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Corações ao Alto

Muito boas tardes, bons olhos vos vejam minha estimada gente. Ora deixem-me lá sentar um pouco aqui junto a vós neste banco de pedra. Deixem-se estar que cabemos todos. Ah, que bem que se está aqui. Março, marçagão, tardes soalheiras à espreita, já começam a saber bem as sombras. Pois é… E então como vai a vida? Já se vêem as andorinhas? Sim senhor… Por falar nisso diz que “quem em Março asserenou tarde acordou, mas quem asserenou bem se achou”. Asserenar, fazer serão, pois claro. As noites a ficar mais compridas e o chupão a pedir menos lenha. Não tarda vêm os Ramos e depois a Páscoa. A Quaresma, e pensar que houve um tempo em que durante estes dias não se comia carne à sexta-feira e que quem pagasse a bula ficava livre de tais comprometimentos. O padre a fazer de cobrador (de almas) e a igreja a cumprir o “venha a nós o vosso” (reino). O Ministério da fé e dos negócios (de Deus) não deixava contas por acertar, não havia mar que não se abrisse nem montanha que não se demovesse para quem tivesse o espírito recheado (de bondade). Expliquem estas e outras coisas aos miúdos de agora. Não era ser-se religioso, era ser-se resignado, submisso, submisso da falta de tudo, tudo o que permite aos homens terem o mínimo para poderem sequer conseguir pensar em reflectir sobre o que os rodeia. E quem tinha um olhito, facilmente coroado rei entre miseráveis. Corações ao alto que deixámos de ser assim – e o mais incrível no espaço de uma só geração - viver a religião, mas com um mínimo de discernimento, de consideração. Mudámos, entrámos na Europa, fizemo-nos país desenvolvido. Não tenham medo das palavras. Falarei disso numa próxima. Olhar para o mundo numa perspectiva global. País desenvolvido, do primeiríssimo mundo. Não o deixamos de ser por insistirem em nos colar o autocolante amarelo no vidro como se fossem agentes das empresas municipais de estacionamento: “Roda bloqueada e venha o reboque retirar este veículo da segunda fila da economia mundial: aqui está a factura, vai desejar com ou sem contribuinte?”. Não o deixamos de ser. Não é porque devêssemos ter mais centros de saúde abertos ou porque o médico não vem tanta vezes como gostaríamos, é porque temos liberdade e capacidade para o exigir e é sobretudo, porque há 50 anos nesses mesmos lugares crianças nasciam sem sequer saber o que eram cuidados de saúde e crianças morriam como não se morria em lugar nenhum do mundo. Caso de estudo a nossa redução da taxa de mortalidade infantil. Falem destes avanços aos jovens. Não é por termos escolas a fechar, onde para todos os efeitos há pouca gente, é por termos boa, diversificada e acessível educação. É por termos pessoas licenciadas a tratar dos nossos filhos nos jardins de infância. Trabalhei com público adulto e é surpreendente, chocante, bárbaro, a quantidade de gente neste país que deixou a escola por só dela receberem rispidez. Não era rispidez, era violência, porrada, da grossa nalguns casos. É atroz a imagem que tanta gente neste país guarda da escola. Aspereza em casa, toma crueldade na escola para aprenderes. Estamos a falar de crianças, crianças. E isto até há um par de décadas. Duas coisas: Primeiro, há que reconhecer o esforço e o mérito de uma geração que passou por tudo isto, que sofreu, que penou, que viu a sociedade mudar e mudou com ela, que começou lá muito em baixo e deu a volta por cima. Segundo, isto tem de ser partilhado com a juventude. É a nossa história, havia gente dentro disso, vidas, gerações de pessoas. Famílias, escolas, entidades: investiguem, partilhem, interajam, transmitam. É assim que se aprende a dar valor ao que se tem, sem darmos o que termos por garantido. É assim que se aprende a dar valor ao que os nossos pais nos conseguiram dar, sem descurar que o conseguiram à custa de muito suor e trabalho. É assim que se aprende de onde vimos e a defender o que somos, sem nunca esquecer que amanhã tudo pode mudar. É assim que se aprende a querer ir mais longe, para podermos estar mais preparados e dar o melhor de nós ao mundo onde vivemos. Pensem nisso. Bem, minha gente agora se me dão licença vou indo que “moinho parado não mói farinha”. Obrigado por este bocado. Boas tardes e até amanhã!

Manuel João Pires