CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA OU ENSAIO SOBRE A HIPOCRISIA

Confrontamo-nos diariamente com um certo cinismo pretensos defensores da coesão territorial, opositores das assimetrias, mas no fundo sem coragem para lutar pela equidade ou mesmo pela justiça territorial, em detrimento de interesses de alguns.
Lembro-me de em 1982 integrar um grupo que agregava os interesses e o sentimento patriótico de alguns transmontanos na diáspora. Era um Fórum Cívico que daria origem a tertúlias e mais tarde à génese casa de Trás-os-Montes em Coimbra.
Já nessa altura defendia o transmontanismo e a autonomia do território.
O centralismo, concentraria fundos europeus que eram destinados ao nosso território, despojando-nos desse investimento financeiro crucial para o desenvolvimento e mesmo sabendo que havendo uma dinâmica económica local com base no potencial endógeno; lembro-me da energia elétrica produzida nas barragens do Douro, as explorações de mármore de Vimioso que eram exportadas para Itália, sendo depois vendidas com a marca de Carrara, o ouro de Jales, o volfrâmio e as múltiplas potencialidades gastronómicas e vínicas que no seu conjunto prenunciavam a nossa independência económica, se esses benefícios fossem investidos no território nativo.
Mas os nossos génios autóctones procuravam a glória fora da sua “nação”.
Alguns de nós foram “longe”! Dois primeiros-ministros, grandes catedráticos e muitos outros notáveis, constrangidos a trabalhar a soldo de uma imposta centralidade cultural e económica.
Hoje apelam para a solidariedade nacional, para um país unificado, mas depois a prática governamental ignora os interesses do território e dos que cá vivem.
As assimetrias acentuam-se.
Ter um bem que é nosso, como a água da barragem do Azibo e chegar ao cúmulo humilhante de ninguém perguntar como nem porquê se revogam processos contratuais, nada vantajosos para um pequeno município como o nosso, que fica refém de uma pseudodivida déspota e ditatorial, detida pelas Águas do Norte e posições cedidas a entidades bancárias num total de cerca de 11 milhões de euros entre divida, juros e amortizações.
Imaginem o que é ser-nos imposta uma “cegueira” e suportar uma não solução que é simultaneamente uma dependência e uma inoperância orçamental por incapacidade de investimento imposta ao município e que de forma dramática se poderá estender até 2045, “amordaçando-nos e impondo-nos um silêncio” e a obrigatoriedade de “oferecer” o correspondente a um veículo topo de gama todos os meses, às entidades detentoras da dívida e dos seus escandalosos dividendos que no seu valor representariam o investimento suficiente para retirar as nossas freguesias da pobreza.
Somos reféns de uma “escravatura vil” que não nos permite opinar sobre uma decisão que além de injusta, ameaça a possibilidade de contrariarmos a desigualdade, a fatalidade do interior e a sangria demográfica – é a morte anunciada!
Uma caminhada acelerada para a desertificação!
Sinto-me triste, humilhado e amordaçado.
Este é apenas um dos fatores precipitantes da descoesão territorial, da desconcertação social, mas mais existem como a exploração das nossas capacidades endógenas, descartando a obrigatoriedade normal de investir nos concelhos que disponibilizam territórios e meios endógenos.

Benjamim Rodrigues