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Comum todo

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Bons dias, saudosos amigos. As notícias começam a soar mais encorajadoras, que assim continuem. Venham de lá todas as boas novas, mas com muitos caldos de galinha, para ver se saímos desta cepa torta. Fase seguinte, tudo passa, algumas coisas permanecem para memórias vindouras, outras não. As grandes batalhas perpetuam a bravura dos seus batalhadores mais insignes, as duras empresas erguem alto o nome dos seus maiores ventureiros, os grandes labores notabilizam os seus reconhecidos mesteres. Quanto aos operários e soldados desconhecidos, sem os quais nada, erguem-se quanto muito desconhecidas estátuas. Esta semana espalhou-se aqui um desses vídeos que de repente correm até ao conhecimento de todos, recordando aos humanos que ainda neles arde um feixe de humanidade. Trazemos o mundo no bolso e do bolso vemos o mundo, minuto sim, minuto não. Em tempos antigos quem podia ia ao bolso buscar o relógio para consultar as horas, agora todos podemos e todos vamos ao bolso para consultar o mundo. Na maioria das vezes dele não chegam boas notícias, outras outras vezes chegam novas que nos lembram que nem só de sangue e de carnes se preenchem as nossas entranhas. 

O caso é o de um rapaz das entregas de comida do qual por entre casa vai, casa vem, aproveitou ter de recolher algo numa loja de conveniência para comprar uma vela e um desses bolos amassados sem graça nem brio individualmente ensacados. Esta parte da história veio-se a perceber depois de alguém de uma janela ter filmado o rapaz no meio de uma noite já longa e escura, solitariamente sentado na companhia do lancil de um passeio amigo e da sua fiel motoreta, a puxar do isqueiro e a acender a vela do seu bolo para o que sugere ser a celebração consigo mesmo de mais um seu aniversário. Findada a ceia e a pequena pausa festiva, o rapaz tira finalmente o casco da cabeça e varre com o antebraço o que parecem ser lágrimas a sair-lhe da cara, segundos antes de se montar na motoreta e largar na noite de volta à labuta. Rapaz, sei quem tu és mas desconheço-te, soldado conhecido por um dia do qual prontamente se esquecerá o teu nome. Não haveria planos que funcionassem nem quarentenas que resistissem se estes rapazes não nos tivessem desde sempre trazido com todo o estoicismo e precisão as compras do supermercado e a comida a tempo e horas mesmo até à porta de casa. Trabalharam tal como se pandemias não existissem. Os rapazes das empresas de take away merecem uma estátua. Quantas horas trabalham, dia e noite, e quanto trabalham para ganhar a vida, mais uma entrega mais uns cobres, toca (o telemóvel) e foge (para outra recolha). A solidão e as lágrimas esquecidas ao relento que só agora vimos e percebemos também somos nós que as despertamos, nós que temos alguém a satisfazer as nossas necessidades e muitas vezes os nossos caprichos que não nos querem desprendidos do conforto dos nossos espaços. As facilidades e conveniências dos nossos dias também se fazem de outros seres humanos que dão as suas vidas a esse manifesto. Um manifesto pouco nobre ao qual só reconhecemos nobreza quando o mundo nos faz parar e recolher, desnudando as nossas emoções e recentrando as nossas atenções. Tal como os trabalhadores da construção civil - ninguém ergue mais a China do que eles - que findado o dia de trabalho se juntam na soleira dos seus condomínios pré-fabricados e fazem dos seus capacetes um banco, no qual se sentam empoeirados para respirar a paz dos fins de tarde de malga de arroz na mão e aos domingos dão passeios felizes e ensaboados pelas cercanias das suas moradias. Instalações pré-fabricadas onde se vive (com as famílias, nas mais luxuosas) e de onde só saem quando completas as grandiosas edificações após meses ou anos, e onde muitas vezes, por serem pagos no final da empreitada, os empreiteiros partem e os deixam literalmente de bolsos a abanar. Uma moldura neo-realista dos tempos em que o neo-realismo era uma voz presa na garganta num museu de apurado capitalismo. Pessoas comuns, pessoas cujos olhos procuram o que procuramos todos por entre a poeira dos dias. Não me contem histórias de valentias nem de heróis, contem-me a mim e à minha filha histórias daquilo que os olhos veem, histórias de pessoas comuns como eu e tu que lutam pelas mesmas alegrias e contra as mesmas amarguras e que andam por aí a tentar perceber se amanhã nascerá um dia melhor que o de hoje. Que não se levantem estátuas de deuses nem de corifeus, mas que o cinzel e a forja dêem forma a pessoas vulgares que não podem se não sacrificar-se para que os demais continuem a ser tão demais como sempre. O justo e o injusto no mundo dos homens e em cada um de nós. A todos as pessoas comuns que sobejamente conhecemos e das quais dependemos nas batalhas de todos os dias mas que continuam e continuarão tão desconhecidas como sempre, obrigado e um abraço, sentido e demorado.

 

Leitor de Português na Universidade de Sun Yat-sen

Cantão Guangdong – China

Manuel João Pires