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Fui a Lagarelhos

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O cançonetista Rui Mascarenhas cantarolava «fui a Miranda ver os pauliteiros», eu fui a Lagarelhos ver aquilo que já posso ver desde as moças seios empinados e pernas torneadas debaixo de meias de lã grossa fiada nas longas noites semeadas de virulentas geadas, nevadas espessas onde saltitavam coelhos, zurvadas fortes a ensoparem sacas de adubos transformadas em capuchas, trovoadas enlouquecidas por raios e relâmpagos, vacas a escorregarem (esbaragarem) no gelo, garotos (meninos) de pés nus a sulcarem os lamaçais, ouvi o que não posso ouvir desde os palavrões fulvos de homens e mulheres a rugirem contra a inclemência invernal, os ventos a fanfar no interior das casas obrigando o borralho a destapar folhas de couve capas de chouriços agres e doces, a esmiuçar brasas assadoras de chouriças e alheiras, sem esquecer a lacrimejante  sonoridade da rabeca do Izé qual rabequista cego do quadro a óleo de José Rodrigues.

Durante vários minutos permaneci na casa herdada, os demónios tentadores fizeram aparecer imagens luxuriosas da alta adolescência, afugentei os tentadores fazendo figas aprendidas em tamanino, preferi pensar na procissão dos defuntos e ainda não sabia do finamento do meu estimado companheiro de folguedos no tempo de felicidade na aldeia onde cozinhar cuscos utilizando farinha do beijinho demorava um dia, o Arménio, cuja mãe a Nair, ajudava a minha avó a os transformar em bolas prenhas após secarem em mantas de trapos. Fiquei dorido ante a má notícia que a sua tia Gracinda me transmitiu.

Também fui a Vinhais, participei no capítulo da Confraria do Porco Bísaro e Fumeiro de Vinhais, assisti na Igreja de S. Francisco à passagem de testemunho do cargo de grão-mestre da Engenheira Carla Alves para o Dr. Roberto Afonso, a Engenheira estava afónica e imitava na perfeição a deputada exigente até insolência Joaquina K. Moreira. Na habitual entronização, mais duas confradas e dois confrades, assinalo uma senhora elegante protegida por um casaco comprido cintura de vespa, Secretária de Estado. 

Depois, no Parque Biológico decorreu o almoço debaixo da batuta da polivalente Dra. Alexandrina Rodrigues, ementa adequada ao acontecimento, sápidos e por isso mesmo torresmos do redenho, ou do rissol, dos rojões do folhelho, ou do balho. Cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso, chamiço ou chamadouro, os dicionaristas da estirpe de Bluteau, Inocêncio, Fonseca, Roquete, Cândido muito amigo de ouvir Trindade Coelho, outros os secundam, relembro Vasco Botelho do Amaral e Sá Nogueira.

Fui ao alfa e ómega da Feira/Festival, uma multidão a ver, a cheirar, a apalpar, vários (muito a comprar), o meu amigo Betinho Sá Morais atarefado sem perder o habitual humor a ser saboreado lentamente. Dei um abraço ao Teófilo Fernandes, ele ofertou-me uma raridade gastronómica, a Cândida perpetua uma prática de séculos, se fosse atrevido e inimigo de citar as fontes documentais diria ser a usança milenar. Obrigado.

Amenizada a saudade (é um luto vestida de roxo) zarpei para as terras ribatejanas. Para o ano há mais!

Armando Fernandes