Enfermeiros

Da meninice guardo gratas recordações do Sr. Xuco-polícia destro e bondoso enfermeiro daquela corporação, fumador empedernido, incapaz de prender quem quer que fosse, capaz de injectar na perfeição vacinas e outras curações/curativas, ligaduras e pensos. Também o pai da Geninha (da estrídula publicação de um livro alheio) foi competente enfermeiro na polícia. A Geninha trouxe o livro da casa do autor, o escritor Modesto Navarro, apresentou-o como seu, recebeu hossanas e louvores, depois cumpriu-se o sabido anexim: quem o alheio veste, na praça o despe.

Da adolescência retenho imagens dos sorrisos sinceros de freiras a trabalharem no Hospital da Misericórdia, da sua extraordinária caridade no paciente atendimento de exaltados e silenciosos feridos ou magoados no corpo e a denunciarem carência de afectos e encorajamentos. Não sei se o Senhor Francisco e as Irmãs em causa possuíam habilitações científicas, sei, isso sim, possuírem aptidões no auxílio aos enfermos, fossem eles dos vários estratos da hierarquizada sociedade salazarista. Não sei se a PSP alguma vez salientou o labor de agentes da estirpe do enfermeiro acima referido, estou convencido de o Eleutério Alves já ter homenageado aquelas devotadas Servas pois é grato timoneiro daquela secular Instituição.

Em 1967, embarquei na nau da diáspora, por onde tenho andado a generalidade dos profissionais de enfermagem escalados para me prodigalizarem cuidados tem sido cuidadosos, as excepções (num Hospital afamado) não ofuscam a regrada positividade. Por isso mesmo estranho o tom de farronca dos enfermeiros grevistas ao ribombarem o número de cirurgias desprogramadas deixando os pacientes em maus lençóis, quantas vezes sem cama quanto mais lençóis, angustiados e desesperados dado os seus males serem atirados ao vento indo cair na cova burocrata apressando a abertura do coval de acolhimento dos seus corpos. Mau demais para ser verdade. Mas, é!

O visto, o lido e ouvidos relativamente ao diferendo entre enfermeiros e o governo evidencia um diálogo de surdos fora de quaisquer limites imperando um infantil jogo se sustentação de pulsos, denunciando o aproveitamento da época eleitoral quer dos dirigentes sindicais, quer de António Costa e a ministra temerosa na perda de votos. O sustento dos enfermeiros vai ser averiguado, a sustentação governamental escora-se, em muito, na pouca popularidade deste género de greve muito animada pelo bastão da bastonária a qual manuseia o símbolo do poder profissional como se fosse a Maria da Fonte de corneta na mão a cavalo sem cair, a tocar a reunira. Estamos ante uma Patuleia comandada e sustentada através de plataformas digitais e redes sociais!

Perante a escassez de disposição para uma negociação serena, razoável, levando em linha de conta a situação social de activos profissionais e passivos (idosos e desempregados) num fundo populacional de doentes, incapacitados e indigentes, agride-me o desprezo dos decisores de um e outro lado manifestado aos enfermos pois esgrimem-se argumentos especiosos à vez prevalecendo aquilo que o povo toma como morte lenta.

A morte lenta provoca atitudes sem temperança, angústias de actos desesperados, a jugulação da probidade em negociações de qualquer natureza conduz a uma permanente desconfiança daí a débil vontade na resolução da fractura, não sendo de estranhar o mutismo ruidoso dos bloquistas e comunistas a obrigarem António Costa a designação de greve selvagem. A (a seguir ao 25 de Abril de 74, saiu à estampa elucidativa obra de um anarquista italiano sobre greves selvagens) cuja leitura recomendo.

Esta greve sai fora do cânone usual, a seu tempo vamos saber qual a origem do fundo de greve, para já são doadores abstractos, amanhã nominais, é natural mexidas na lei da greve, o comportamento da geringonça será em verificar, do PSD e CDS também, o Novo Mundo teorizado por Huxley aí está impante picando os miolos de todos quantos defendem normas comportamentais assentes no bom senso, na ética e na moral, relapsos à mesquinhez gulosa porque dá plena autenticidade à máxima “a ocasião, faz o ladrão.”

Armando Fernandes