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É mails e códigos postais

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Boa tarde nobre gente. Como têm passado? Parece que este Março está a ser realmente Marçagão para as plantas, fontes e ribeiras. Bem haja ele! São óptimas notícias após tanta secura. Depois de tantos meses em que as águas dos ribeiros não chegavam à altura de “meia telha” (esta tem direitos de autor) eis que as coisas estão mais compostas. Neste mês caiu uma chuvica bem caída. Chuvica, atentem bem no meu elevado grau de trasmontanismo. Em Lisboa “tá de chuva”, “a península inteira a chorar”, diz o Rui Reininho. O mau tempo vai continuar, anunciam. O mau tempo é a chuva, portanto. Para início de conversa estamos conversados. Ai a seca, a seca, mas afinal a chuva é que é uma grande seca. Felizmente há quem lhe dê valor, quem precise dela, quem goste simplesmente de sentir o cheiro da terra recém-molhada. Por isso, ela que fique para jantar e na próxima não passe tanto tempo sem nos vir visitar. As esplanadas bem podem esperar. Quem me fez uma visita um dia destes foi a Dona Autoridade Tributária. Senhora essa que embora eu mal conheça - nunca fez questão de me convidar sequer para um cafezinho - é sempre muito solícita quando se trata de dizer que lhe devo dinheiro porque algum misterioso prazo já passou há muito. Desta vez teve o bom senso de me alertar para a importância de eu limpar os meus terrenos para que no Verão os pobres dos jornalistas estagiários não tenham de comer golfadas de fumo por causa da minha irresponsabilidade. Para bem dos estagiários e para mal dos seus patrões. De modo que mal acabem de ler as minhas valiosíssimas e primorosas palavras saltem da cadeira e vão roçar essas silvas, podar essas árvores cheias de barbas, arrancar essas plantas daninhas e cortar a erva que espigou com as chuvas. Mas rápido, porque se o caro leitor não é proprietário de nenhum banco, se não é um oficial militar que possa fazer uns truques de camuflado, se não tem bilhetes de um espectáculo minimamente interessante para oferecer, se sai alegremente nas capas de revista enquanto dirige uma associação de voluntariado daquelas em que é tudo à grande para si e para os seus familiares até à quarta geração ou se por ventura não tem um primo ou conhecido com acesso a passwords de funcionários, juízes e da própria AT (peço desculpa pelo excesso de confiança, minha senhora), então ela não costuma ser mesmo nada, nada meiga. Indelicada, mazinha até. Por isso o meu sincero conselho é de que se ponha a pau e não queira fazer farinha com ela. No feliz caso de o estimado leitor se enquadrar numa das individualidades mencionadas anteriormente, se não se importa, por obséquio, diga àquele seu amigo que diariamente lhe deposita carradas de dinheiro na conta, na carteira e no sótão lá de casa que este mês me dava particularmente jeito uma ajudinha para pagar a creche da filha... Epá, não estava à espera que fosse assim tão rápido. Muito obrigado caro leitor, apanhou-me de surpresa. Certo, o meu IBAN segue em anexo. Sim, completamente de acordo consigo, os angolanos são uns corruptos, nada a fazer com essa gente. Está, vou então ao multibanco ver se está tudo ok. Afirmativo, confirma. Obrigadinho. O caro leitor é um indivíduo cinco estrelas. Estou sem palavras. Olhe, sabe que tenho um tio que tem uma mercearia ali logo quem vira na segunda saída da auto-estrada, você vai encontrar um ferro-velho, não é aí, é na rua de cima. Depois passe lá por alturas da Páscoa que não se vai arrepender. Estão lá umas “pilhas” à sua espera. Exacto, uma pessoa tem de ser inteligente e arranjar estes códigos ridículos e nada reveladores. Ah, sim? Tá bom, tá bom, então vou ligar já de seguida. Tou? Tudo bem? Olhe, estive a falar com o “Sierra Madre” e ele disse-me que o senhor aí na “Plasticina” tem umas “folhas” para o meu carro, não sei quando é que tem disponibilidade. Sim, se puderem ser os quatro novos seria ouro sobre azul. Perfeito, quarta-feira à tardinha passo aí. Mas é que não tenha dúvidas, italianos, gregos, marroquinos, é tudo igual, bando de mafiosos. Força, adeusinho. Tou, senhor leitor, perdão, “Sierra Madre” como está? O meu tio falou-me muito bem de si. E a sua esposa gostou da “nova telenovela”? Isso é que é preciso. É o seguinte, chegaram-me umas multas a casa, uma delas até foi naquela vez em que fui ao “Talho” para me encontrar com o “PBX”, diga lá ao seu contacto na “horta” se não me pode pôr “um cheirinho no café”. Isso, isso. Outra coisa, a minha filha mais velha anda numa idade difícil, este período teve umas quantas negativas, se tiver tempo dê um toque ao “Sr. Abade” para “trazer o martelo da sapateira”. Ok, correcto, e diga-lhe que ao lado da casa dele trabalha o “Ribeiro Manso”. Não, o “Ribeiro Manso” é o meu cunhado. Mesmo ao lado da casa dele. Faz umas taxas de amigo para quem quer “arranjar os estores”. Se precisar está à vontade. Russos? E os chineses, só vivem de esquemas, isso é tudo gente que não vale a pena. Então fica assim combinado, para a semana no “chilindró” do “Joca” para um peixinho de espada grelhado. “Chilindró”, salvo seja, ehehe. Não se esqueça dos “óculos de sol” nem do “vinagre balsâmico”. Força, um abraço!

Manuel João Pires