Concertinas

Três instrumentos musicais continuam a soar nos meus ouvidos, escutados entusiasticamente na minha meninice, que são a gaita-de-foles, a rabeca e a concertina. Cada qual na dupla actividade de frenético regozijo, ou de descaroçamento da vida afectiva a animar as trevas das noites longas e friorentas alumiadas por candeias e lamparinas, às vezes por fétido Petromax a adensar as sombras das pessoas alumiadas.

Os leitores de menos de cinquenta anos para seu bem não viveram em aldeias desprovidas de luz eléctrica, os de menos de quarenta anos regozijem-se porque não enterram os sapatos ou botas nos caminhos pródigos em lama, buracos e dejectos, as fontes de mergulho passaram à condição de património edificado abandonando a função de encherem os cântaros e cântaras das raparigas namoradeiras e sem namorados, dos meninos e das meninas cuja prioritária função após saírem da escola era irem à fonte.

Esses leitores e leitoras imaginem tal viver, dando consistência os relatos dos avós e pais não só acerca do monótono dia-a-dia, também dos dias nomeados de guarda das alfaias agrícolas e de outras obrigações. Trabalhava-se ver a ver, desde tenra idade, folgava-se pouco, no entanto, festa era festa.

Ora, em Lagarelhos naqueles roídos anos cinquenta, a gaita-de-foles acordava os dorminhocos como eu era. Estremunhado, num ápice lavava a cara ao modo dos gatos, agarrava um bocado de pão trigo (dia de festa), corria até ao terreiro onde os tocadores sopravam e expeliam sonoridades musicais, umas adstringentes como alguns vinhos, agudas, vibrantes, outras mais calmas ou domesticadas ao modo de tisanas a repelirem cavernosos catarros.

Sim, eu sei, os jovens de agora sabem os nomes técnicos do seu sistema de funcionamento, quais as notas musicais e possibilidades de o tocador fazer uma pausa e a gaita continuar a tocar. A Internet explica, eu gostava de ouvir a gaita-de-foles no terreiro. Já ouvi concertos de grande aparato de gaitas-de-foles na Escócia, na Galiza e noutros lados, só que a força do sopro dos gaiteiros no dia da festa em honra do Senhor porteiro do céu ficou a ecoar na minha memória colocando em segundo plano outras soltadas por esse Mundo fora.

A rabeca do sapateiro Izé (José) plangia latidos de cão sonolento pela noite fora irrompendo na casa (agora minha) através do telhado da cozinha a qual ao tempo não possuía forro. O vizinho Izé tocava mal, nas antípodas do rabequista bafejado pelo milagre de Santa Cecília, todavia adquiri uma rabeca num esconso tugúrio de Budapeste porque quando a vi apareceu-me a face tisnada, ossuda, a soltar palavras apimentadas escorridas num sorriso maroto do meu vizinho enquanto batia solas retiradas de uma selha cheia de água ou cozia tombas nas botas dos dias de feira entregues para ele consertar. Um dia deu-lhe na veneta rumar até Lisboa em busca de amor antigo, encontrou-o num instante, foram felizes, engendraram uma filha de olhos bonitos que encantaram um «capitão» de Abril. O Senhor Izé não era uma caricatura do Louco Rabequista, no entanto, quando li o relato de Fernando Pessoa, a rabeca que tantas vezes vi e ouvi na aldeia apareceu-me à frente dos olhos. Uma miragem sentimental. Forte, a exalar saudade.

A concertina rufava apelos nos caminhos escuros e lamacentos a anunciar baile, a prima Teresa vinda de S. Pedro Velho não bailava, porém sabia qual a palheira onde se realizava. A concertina anunciadora dava a volta ao povo, não tardavam a surgir as raparigas acompanhadas por sentinelas familiares dos dois sexos, os rapazes estavam de tocaia fora e dentro do espaço do baile, o homem da concertina recebia paparicos e pedidos para tocar a Linda Morena (lembro-me desta), além de outras a justificarem consentidos cravanços de unhas nas palmas das nãos das namoradas às esconsas. Os leitores de idade recordem e expliquem às netas de maneira a elas rirem sem maldade de tão (para elas) arcaicos comportamentos, as leitoras avós das aldeias digam-lhe quantas censuras e bofetadas levaram por a concertina as empurrar para a arca do peito dos pares. Os jornais regionais também devem educar para no futuro o passado não se perder. Lembro-o constantemente.

A concertina é parente pobre do acordeão, na Argentina, nas covas fundas da bela (já foi mais) Buenos Aires a concertina passa à condição de bandoneón concedendo verve maliciosa ao tango porteño, na Bragança de outras eras existiam exímias tanguistas, uma apanhadeira de malhas (já desapareceu essa função) e uma costureira dos Batoques. Mostravam a sua classe nos bailes plebeus da Associação. Lembram-se?

O falecido compositor e bandeónista Astor Piazzola propiciou intensos minutos de felicidade a quem o viu no Coliseu, um pouco por todo o lado assiste-se ao reaparecimento das concertinas, além de tal revivalismo alegrar os nossos ouvidos provoca agradável formigueiro nos pés. Bem bom!

Armando Fernandes