DEPOIS DELES… seremos nós

Por toda a parte ouve-se dizer que os tempos estão a mudar, as pessoas também e da educação nem se fala. Para ser sincero, desde que me recordo sempre ouvi dizer isto, sobretudo no que se refere ao tempo. Nesse campo, quis acreditar que só dali a muitos anos é que se veriam as mudanças e, quando ouvi dizer que Portugal iria passar para um clima tropical achava graça a tais previsões, sobretudo quando vinham acompanhadas com a apocalíptica frase: “Caras ao fim do mundo…”. Parece que os anos não passaram e, efetivamente, tudo mudou.

Nos dias de hoje, associa-se o conceito de “mudança” a “transformação” e este a “desenvolvimento”, jamais a “retrocesso”. Talvez a desvalorização das ciências sociais e humanas tenha conduzido a um raciocínio unidirecional, esquecendo-se que na vida só há duas certezas: o nascer e o morrer. Para o resto há sempre mais que um caminho ou, se quisermos num pensamento mais filosófico: mais do que uma via.

Da altura em que escutava: “Caras ao fim do mundo…”, recordo uma história, inúmeras vezes repetida pelos mais seniores que, já libertos dos campos, sentavam-se nas soleiras das portas, vestidos de negro, contrastando com as paredes caídas de branco. Em traços gerais, contavam eles:

“Tempos houve, em que havia um povo, onde, quando os pais estavam caras a morrer, (caras significava perto de…), quando os pais estavam caras a morrer, o filho mais velho tinha a obrigação de pegar no pai às costas e levá-lo para um cabeço onde o deixava, só, com uma manta para se cobrir.

Um dia, já o verão ia quase no fim, chegou a vez do filho de um homem, considerado o mais sábio da aldeia, também o levar para tal monte. Quando lá chegaram, o filho pousou o homem sábio no chão e ia dar-lhe a manta, cumprindo a tradição. Tranquilamente, o velho sábio, sentado no chão, levantou os olhos e disse:

- Não filho, leva a manta e guarda-a para quando o teu filho te trouxer para aqui. Como dizes, e é verdade, a mim pouco tempo me resta de vida. Já tu, nunca saberás quanto tempo terás depois de aqui chegar.

Reza a história que, com os olhos rasos de lágrimas, o filho pegou no pai, e regressaram a casa, acabando assim com a tradição de abandonar os pais no tal cabeço.”

Quando hoje tanto se discute a proteção de dados, os direitos dos animais e o direito ao próprio corpo que se baseia num princípio básico da liberdade individual, ainda não vi nas sociedades democrático-liberais a necessária sensibilidade para discutir os direitos que o sénior tem em relação ao seu projeto de vida ou à apropriação a que tem direito de ser dono e senhor do seu corpo e dos seus afetos. Que princípio ou direito pode um filho evocar para internar um pai num lar ou que legitimidade tem uma residência geriátrica de acolher um cidadão, consciente, de pleno direito, contra a sua vontade? Que legitimidade tem um filho de decidir como os seus progenitores devem viver os seus afetos ou, direi, mesmo a sua sexualidade, apenas e só porque têm setenta ou mais anos? Onde estão salvaguardados os direitos, as liberdades e as garantias destes cidadãos?

A maior contradição deste tempo passa, sobretudo, porque durante uma vida apregoa-se o amor, a partilha, o direito à liberdade, mas a mentalidade dos decisores e de quem concebe o modelo de sociedade atual, recusa aceitar que os que hoje são institucionalizados é a geração que viveu a sua juventude nos anos 60 e que lutando por esses valores abriram caminhos novos para os filhos e netos que hoje lhe negam esses direitos. Ironicamente, os adultos de hoje orgulham-se de prolongar a vida dos mais velhos dando-lhes mais conforto, melhor alimentação e melhores cuidados de saúde e é louvável. Sarcasticamente, ou nem isso, continua-se a considerar que “esta peça de roupa não lhe fica bem por causa da idade” ou que “não o(a) vamos levar para a praia connosco porque…” mas até insistimos para que participem no encontro de idosos que a autarquia organiza nos mesmos moldes que juntou as crianças no dia um de junho. E, então, dormirem os dois em cama de casal, nem pensar! - É provável que velhinha psicanálise freudiana ajude a explicar tais reações. No entanto, o tempo é que não espera, e os que hoje decidem pelos seus pais, são os que amanhã irão fazer o mesmo percurso, talvez ao empurrão ou em camisas-de-força porque serão levados contra a sua vontade.

Vendo os últimos dias de um homem nesta perspetiva, talvez seja mais fácil entender porque se quis legalizar a eutanásia: é que sempre é mais fácil por fim à vida, mesmo que de forma consciente, do que viver privados de afetos e sem ser donos do nosso destino seja pelo tempo que for. Mas cuidado porque depois deles, seremos nós…

Raúl Gomes