Conversa da Greta

Ora boas tardes. Parece que o frio chegou em força para esses lados. Essas lareiras já devem chispar: grandes lareiras com boa madeira de carvalho, freixo, tão bom. Bem, talvez não. Ligue-se o aquecimento central. E daí, fiquemo-nos por um aquecedor elétrico ou a gás para aquecer as panturrilhas e pôr as meias a secar. Mas em todo o caso, o ambiente não deixa de pagar. Uma boa manta é capaz de chegar. Em casa da minha avó havia umas mantas daquelas com umas barbas que até picavam, pesadas, uma pessoa mal se conseguia mexer debaixo delas. Memorabilia transmontana. Ou então chamam-se outra vez os Eléctricos de Gimonde, para nos trazerem as brasas a casa através de um meio de transporte amigo do ambiente, embora potencialmente teimoso. Amigos, o que precisamos não é de Conversas da Greta. O que precisamos é de inconsciência ambiental. Reparem, em meados dos anos 60, em Portugal, país transbordante de felicidade fruto dos invejáveis índices de desenvolvimento e de escolaridade, as pessoas estavam consciente e perspicazmente providas de inconsciência ambiental. Por exemplo, nesses tempos, a minha mãe enquanto estudante do Magistério de Bragança, comprava as brasas aos Eléctricos de Gimonde para aquecer a casa e a caldeira de água, estudava romanticamente à luz da vela e não poucas vezes se locomovia a energia asinina. Provavelmente até teria um penico amigo do ambiente debaixo da cama. Não havia plásticos, nem luz, nem água quente. Coisas que no fundo só trazem mau ambiente. Existia uma clara inconsciência ambiental que é imperativo reproduzir. E para o fazermos necessitamos de fazer algo muito simples: parar agora neste preciso momento e começar já a retroceder como se estivessemos dentro de um leitor de VHS. Mas com cuidado para não puxarmos muito a cassete e não irmos parar à Idade Média. Teria as suas vantagens em termos do que ambientalmente se pouparia em talheres, calças à boca de sino e Citroens boca de sapo, mas correríamos o risco de ao ir parar ao medievo levarmos com uma espadachada nas costelas por dá cá aquela palha ou de os médicos usarem aquela técnica de sangria para nos tirarem qualquer enfermidade do corpo. É de inconsciência que precisamos, inconsciência ambiental e inconsciência do mundo em geral. Retroceder quanto muito até ali a uma altura onde já houvesse camas com colchões de molas (os de palha ganhavam muito percevejo e davam cabo das costas) e onde houvesse televisão para apreciar as Conversas em Família e o Festival RTP da Canção. Com jeito poderíamos deixar uma porta entreaberta, ou até um túnel com uma motinha (amiga do ambiente) como aquela que o mexicano usou para se escapulir da prisão, de modo a voltarmos a marcar presença no presente em determinado dia da semana. Por exemplo, aos domingos. Quem quisesse poderia ficar lá atrás a ter um domingo com missa de manhã, futebol à tarde e um passeio na Feira Popular ao fim do dia e quem lhe apetecesse poderia vir ao presente actualizar o Instagram, comer um hamburguer amigo do ambiente e beber uma Coca-Cola BFF do ambiente para atenuar a ressaca. Poderia ainda passar pelo IKEA para comprar um sofá-cama, de forma a dar guarida àqueles que lá atrás já se teriam lembrado de criar um sistema de partilha de quartos para a malta que andasse a viajar e a conhecer mundo de Catamarã, ou para os mais radicais, viajantes de barco a remos ou mesmo através da ainda mais amiga do ambiente, jangada.

Era desta abordagem ao ambiente que o mundo necessitava. Uma consciência que não se preocupasse com o ambiente das redes sociais nem com o ambiente dos ideais da moda. Uma consciência que olhasse para além da elite europeia e de um par de países mais, ou seja, uma consciência que fizesse entrar no diálogo deste tema o restante 90% da população mundial. Os mais afectados por estas questões. Aliás, podemos começar já por dizer aos largos milhões de pessoas de África às Américas, da Ásia a alguma Europa para ficarem onde estão,  #Amisériaéonewchic. Explicar-lhes para deixarem de sonhar com esses luxos poluidores e inimigos do ambiente para as suas famílias, que a Black Friday afinal é uma farsa, a maior Capital do Natal da Europa é só lama e esferovite, e que não há nada mais trendy do que um balde velho e meio furado. Em relação à menina Greta, é de louvar a sua posição e o seu discurso, apesar de bastante wikipediano e de certa forma natural para uma jovem da classe média-alta de um país desenvolvido com fácil acesso à informação. Ao ler as suas palavras creio que existem milhares de jovens portugueses que seriam tão ou mais capazes de defender semelhante discurso e também de assumir este papel, desde que com a devida entourage. Mas, já me esquecia, tudo o que os nossos alunos aprendem nas escolas é a afiambrar nos professores e a fazer vídeos com o telemóvel. Não servem para mais nada. Um abraço e não estraguem o ambiente.

 

Leitor de Português na Universidade de Sun Yat-sen

Cantão Guangdong – China

 

Manuel João Pires