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Em cada esquina um árbitro

Caros amigos, como tendes passado? Espero que esteja tudo bem convosco. Não sei como anda tudo por aí, mas há uma coisa que nunca perde actualidade, o futebol. No outro dia estava a ver uma equipa acabada de descer de divisão cujos dirigentes protestavam daquela forma caninamente raivosa tão característica em frente da cara impassiva do senhor árbitro. Nesse momento compreendi que as pessoas do futebol tem uma invejável vantagem em relação aos demais sectores da sociedade portuguesa. Um árbitro. Aquele senhor que anda ali no meio do campo a decidir coisas que acontecem por entre correrias de dezenas de pernas, enquanto, em simultâneo, uns amigos gozões a ver o futebol no café lhe vão dizendo coisas ao ouvido, ora para ajudar, ora para atrapalhar. O meio do futebol tem a sorte de ter um senhor árbitro, melhor, um trio de arbitragem. É um privilégio que convém muito ao português, ter um caixote para onde berrar culpas e cuspir impropérios enquanto assobia para o lado e leva a vida da forma mais desenrascada possível. Deveria haver um árbitro dentro de cada casa portuguesa. O marido é um mandrião, a mulher só sabe ralhar e os filhos acumulam gadgets e negativas: Palhaço! Sim, tu que estás aí sentadinho, ó cegueta, a culpa disto não andar para a frente é sempre tua. Agora sai do sofá que eu quero ver a bola, energúmeno! E pronto, estaria sempre tudo impecavelmente bem se houvesse sempre um árbitro disponível para descarregar a responsabilização. No trabalho, o empregado não faz nenhum, o ordenado não sobe, o chefe aperta cada vez mais. O que fazer? Um árbitro em cada posto de trabalho: És um urso! Sempre a mesma m…, estás comprado, não fazes nenhum, é só cafezinhos e empurrar com a barriga e quem se lixa sou eu! Vai mas é enrolar-te com o chefe, seu larilas, que é que o que tu sabes fazer! Em repartições também daria bastante jeito. Por exemplo, na segurança social. É que mandar vir com a pobre coitada que está do outro lado do computador por vezes custa um bocado. Dá um certo constrangimento porque afinal a culpa não é exactamente daquela pessoa, ainda que haja algumas que se prestam particularmente bem a esse papel. A solução? Um árbitro, claro está: Ó estúpido! Sempre a decidir para o mesmo lado. Eu aqui f… duma perna, de baixa em casa há mês e meio e já é a terceira vez que tenho de cá vir por causa da porcaria do papel, ó monte de esterco. E tu nunca resolves nada! Mesmo no supermercado a presença de um árbitro não seria de enjeitar: Ó boi, sim tu aí, anda cá. Então eu estou aqui há meia hora com a senha do fiambre e chega-me esta gaja não sei de onde e diz que tem uma senha antes da minha. Mas tu andas a comer iogurtes gregos com a testa ó quê? Isso é que é ganhar dinheiro fácil, ó cabeça de porco. Ou ainda: Então aqui nesta caixa está uma fila do c… e as outras caixas estão todas fechadas? Mas andas a brincar com isto ou quê? Queres que eu passe aqui o fim de semana todo a olhar p’rá tua fronha? Estás à espera de quê para mandar abrir as caixas do lado, seu borrego? Inclusive junto às caixas multibanco: ó unha rachada, então andas-me a gastar o dinheiro todo em tabaco e raspadinhas e agora eu como o quê até ao final do mês? Seria muito melhor do que salas de stress para partir a loiça toda ou do que o submundo encantado das caixas de comentários da internet. Teria a incomparável vantagem de ser alguém em carne e osso, um ser humano, disposto a fazer a sua melhor cara de urso e assumir-se omni-responsável por tudo o que deu e dá para o torto. O rosto da culpa, o corpo da incompetência, o saco (de escroto) de todas as falhas resultantes, na grande maioria, do demérito próprio. O português não precisaria de mudar um milímetro na sua vida se em qualquer esquina houvesse um árbitro sempre presente e disposto a ser veementemente mandado para as urtigas enquanto se manteria naquela posição direita e amovível de fim de jogo, fitando impávido os indivíduos nos olhos para que o nível dos impropérios fosse subindo sempre de tom e o cidadão português pudesse descarregar as suas frustrações até ao último perdigoto de saliva. O português andaria muito mais feliz. Porque para o português é sempre o outro, foi sempre o outro. Reparem que, tal como neste texto, os portugueses nunca somos nós. O português é. Isto e aquilo. Já eu não. Aliás, quando falamos há os portugueses e há o eu, que não são farinha do mesmo saco. O eu que fala não só tem pouco ou nada a ver com os outros como é alguém que roça quase sempre a perfeição. Bem vistas as coisas, nem sequer há portugueses, só há eus. Só não há é árbitros por todo o lado porque o português não sabe ter ideias de jeito. E quando tem alguma não dá para se fazer nada por causa… de labregos como este que está aqui ao meu lado vestido de preto!

Um abraço e bom Verão para todos!

 

Manuel João Pires