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Falando de... Pedro Ivo

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Que poder a toponímia tem sobre a mente de todos nós!!! Da raridade das placas toponímicas nos lugares menos populosos, privilégio para vilas e cidades, hoje, pode dizer-se que não há lugarejo que não tenha uma placa a indicar o nome de uma rua, de um lugar ou de uma praça. Eternizam figuras ilustres e acontecimentos locais ou nacionais

Orientamo-nos pelas placas para chegarmos ao que buscamos. Mas se as placas nos orientam no espaço, levam um pouco longe a nossa curiosidade. Quem é aquele ou aquela, acontecimento ou facto que se quis lembrar?

E o curioso que não se fica pelo nome, quer saber mais. E, é certo, que sempre se encontra.

Saber quem é Pedro Ivo, postado em Rua da Amadora ou do Porto, suscita em nós o desejo de saber. O homem, de seu natural, curioso, procura para encontrar e leva ao sucesso, a sua pesquisa. Nomes esquecidos, caídos na arqueologia do olvido, volvem até nós através do conhecimento do espaço. Nomes ostracizados, esquecidos, que, provavelmente, terão sido importantes no seu tempo, mereceram da parte da edilidade local, o tributo que ultrapassou o tempo e o local e se tornaram figuras importantes, a merecerem honras de cidadania, numa imortalidade peculiar que chega aos nossos dias, merecedora de um olhar, que, por vezes, espanta e provoca interesse Pedro Ivo. Quem foi? Porquê aqui? Que fez? Um naipe de perguntas que só os livros mais antigos actualizam. Foi escritor. Nasceu a 15 de Janeiro de 1842, tal como Antero de Quental. A cidade do Porto ouviu os primeiros vagidos. De Ponta Delgada acenou Antero que um dia, a 11 de Setembro de 1891, poria ponto final ao seu ciclo de vida. De seu nome, Carlos Lopes, filho de Carlos Lopes, vereador na Câmara Municipal do Porto, do pelouro dos Expostos, de 1858 a 1862, grande bibliófilo e autodidacta, homem de grande prestígio na cidade do Porto.

Repartiu a sua vida pelo Brasil e pela Alemanha. Tendo manifestado interesse em formar-se em Direito, devido à oposição do pai que se matriculasse na Universidade de Coimbra, partiu para o Brasil em 1861, tendo trabalhado na firma Rocha Lopes & Leite. Doente asmático regressa a Portugal.

Posteriormente, desloca-se para a Alemanha, onde se dedica à actividade comercial e prática da língua alemã. Em Hamburgo, cidade onde viveu, fala fluentemente alemão, o que lhe servirá para a actividade comercial que irá desenvolver no Porto, onde ocupará lugares de relevo na vida empresarial, entre os quais destacamos: guarda-livros, secretário do clube de Agramonte, presidente da Associação Comercial do Porto, Director fundador do Banco Aliança, Vogal da Comissão Reguladora dos Vinhos do Alto Douro, Director da Equidade, Presidente da Assembleia Geral da Associação Comercial de Beneficência, Conselheiro da Misericórdia, Director da Nova Companhia de Utilidade Pública, Real Companhia dos Caminhos de Ferro de África.

A par da actividade profissional, tem colaboração literária no Comércio do Porto, onde publica contos e poemas que sairão posteriormente em livros. O seu primeiro texto, um conto, será publicado em 27 de Abril de 1873, no Comércio do Porto, com o título O Milagre. Toda a produção de Pedro Ivo encontra-se, hoje, esgotada, aparecendo, raramente, em alfarrabistas. Dos seu livros publicados, citamos Os Contos, em 1874, de que destacamos A Quina de Espadas, saído autonomamente, na Pequena Antologia de Obras Primas – Mosaico, sem data, cuja acção decorre em Trás-os-Montes.

No mesmo ano sai o romance Selo de Roda, com cerca de seis edições, representado no teatro Baquet, após Os Fidalgos da Casa Mourisca, com grande sucesso, na sequência da escola do romance português iniciado por Júlio Dinis. Um título que por pouco não serviu de tema para o cinema, a merecer os maiores elogios na época, nas páginas de O Comércio do Porto de 30 de Abril de 1878, pela mão de Júlio Lourenço Pinto. Em conferência proferida em 27 de Abril de 1942, por Joaquim Costa, realizada nos Estudos Portugueses, na cidade do Porto, na época terá provocado choro convulso a leitores, bem como a mais intensa e humana emotividade.

Às páginas escritas por Pedro Ivo, não foram indiferentes as grandes figuras da época, que o classificaram na linha de Júlio Dinis e de Rodrigo Paganini, célebre pelos Contos do Tio Joaquim.

Quando, em 1874, foram publicados Os Contos, Camilo Castelo Branco, saudou-o calorosamente, escrevendo:

Formoso livro! Dir-se-ia que Júlio Dinis, viajor eterno das regiões luminosas, deixou na inteligência e no coração dos que mais perto o conheceram e amaram, as serenas imagens das suas visões, as maviosas figuras dos seus quadros, a sua indulgência e conformidade com que ele florejava de nenúfares os pântanos da vida.

Escrevendo ao ritmo da época, é natural que Pinheiro Chagas, célebre pela sua intervenção na Questão Coimbrã, a par de António Feliciano do Castilho, sublinha:

pequenas obras primas adoráveis miniaturas;

É realmente um romancista encantador, uma individualidade vigorosa e portuguesa de lei esse escritor que se oculta debaixo de um modesto pseudónimo.

Pedro Ivo que buscou o seu pseudónimo num capitão brasileiro que chefiou a revolução republicana de Pernambuco, de 1848-1849, acabando por morrer no mar, recebeu os maiores encómios dos homens de letras do seu tempo, como Fialho de Almeida, Oliveira Martins e Rodrigues de Freitas. Alexandre Herculano, conhecido pela sua verticalidade, exigência, rigor e imparcialidade, escreve em relação a Pedro Ivo:

Os seus contos, no meio de tanta coisa que por aí se escreve, fizeram-me singular impressão. Nessas narrativas singelas de coisas simples, das peripécias vulgares da vida humilde, das existências obscuras, surge, como o sol por entre nuvens sombrias, um grande escritor.

E do grande escritor ficaram os livros que escreveu e algumas homenagens que o recordam com grande aprazimento. Do filho, Fernando de Macedo Lopes, fica-nos a recordação de um homem de talentos e de um pai que não quis esquecer. O Limbo de Pedro Ivo, saído em 1926, recorda-o para comemorar e celebrar, além das palavras toponímicas que não apontam somente lugares, mas lembram os que nesta terra que é a nossa, foram famosos e merecem ser revistos e lidos.

Faleceu no dia 4 de Outubro de 1906, no n.º 41 da Avenida de Carreiros, na Foz do Douro, onde então passava férias. Asmático. Pneumonia. Um dia doente. À noite adormeceu… e morreu.

 

Não foi adoptado o acordo ortográfico.

João Cabrita