Fernando Faria, Tozé

Esvaía-se a tarde de domingo quando a estridência avisadora chamou. A voz compungida da Xana Fernandes informava-me que o meu excelente, jovial e generoso Amigo que sempre foi, o Fernando Tozé tinha sido sepultado pouco antes. Porque encontrava nas proximidades, passou o telemóvel à Mãe dos seus filhos, a Maria de Lurdes, Milú para os familiares e amigos.

Eu sabia da existência da terrível maleita a corroer o seu corpo, o Alberto Fernandes e o Ezequiel Sequeira informaram-me, a ambos prometi telefonar a este Príncipe hedonista, sempre bem-disposto, incapaz de invejas, estuante de vida recheada de alacridade e movimento ao modo dos seus antecessores da Renascença.

Se cada “homem tem de estudar o seu modo pessoal de encarar as coisas, para reconhecer sem dúvida uma visão própria do mundo e do universo”, o Fernando desde cedo estabeleceu as premissas dessa visão mantendo-se-lhe fiel sem quebras, sem remorsos ou remordimentos.  

Vejo-o tamanino, impecavelmente vestido de branco, de panamá na mão, no palco do Cine-Teatro Camões, a entoar parte de uma canção da famosa vedeta brasileira Carmen nascida em Marco de Canavezes e falecida em Holllywood.

Recordo-o a brincar no passeio fronteiro ao estabelecimento paterno debaixo do olhar risonho a chispar ternura do seu adorado tio Queiroz, tio esse que anos mais tarde, na Póvoa do Varzim, no decorrer das férias de Verão nos apagava as despesas no bar do Casino e facilitava a entrada na boíte ante a complacência do porteiro porque o sobrinho ainda não detinha idade legal para penetrar no espaço mal iluminado onde se dançava ao som de músicas dolentes da orquestra de Xavier Cugat, os violinos de Mantovani e o saxofone de Fausto Papetti.

Revejo-o engolfado num sobretudo de couro ornado por abas compridas e peludas durante as férias de Natal, na Pousada de S. Bartolomeu, estava a estudar na Inglaterra, discorremos durante horas acerca do futuro e não esqueço as palavras a incentivarem-me a prosseguir os estudos.

Lembro-o quando surgiu em frente à minha casa em Santarém, conduzia um Datsun triplo S, ostentando na frente dois faróis de camião. Fizemos uma festa, enquanto permaneceu na Escola Prática de Cavalaria até ser promovido a alferes e mobilizado. Durante semanas cirandarmos na periferia da cidade, bebíamos água-pé, esfusiante vinho capitoso, comíamos fêveras, as famosas caralhotas, tripas enroladas de carneiro e tudo quanto entendemos ser apetitoso.

A benquista Pousada de S. Bartolomeu, foi espaço qual partilhámos conversas bojudas de alacridade, de humor ferino, de non-sense, com a estimada Margarida Cepeda, o José Bouça, às vezes um incauto fariseu ou descuidada zelota entravam na roda à volta da mesa, não tardavam a levantar ferro ou a não repetirem a experiência pois a acutilância no zurzir os pregoeiros das falsas virtudes e vícios privados não suportavam as nossas ironias suportadas por exemplos de vária ordem.

A roda da vida levou-o a exercer funções profissionais em Moçambique e Angola, não modificou a visão acerca do mundo dual – diurno e nocturno –, várias pessoas a dirigirem projectos e investimentos nas antigas colónias sempre me assinalaram as suas virtudes, o acendrado sentido de fazer bem, o apuro nas relações naquelas nações emergentes tão susceptíveis, estabelecendo um amplo leque de relações capaz de varrer ressentimentos e reforçar e refrescar amizades a todo o tempo e em circunstâncias buliçosas.

O Fernando Tozé, sem cedências de nenhum género conseguiu ser amado e bem-amado capaz de atravessar um campo minado de hipocrisias, bajulações interesseiras e babas rançosas de mediocridade e inveja.

Acerado de entendimento detestava a dita mediocridade, a todos quantos lhe mordiam a não, e foram muitos, deixava-os entregues à sua mesquinhez porque no seu modo de ver as coisas a baixeza humana era bem real, não só elemento vital em inúmeros romances e poesias, também fonte invernal a jorrar sofrimento.

No momento de o Alberto ter-me informado da moléstia maléfica prometi telefonar-lhe já que não detenho possibilidades expeditas para fazer grandes viagens em curto espaço de tempo dizem-me os facultativos. Não lhe telefonei. Dizer-lhe o quê? Aumentar a sua dor no reavivar os bons anos passados? Tudo quanto ousámos projectar – a ida às Maurícias, a Madagáscar? Fiquei mudo, suspenso de fala.

Um homem não chora regougam os zorros na serra da estupidez, Sttau Monteiro escreveu Um Homem Não Chora, a zurzir esses zorros.

Vou voltar a chorar tristeza e saudades pelo Fernando. À Mãe dos seus filhos a expressão do meu pesar.

 

PS. Soube que a Tia Mariazinha já faleceu. O seu amor pelo Nando justifica plenamente trazê-la à colação neste triste momento.

Armando Fernandes