Dicionário do Nosso Falar

Julgo ter lido no Nordeste um artigo no qual se dizia – falar ao nosso modo – está na moda. Se especialistas de «todas as especificidades» linguísticas continuam a esgaravatar nos códices e nas coifas onde se escondem vocábulos ditos arcaicos, caídos em desuso, importa referir os trabalhos de recuperação encetados por não credenciados universitários que o fazem pura e simplesmente no âmbito dos deveres cívicos na esfera do seu quadro de referências espirituais e materiais.
Ora, Joaquim do Nascimento, natural do Alto Douro, transmontano envergonhado como o nomeio no intuito de o picar ao modo de picada de ouriço de castanheiro, ou de alfinetada das mestras costureiras alcandoradas pelas clientes no grau de modistas, é um Cidadão de corpo inteiro, o qual dedica estudo, tempo e fazenda aos costumes e usanças da sua terra – Pereiros – integrante do concelho de S. João da Pesqueira. Frequenta alfarrabistas e vendedores de livros em segunda, terceira ou demais mãos, ao encontrar um documento do seu termo luzem-lhe os olhos, sendo um homem de máximas, sentenças e provérbios, esquece quem tem livros, não tem libras e adquire o pequeno (grande tesouro) ficando à espera do meu comentário, irónico na maioria das vezes.
No seu entender os vocábulos não podem ser zorros, por isso mesmo acaba de publicar o Dicionário do Nosso Falar, onde reúne centenas deles, instrumentos vitais para apreendermos os interstícios do falar das gentes do reu terrunho duriense que aprendi a apreender a dureza e quase epidémica penúria lendo entre outros, João Araújo Correia, Miguel Torga, Domingos Monteiro, Graça e Lisa Pina de Morais e Alves Redol do ciclo do Port-Wine.
Li o livro de um trago de muitos bagos de A a Z, reli ao modo de saborear um cálice (avantajado) de vinho fino, soberbo, de uma só colheita, sem surpresa encontrei termos comuns a todas as regiões, pinga a pinga dos de trá-los Montes, escondidos nas covas e largas luras, protegidos pelos fraguedos, camuflados nos giestais e arvoredos.
Há dias no decurso de um noticiário televisivo falei sobre a Carta Gastronómica de Bragança, antes recebi indicações acerca da intervenção a fazer, sugeri levar uma raba, disseram-me para me abster de tal desejo. Sem grande dificuldade consegui mencionar a deliciosa raiz e trago-a a terreiro porque o Joaquim Nascimento não a refere, certamente, porque no Douro, no Alto Douro, nunca as mulheres nunca as preparam a sós ou na planturosa companhia de salpicão tirado do fumeiro, costelas de porco ainda no adobo, ou simplesmente guisadas com ovos batidos.
O benquisto autor ainda está a tempo de provar e degustar tão substanciosa pitança, fosse eu dado a localismos e escreveria que a cozinha tradicional da Terra Fria é a «melhor do mundo», assisadamente alguém diria o meu mundo ser minúsculo e cujo centre ficou centrado na patusca Argana, no entanto, dentro do quadro dos sápidos sabores transmontanos é um bornal repleto de vitualhas de untar a barbela, de a língua estalejar como os foguetes estrondam nas festas e a memória trazê-los à lembrança a propósito de tudo e a propósito de nada, Assim acontece neste escrito, do falar dos montes pintados (J.A. Correia) dos socalcos sudosos dos galegos às touças, matas e bosques de Bragança e Vinhais, apenas foi o intervalo das rabas, sem serem rebitesas.
Às vezes mastigo a hipótese de os meus leitores levarem as contínuas referências a livros num arremedo de pedantismo que a ser verdade além de ridículo seria bacoco e abstruso ao jeito do pedinte de encómios tão do agrado dos génios de bagatelas. Repito, volto a repetir: a minha vida tem nos livros a sua maior pulsão espiritual. Os livros são os meus maiores amigos, dão-me bons conselhos, ensinam-me, corrigem-me os erros, não me pedem dinheiro emprestado. Ah, esquecia, posso incomodá-los a qualquer momento e não ficam a murmurar injúrias ou críticas.
Bom Ano Novo.

Armando Fernandes