em Vila Flor e Manuel Alvarenga se apresentou a testemunhar dizendo que Beatriz Pereira, andava amancebada com um clérigo. O processo seguiu para a cúria arcebispal, em Braga e Beatriz conseguiu provar a sua inocência.

Daquelas inimizades com a gente da nação de Vila Flor se faria eco Rodrigo Fernandes Portello, cunhado de Julião Henriques, nos seguintes termos:

— Manuel Alvarenga, boticário de Vila Flor, está casado com uma parenta de Lopo Machado e tem grande ódio a todas as pessoas da nação da dita vila porque lhe não compram as suas mezinhas e mandam a Mirandela, a três léguas, a buscá-las, a casa de outro boticário.(6)

Na verdade Lopo Machado Pereira e Manuel Alvarenga Cabral constituíam a dupla de inimigos públicos mais evidentes da comunidade cristã-nova de Vila Flor e muito em particular da família de Julião Henriques. Esta dupla de denunciantes arrastaria muita gente da nação de Vila Flor para as cadeias do santo ofício. A título de exemplo, veja-se a denúncia feita por Manuel Alvarenga, perante o comissário Castelino de Freitas em 25.4.1642:

— Disse que defronte dele, mora Maria Henriques, cristã-nova, mulher de Diogo Henriques Julião, a qual esteve escondida 2 ou 3 meses antes do auto da fé último que se celebrou em Coimbra, temendo-se que dessem nela as Eminentas, que lá estavam presas; e não apareceu até que veio um neto do Eminente e lhe deu aviso e logo apareceu; em casa da qual Maria Henriques vê ele testemunha ajuntar de 5 anos a esta parte, por muitas vezes, principalmente à sexta-feira à noite, como tem reparado, Mécia Coutinho, cristã-nova, viúva do Gigante e sua irmã Leonor Coutinho cujo marido não sabe o nome e Beatriz Pereira e sua filha Branca Pereira mulher de António Mendes e Branca Rodrigues mulher de Julião Henriques e Ângela Henriques filha da Castelhana, que veio do Mogadouro, todas cristãs-novas, as quais depois dele testemunha se recolher vê que ficam na dita casa, a qual vê mais alumiada que nos outros dias da semana e ao sábado vê ele testemunha algumas das sobreditas na dita casa…(7)

Esta e outras denúncias então recolhidas pelo comissário da inquisição deixam adivinhar mais vagas de prisões em Vila Flor, uma terra em que andavam divididas “em duas fações todas as pessoas desta vila: de uma parte os da nação e da outra, os homens nobres, buscando os da nação ocasiões para se defrontarem” – conforme declaração proferida por Pedro de Morais do Sil, que acrescentou:

— Também sabe que os da nação andavam em dúvidas com os homens nobres sobre as varas do pálio e governo da república.(8)

E presos como judaizantes acabarão também por ser muitos dos nobres, ditos cristãos-velhos, falsamente denunciados por cristãos-novos. Entre eles os filhos de Manuel Alvarenga: Belchior Coelho Meireles; Sebastião Coelho Meireles e Ângela Coelho.

 

Notas:

1 - A diocese de Miranda do Douro foi criada em 23.3.1545, o que implicou a elevação da terra à categoria de cidade. Curioso que o primeiro e o terceiro bispos da diocese eram naturais de Castela, filhos de D. Maria de Velasco que veio para Portugal como camareira-mor da rainha D. Catarina de Áustria, esposa de D. João III. Aqueles bispos foram muito complacentes com os cristãos-novos.

2 - Inq. Coimbra, pº 1223, de Manuel Alvarenga. Saiu condenado em “cárcere e hábito perpétuo, sem remissão, degredo para as galés, por 5 anos, onde serviria ao remo, sem soldo, suspenso das suas ordens para sempre”; pº 3307, de Isabel da Visitação; pº 4850, de Maria Alvarenga: pº5315, de Cristóvão Alvarenga, escrivão e chanceler da correição da comarca de Lamego.

3 - Um Paulo Couraça foi procurador do concelho de Torre de Moncorvo às Cortes de 1535. O Paulo Couraça, pai de Amaro Correia, era irmão de João Couraça, casado em Mogadouro com Úrsula Escobar.

4 - PT/TT/TSO-CG/A/008-002/84, diligência de habilitação de Amaro Correia.

5 - Idem.

6 - Inq. Coimbra, pº 6861.

7 - Inq. Lisboa, pº 194, de Beatriz Pereira.

8 - Inq. Coimbra, pº 2804, de Pedro de Morais do Sil.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães